Schneider Carpeggiani - Especial para o Estado de Minas 

O aspecto que me fez leitor cativo do norueguês Jon Fosse, Prêmio Nobel de Literatura 2023, foi o som das vozes que escuto gritar, arranhar, sussurrar e gemer por dentro dos seus livros. A importância que o autor imprime nessa sua orquestração de sons deve ter muito a ver (arrisco afirmar) com a sua atuação como dramaturgo, antes de se firmar como um dos prosadores mais originais da atualidade. Mas o que importa é que as vozes nos assaltam, vacilam e, sobretudo, repetem e repetem, como se moessem cada uma das palavras. Estão no limiar do que entendemos por “loucura”(as aspas são necessárias). Numa conversa com a escritora Socorro Acioli, discutíamos sobre a dificuldade de captar na escrita a voz do que acreditamos ser a figura do “louco”. Lembro de ter lhe mostrado um trecho da novela “A casa de barcos”, do Fosse. Ao ler a passagem, ela afirmou: “É isso, ele (o ‘louco’) volta sempre ao mesmo ponto, não sai do lugar”. 

Em “A casa de barcos”, a repetição das palavras faz do narrador uma espécie de hamster, em círculos ao redor da sua dor: “EU NÃO SAIO MAIS DE CASA, uma angústia tomou conta de mim, e não saio mais de casa. Foi neste verão que a angústia tomou conta de mim”— começa a obra. Nas páginas seguintes, a palavra “angústia” é quase como uma vírgula pontuando o desenrolar da ação. O problema é que viver a angústia é a única forma de ação. Já não há saída. Na novela “Brancura”, é o método que enreda o narrador. É a descrição detalhada do que ele está fazendo que o prende. As palavras constroem a jaula: “EU DIRIGIA SEM PARAR. Era bom. Era boa a sensação de estar em movimento. Sem saber para onde estava indo. Apenas dirigia. O tédio havia se apoderado de mim, logo de mim, que nunca me deixei afetar por ele. Nada que me passasse pela cabeça me animava.” 

Impressionante também é o poder mágico que a repetição exerce na peça “Vai vir alguém”. Um casal decide comprar uma propriedade distante da civilização, para reconstruir a vida. Mas há um medo, e um desejo, de nunca se estar completamente a sós. Convertido ao catolicismo, Fosse acredita que nunca conseguimos nos esconder/ nos afastar totalmente de Deus. Ele está no meio de nós, até mesmo por subtração. Uma personagem chamada apenas ELA passa o enredo da peça a repetir a variação da suspeita/ameaça que a aflige: “Mas será que estaremos mesmo sozinhos/ é como se alguém mais estivesse aqui/ Aflita/ Alguém está aqui/ Vai vir alguém”. A função da repetição para o angustiado é convencer. A função da repetição na prece é fazer realizar. Ou fazer aparecer. 

Entender a importância das vozes em Fosse é fundamental para chegarmos a “Heptalogia”, empreitada maior do escritor norueguês e, assim como os outros títulos aqui citados, traduzido por Leonardo Pinto Silva. Em entrevistas recentes, o autor revelou seu alívio por ter finalizado “Heptalogia” antes das interrupções que a agenda típica que um Prêmio Nobel exige. Não é para menos. Lançado em partes em outros países, ele chega ao Brasil num volume único pela Editora Fósforo, com quase 700 páginas. A decisão editorial —arriscada nesses tempos em que tanto se fala no valor de livros curtos, rápidos, livros de “uma sentada”— é a que melhor realiza as exigências que a obra faz ao leitor. E não são poucas. 

Ler “Heptalogia”é um salto radical no universo circular que Fosse ergue a cada novo título. Não é uma leitura para iniciantes. Para isso, indico os já citados “A casa de barcos” e “Brancura”, talvez a novela que melhor represente a sua conversão ao catolicismo. “Heptalogia”é uma leitura que exige tempo. E não falo isso apenas pelas suas centenas de páginas, e sim pela necessidade de escuta cuidadosa com que o livro nos interpela. Fosse trabalha com uma temporalidade particular, não adianta querer atropelá-la. Para quem já foi enredado no seu universo, a tarefa é, no entanto, das mais fascinantes. Temos o monólogo interior de um pintor viúvo, Asle, que vive quase isolado, com exceção de dois amigos. E o que se repete aqui não são apenas as palavras, também o próprio Asle que tem um duplo, também artista, que luta contra o alcoolismo. 

Discorrer pormenores da trama de “Heptalogia” é mera perda de tempo. É como recair no erro que o próprio Asle nos alerta ao comentar o aspecto “narrativo”de uma pintura, que sempre diz alguma coisa sem dizer coisa alguma, ou mesmo diz silenciosamente, mostrando algo que não pode colocado em palavras. Ainda assim, vale a pena ressaltar que cada uma das suas sete partes começa com a variação de uma mesma frase, “E me percebo de pé olhando”, e termina com uma oração em latim, que parece que vai se adensando à medida que o livro avança. É como se precisássemos rezar mais e mais alto. E, ao lermos as preces, invariavelmente pensamos em tudo aquilo que, na nossa existência diária, soa como uma oração, age como uma oração, ainda que sem um caráter litúrgico. Rezar é também apenas repetir. 

Dito tudo isso, parece que a leitura de “Heptalogia” é uma tarefa que exige mais fardo do que prazer. Mas o que Fosse nos convida a conhecer com sua obra máxima é justamente a salvação pelo labirinto. Para isso, basta abrir os ouvidos e se deixar levar.

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“HEPTALOGIA”


De Jon Fosse
Tradução de Leonardo Pinto Silva
Fósforo
688 páginas
R$ 159,90

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