A porta de entrada para a obra do prêmio Nobel Lázló Krasznahorkai
Com desfile de personagens tragicômicos costurados com maestria,'O retorno do Barão de Wenckheim' é o mais acessível do autor húngaro
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Com tradução de Zsuzsanna Spiry, “O retorno do Barão de Wenckheim” é o segundo romance do húngaro Lázló Krasznahorkai lançado no Brasil pela Companhia das Letras. O “retorno”do título é para a terra natal do Barão: uma cidade decadente no interior da Hungria, pobre, cheia de poeira e lamentações – cujos moradores esperam a volta do Barão como quem espera o próprio Salvador, um messias dono de uma fortuna incomensurável, que transformará a cidade para sempre, retirando-a da miséria e da estagnação econômica em que se encontra há décadas. Claro que, em se tratando de uma trama do mesmo autor de “Sátántangó”(também lançado pela Companhia das Letras, com tradução de Paulo Schiller), é de se esperar que a chegada do ilustre filho à sua terra de nascença seja distorcida pela expectativa mirabolante dos citadinos, sedentos por uma “prosperidade”e por “uma nova vida húngara sobre a qual até agora”eles só sonharam.
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Mas por que tal expectativa? Porque o Barão se encontra velho, no fim da vida, isto é, naquela idade provecta em que um homem de posses, solteiro e sem filhos (logo, o último descendente de uma família nobre e antiga) deve estar preocupado em deixar um legado para as próximas gerações. E que legado melhor que recuperar sua cidade, construir fontes de água, hotéis, restaurar o antigo e imponente castelo da família que hoje serve de orfanato?
Até aí tudo bem. Ocorre que o Barão rico, culto, nobre e refinado que todos esperam com uma avidez vergonhosa não passa do fruto delirante da imaginação de uma cidade falida e condenada, pois o que está a caminho de casa em uma viagem de trem (com ecos dostoievskianos) é um velho desengonçado, pensativo e nostálgico, que perdeu toda a fortuna da família nos cassinos de Buenos Aires, cidade de seu exílio, e que retorna à Hungria sem um centavo no bolso, na intenção de terminar sua vida no mais completo ostracismo e, quem sabe, reencontrar Marika, seu grande e platônico amor dos tempos da escola. E é justamente quando se dá conta do contraste entre a realidade que se aproxima e a expectativa dos pobres coitados, que o leitor ou a leitora de “O retorno do Barão de Wenckheim” nota o humor insinuado em uma marca d’água desde a “Advertência”(na verdade, o prólogo) do livro; humor que logo se tornará a tônica, à medida em que sabemos cada vez mais, e com riquezas de detalhes sempre maiores, que, em breve, os moradores da cidade ficarão completamente desapontados com suas próprias esperanças.
Ao passo em que o trem avança, o clima progride para o burlesco: muitos estão escrevendo discursos para recepcionar o ilustre milionário na estação, ou lotando as bibliotecas públicas para saber mais sobre a Argentina; as mulheres que vestem trapos humilhantes sonham com vestidos de seda; os comitês que ensaiam homenagens sonham com recursos volumosos, enquanto tentam dosar a falsidade com a falta do que dizer sobre o Barão (já que pouco se conhece sobre ele); o prefeito sonha em restaurar o coral de senhoras, as igrejas repetem aleluias na tentativa de aludirem a uma época da qual ninguém se recorda ou tem certeza se de fato existiu; há também uma gangue de motociclistas composta de “vigaristas de toda ordem”que projeta no Barão o retorno da limpeza e da ordem (em uma clara referência a projetos neofascistas) e um professor-cientista que abandona sua pesquisa sobre musgos para viver solitário em uma cabana após um colapso nervoso – professor a quem a gangue de aloprados tenta cooptar.
Todo esse desfile enfim, de personagens tragicômicos e absurdos, é costurado com maestria e dicção polifônica. A narrativa é uma orquestra de vozes em que diferentes perspectivas e diálogos (com longos parágrafos) se mesclam, criando uma complexa tapeçaria oral. A oralidade, aliás, é um ponto que se mantém alto ao longo do livro – e aqui destaco o mérito da tradutora em conseguir transpor as alucinações verbais de Lázló Krasznahorkai para o português, sem perder a chance de pontuar nossa brasilidade (há até uma homenagem a Mussum no trecho que diz que todos “deveriam deixar tudo pra trás e se pirulitar”). No cerne de tudo, a maneira estupenda com a qual Krasznahorkai mantém a dinâmica da intercalação das vozes: através de um narrador em terceira pessoa que some do palco muitas vezes, para ecoar a dicção e a consciência dos diversos personagens que entram e saem das cenas com uma velocidade vertiginosa.
Apenas isso seria suficiente para colocar o romance em um patamar de obrigatoriedade de leitura, mas Krasznahorkai vai além, depositando na personagem do Barão o amálgama no qual associa esperança com fascismo – e messianismo com totalitarismo – para compor um panorama do flerte húngaro com os regimes autoritários em pleno século 21, pois no momento em que todos esperam uma ordem, qualquer ordem, das figuras de poder, a abstração mental pode ser incendiada pelo primeiro slogan fascista que aparecer, como por exemplo, “quintal limpo, casa em ordem”.
Comparado ao ouroboros caudaloso, apocalíptico e circular de “Sátántangó” (cujas longuíssimas frases parecem andar na lama que a chuva incessante descrita pelo narrador deixa para trás), “O retorno do Barão de Wenckheim”tem leitura mais acessível, embora ainda exija um leitor disposto a entrar no jogo das digressões para achar o fio da meada das diversas histórias entrelaçadas e seguir em frente. Curioso é que o nome “Sátántangó”(tango de Satã) aparece várias vezes na história do Barão como um sucesso mundial de um famoso grupo de dança folclórico da cidade, em uma autorreferência saborosa aos olhos de quem já leu o mais conhecido romance do Prêmio Nobel de Literatura de 2025.
TADEU SARMENTO é escritor e leitor fervoroso
TRECHOS
(De “O retorno do Barão de Wenckheim”)
“Porque tem uma coisa grandiosa para acontecer, pois corre a notícia de que o senhor Barão, o senhor sabe, o senhor Barão, segundo dizem, ele está voltando para casa, imagine só, o senhor Barão voltando da América (...). Porque todo mundo está dizendo que daqui para a frente a nossa vida por aqui vai mudar, porque o senhor Barão vai voltar, e todo mundo está dizendo que tudo será diferente, se o senhor Barão estiver aqui, e segundo dizem ele já está no trem, dizem que o viram em Budapeste, acho”.
“A Terra nunca carregou nas costas um povo tão detestável como vocês, mesmo não podendo estar muito extasiados com o que em geral vemos nesta Terra, mas pessoas mais abomináveis que vocês nunca encontrei, e considerando que sou parte de vocês, portanto, estou muito próximo de vocês, em primeiro lugar é difícil encontrar palavras exatas para descrever essa característica repulsiva que torna vocês subservientes a todas as nações, pois é difícil encontrar palavras em que hierarquia imaginamos o repositório de qualidades humanas abomináveis que se usa para repelir o mundo que os conhece”.
“O RETORNO DO BARÃO DE WENCKHEIM”
De Lázló Krasznahorkai
Tradução de Zsuzsanna Spiry
Companhia das Letras
512 páginas
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