Lucas Daniel Tomáz de Aquino - Especial para o Estado de Minas

Durante anos, as caixas que continham material inédito do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003) ficaram empilhadas no apartamento do segundo andar do Can Miralbell, edifício histórico do século 19 situado na rua Ample, no centro histórico de Blanes, cidade costeira da Catalunha, onde o autor passou a morar a partir de 1998 com a esposa e o filho, Lautaro.

Na mesa de seu escritório, havia ainda livros, cadernos antigos, disquetes, fotografias, documentos e rascunhos inacabados. No meio do caos, ao redor de seu computador pessoal e do onipresente cigarro, pilhas de folhas datilografadas formavam um conjunto heterogêneo de manuscritos, anotações e versões incompletas de histórias que só a partir de 2006, três anos após a morte de Roberto, começaram a ser reunidas e catalogadas por sua viúva, Carolina López.

Deste intento póstumo de catalogação, conhecido hoje como Archivo Bolaño, nasceu “2666”, livro que catapultou o autor chileno ao estrelato mundial (com direito a fãs do quilate de Patti Smith e Francis Ford Coppola) e obras que geraram uma “bolañomania” a nível global. Emergiram do arquivo também outros livros, dentre os quais “Sepulcros de caubóis”, lançado recentemente pela Companhia das Letras com tradução primorosa de Josely Vianna Baptista. 

Publicado originalmente em 2017 pela Alfaguara da Espanha, “Sepulcros de caubóis”é constituído por três narrativas curtas que, embora possam ser lidas de modo independente, dialogam entre si e com o restante da obra de Bolaño, ampliando o seu universo ficcional e antecipando temas que ele desenvolveria em outros livros. Estas peças literárias carregam em germe toda a obsessão que o consagrou, um emaranhado que mistura ditadura latino-americana, exílio, deslocamento, escritores, poetas, juventude errante e a própria literatura. 

No livro, temos a impressão de adentrar em um universo inteiro já conhecido, mas que esse mesmo universo ainda não conhece sua própria dimensão. Isto porque, além dos elementos já conhecidos, a trinca de contos longos (ou novelinhas curtas) data de momentos diferentes, cuja dispersão temporal revela diferentes estágios do processo criativo do autor e aponta limites que só se deixam entrever retrospectivamente. 

Lidas em conjunto, as narrativas atravessam quase uma década da vida do autor e evidenciam como a fragmentação cronológica presente no livro espelha a própria lógica da obra de Roberto Bolaño: um projeto literário aberto, obsessivamente temático e em constante movimento. 

Esse sentimento de retorno já é familiar aos leitores. Ainda que essa impressão seja enganosa, aqueles que leram “2666” e “As agruras do verdadeiro tira”tiveram a impressão de estar diante de uma espécie de continuação: os personagens recorrentes, a cidade de Santa Teresa, o desenvolvimento das cenas e a estilística comum a ambos os livros. 

Em “Sepulcros de caubóis”, a familiaridade com esse universo também se impõe, mas como um território ainda em formação. Estão ali os personagens Arturo Belano e Rigoberto Belano (ambos alter egos e anagramas de seu nome) e o Grupo Surrealista Clandestino como resultado de suas vivências pessoais no Movimento Infrarrealista que ele participou nos anos 1970, no México, junto com o poeta Mario Santiago Papasquiaro. 

Também aparecem no texto elementos de suas próprias narrativas, como o avião que escreve poemas no céu, presente no romance “Amuleto”, o personagem Juan Cherniakovski de “Estrela distante” e o início do conto “O verme”de “Chamadas telefônicas”

Tudo isso não se reduz a um reaproveitamento simplista. Se algumas passagens do livro reaparecem ou se transformam em obras posteriores de maior fôlego, é porque Bolaño concebe a literatura como um labirinto, no qual cada livro ilumina seus temas por um ângulo distinto, e a recorrência deliberada confirma a existência de um mesmo universo narrativo em permanente expansão. 

Dessa recorrência surgem também desdobramentos temáticos. O texto “Pátria”, cuja narração é feita por um poeta de pai boxeador (tal como a vida real do autor), mostra a brutalidade que aparece sob o signo da ditadura e do 11 de setembro chileno e que ressurge em outras formas de violência ao longo de livros posteriores, seja no feminicídio em Santa Teresa ou nas atrocidades ligadas ao nazismo. O mal gira no próprio eixo. 

Algo semelhante ocorre em “Comédia de horror da França”, que questiona a institucionalização das vanguardas literárias e a transformação da rebeldia estética em capital simbólico. Nesse texto, o recrutamento de indivíduos para a literatura por meio de telefones públicos antecipa a recorrente busca por escritores desaparecidos (como Archimboldi) e por poetas à deriva. Essa busca, que reaparece em “Os detetives selvagens”com o flâneur Arturo Belano, reaparece ainda sob outra forma na peça que dá título ao volume, marcada pelo retorno do alter ego ao Chile. 

Vistas em conjunto, as três narrativas do livro, com suas idas e vindas, revelam um autor que rascunha, pensa e reescreve sempre os mesmos livros de propósito para tentar compreender o trauma latino-americano por vieses distintos. Bolaño jamais tenta resolver o mundo e seu horror, mas simplesmente os testemunha através da criação e ampliação de seu universo ficcional disperso por décadas a fio. 

UM FÍGADO COMO DÍVIDA 

Na manhã de 1º de julho de 2003, após tossir sangue, o autor de “Sepulcros de caubóis” deu entrada no hospital Valle de Hebrón, em Barcelona. Não estava acompanhado da esposa, mas de Carmen Pérez de Vega, a quem vinha apresentando nos últimos meses como sua namorada. 

