Giovanna Soalheiro - Especial para o Estado de Minas

Apneia, dispneia, eupneia: três partes de um mesmo romance, de um mesmo corpo. No aparelho respiratório, esses conceitos científicos caracterizam a interrupção, o desconforto e o conforto da respiração, respectivamente. Podemos pensar ainda que os dois primeiros termos se referem à insuficiência do ato natural de respirar, por qualquer que seja a razão. Em “Abafada” (Reformatório), de Marcela Fassy, romance vencedor do Prêmio Caio Fernando Abreu, é possível estabelecer um motivo para essa falta de ar: nele, há um corpo feminino adoecido pela insistente sistemática da opressão, da violência e do abuso. Esse mesmo corpo aspira a conta-gotas, entre os muitos parênteses que envolvem não apenas o sentido - em suspensão quase sempre -, mas também a forma, entrecortada, da primeira à última página, por esse sinal gráfico que expande as redes do conflito. Não devemos nos enganar quanto ao título aparentemente jocoso, que poderia ter o simples sentido de “se esconder” ou de “dissimular” (abafar um caso, por exemplo). A história, no entanto, traceja um duplo jogo de interior e exterior, de um eu-mulher e a sua relação com o outro. 

O motivo principal do romance é o corpo-experiência de uma professora universitária, cuja trajetória é marcada por contatos, comportamentos autodestrutivos e pelas crises que disso decorrem. Entre a doença física-psíquica e a busca por uma possível cura, a protagonista convida o leitor a ingressar em sua interioridade, por meio de um fluxo de consciência radicalizado, capaz de dissolver fronteiras temporais e espaciais. Essa indeterminação, recorrente na prosa contemporânea - associada aos “restos do real” -, na formulação de Garramuño (2008), tem, na fragmentação, o princípio estruturante da obra. Enovelada por parênteses, como já mencionado, os capítulos de “Abafada” também se sustentam na elasticidade que circunscreve e, ao mesmo tempo, despedaça a experiência da personagem (não nomeada), que é ainda a biografia de muitas mulheres no Brasil e no mundo.

Nesse sentido, o tópos central da ficção de Fassy se perlabora - e não apenas se elabora -, na medida em que a subjetividade da personagem central se constitui a partir das lembranças traumáticas do passado (a infância reprimida pela mãe, a imposição da heteronormatividade, o casamento, a necessidade de ser mulher, conforme impõe a estrutura patriarcal) e da reconfiguração desse tempo no momento na enunciação. Diante disso, temos acesso àquilo que a linguagem tenta comunicar - e de fato comunica -, ou seja, à enfermidade de um corpo, ocasionada pela opressão à sociabilidade feminina em seu modo de ser e estar distinto das convenções. O que se lê é o modo como a lógica fálica se impõe contra a mulher, a ponto de levá-la ao colapso sistêmico, e contra o qual a resistência demonstra a sua força, como se verá na última parte do romance.

A insistência dos parênteses, portanto, institui um regime discursivo formado por anacolutos, configurando uma escrita acelerada - procedimento formal, mas também marcador fisiológico da intensidade e da pausa necessária ao corpo físico e escrito nestas páginas. Por isso mesmo, a protagonista afirma: “(se me permite um parêntese, a minha cabeça é uma geringonça muito maltratada, sinto vontade de arrancá-la pelo menos uma vez ao dia, por enquanto vou tentando equilibrá-la em cima do meu pescoço, mas sinto que a qualquer momento ela pode deslizar (...)”. A sintaxe, hesitante nesse caso, acompanha a desestabilização da consciência narradora, à medida que um relacionamento abusivo surge nas cenas, projetado também nas metáforas etológicas: o sexo burocrático com um homem casado, o pescoço frágil da mulher, ou da galinha, as marcas vermelhas deixadas pela mão masculina nessa parte frágil do corpo. Nesse percurso, tem-se o processo de coerção afetiva, evidenciando o caráter estrutural da violência de gênero, o que aproxima o romance, em alguma medida, da crítica feminista, como se pode notar nas muitas referências do livro (a argentina Silvina Ocampo, Hilda Hilst e Simone de Beauvoir, por exemplo).

Em “Abafada”, o tempo e o espaço dão lugar a uma voz que deseja pôr fim ao ethos patriarcal. Por isso, a experiência de estranhamento se mantém na dicção de Fassy - ou melhor, na dicção da protagonista que, não podemos deixar de dizer, é também a escritora de sua própria vida. Se o narrador de 1ª pessoa se coloca, em muitas situações, sob suspeita, no caso do romance aqui apresentado, deve-se atentar à outra percepção: narra-se ou se escreve para melhor compreender, para deixar que o outro leia e possa talvez reconhecer as formas de violência contra todas nós, mulheres. Na última seção - intitulada “Eupneia” –, a narradora dá início à reação e, enfim, respira. 

GIOVANNA SOALHEIRO é doutora em Estudos Literários pela UFMG

“Abafada” 

De Marcela Fassy

Reformatório

168 páginas

R$ 62

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Sobre a autora

Nascida em BH em 1984, Marcela Fassy é formada em História pela Universidade Federal de Minas Gerais, especialista em artes visuais (Senac-mg) e mestre em ciências humanas (UFVJM) pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. É autora das coletâneas de contos “Oniros” (Urutau, 2022), “Animais cinzentos” (Viseu, 2021) e do romance "Abafada" (Reformatório). 

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