Em seu leito, após uma hemorragia interna, choque hepático e dez dias em coma, morreu de insuficiência hepática, aos 50 anos, em 15 de julho, enquanto aguardava um transplante de fígado. Na ocasião, o poeta chileno Nicanor Parra disse: “devemos um fígado a Roberto Bolaño”. 

O diagnóstico em 1992 da doença hepática degenerativa que o manteve por quase uma década na fila de transplante, marcou uma inflexão decisiva em sua escrita. Se nas obras de juventude Bolaño escrevia movido sobretudo pela vocação e pela obsessão pela literatura e ato mesmo de escrever, a partir do ano seguinte ele iniciaria a redação da primeira peça de “Sepulcros de caubóis”(onde Nicanor Parra é mencionado), já sob o signo da consciência de um fim próximo que culminou em uma produção prolífica. 

Essa mudança brusca de motivos para a execução de sua escrita é exemplificada nas instruções deixadas pelo autor a seu editor da Anagrama, Jorge Herralde, acerca da publicação de “2666”no início da década de 2000: que as cinco partes correspondentes ao grande projeto narrativo fossem publicadas separadamente, como cinco obras distintas, a fim de garantir a sobrevivência e o conforto financeiro de sua esposa e filhos após sua morte. 

Os três manuscritos de “Sepulcros de caubóis”fazem parte do Archivo Bolaño, o arquivo pessoal do autor que, em 2013, foi parcialmente exposto no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona e que, em seu conjunto, reunia mais de 14 mil páginas entre contos, esboços de personagens, cartas, recortes de jornais e novelas inéditas. 

Nesse arquivo, havia um caderno datado de 1992, de capa vermelha de plástico, na qual um touro branco com um asterisco no centro adornava a parte inferior. Nas páginas quadriculadas, Bolaño escreveu em letra pequena e levemente inclinada: “Só a poesia é transcendente”. 

Diante de tais palavras, a frase do poeta Nicanor Parra deixa de ser apenas o epitáfio mais conhecido de Roberto Bolaño. Devemos mais do que um fígado porque, além de criar um universo incalculável, sua literatura foi escrita como uma forma heroica de sobrevivência e também de transcendência.

“SEPULCROS DE CAUBÓIS”

De Roberto Bolaño

Tradução de Josely Vianna Baptista

Companhia das Letras

192 páginas

R$ 79,90

Capas dos livros '2666', 'Putas assassinas' e 'Os detetives selvagens', de Roberto Bolaño

Cia das Letras/Reprodução

Três livros indispensáveis do escritor chileno

“2666”

Tradução de Eduardo Brandão

Companhia das Letras

856 páginas

R$ 144,90

A obra-prima que levou Roberto Bolaño a ganhar reconhecimento mundial é um projeto ambicioso: cinco partes independentes que se interligam em uma espinha dorsal de crimes e viagens até o vértice pulsante das narrativas: a cidade de Santa Teresa, que é inspirada em Ciudad Juárez, onde, nos anos 1990, uma série de feminicídios reais vitimou operárias de maquiladoras. Aqui, transportada para a ficção, lemos mais de duzentas descrições nauseantes de crimes contra mulheres, com corpos esquecidos em lixões ou no deserto. A obra articula ainda a desfragmentação familiar de um professor de filosofia, a reconstrução da vida de um jornalista após a morte da mãe ao ir cobrir uma luta de boxe em Santa Teresa, um campus novel recheado de críticos literários desesperados e o romance de formação de um soldado nazista. Um panorama não apenas das obsessões pessoais do autor, mas de todo o século 20, onde a fragmentação estrutural do livro reflete a desintegração completa do mundo: da cultura ao nazifascismo. 

“OS DETETIVES SELVAGENS”

Tradução de Eduardo Brandão

Companhia das Letras

624 páginas

R$ 134,90

Primeiro romance que deu o reconhecimento a Roberto Bolaño como grande escritor (e garantiu algum alívio econômico), “Os detetives selvagens” (1998) venceu os prestigiosos prêmios Herralde e Rómulo Gallegos. O livro narra a trajetória de um par de escritores errantes e do movimento Real Visceralista, baseado no movimento literário de juventude que ele criou no México da década de 1970 com o poeta Mario Santiago Papasquiaro. Acompanhamos, através de múltiplas vozes, Arturo Belano e Ulises Lima em busca de uma poeta desaparecida, além do sentido da própria literatura. Ambos espelham, cada um ao seu modo, a vida literária em deriva existencial, o fracasso das vanguardas literárias e o sonho em ruínas da juventude latinoamericana que atravessou a ditadura. 

“PUTAS ASSASSINAS”

Tradução de Eduardo Brandão

Companhia das Letras

224 páginas

R$ 89,90

Nesta coletânea de contos, marcada por sexo, violência, pesadelo, deslocamento e memória, as formas breves intensificam temas que seriam desenvolvidos mais tarde pelo autor, evidenciando, mais uma vez, a instabilidade do mundo pós-moderno. Publicado originalmente em 2001, nos contos de “Putas assassinas” temos também a volta de personagens recorrentes do autor como Arturo Belano e Lalo Cura, inseridos em contextos diversos. Eficiente porta de entrada para a leitura de Roberto Bolaño, a obra evidencia sua estilística e seus temas obsessivos, revelando, de modo condensado, o núcleo do universo ficcional do chileno.

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LUCAS DANIEL TOMÁZ DE AQUINO é escritor e tradutor. Mestrando em Metafísica pela UnB, é professor de filosofia na FATEO (DF), além de editor-chefe adjunto associado ao Instituto de Estudos Filosóficos da Universidade de Letras da Universidade de Coimbra.

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