Novas edições de clássicos revigoram presença de Thomas Mann no Brasil
Com ilustrações e posfácios inéditos, novas edições de 'A morte em Veneza' e 'A montanha mágica', do Nobel alemão, chegam às livrarias
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O coronavírus assombrava terras além-mar, ainda sem dar as caras no Brasil, e lá estava eu, na livraria de um shopping, em Belo Horizonte, comprando duas obras recém-lançadas de Thomas Mann (1875-1955). Uma delas, “A montanha mágica”, de 1924, que o mundo conheceu cinco anos antes de o escritor alemão ser premiado com o Nobel de Literatura (1929). Embora já o tivesse lido, me interessei pela nova edição da Companhia das Letras. Ao me ver segurando o livro, um senhor, ao lado, puxou assunto e disse que gostaria muito de ler “o monumental clássico”, mas lhe faltava coragem. “Tem mais de mil páginas, letra miúda...não é cansativo, não?”, indagou.
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Devolvi a pergunta com um sorriso, e busquei uma resposta animadora, pelo menos. “Livro não é para se temer. Pense como uma viagem, do princípio ao ponto final. Nesse caso específico, se imagine num trem, do qual você desembarcará na estação perto de uma montanha. Depois suba lentamente, sem pressa, e fique lá no alto por um bom tempo. Aliás, tempo é a alma desse livro. Haverá emoção, claro...e muitas surpresas, com gente de todo canto, sempre cheia de história. Depois, é só descer, porém a ansiedade na volta ficará por sua conta”.
O homem ouviu com atenção cada palavra, e falou, bem-humorado: “Acho que irei por um caminho mais curto...até Veneza, também pelas mãos de Thomas Mann”. E, assim, pegou o volume de “A morte em Veneza”, obra publicada quando Mann tinha 37 anos, pagou e foi embora. “É um belo começo e ótimo caminho para entrar no universo de Mann”, disse baixinho com alguma experiência, pois já “devorei” essa obra-prima várias vezes e tenho todos as demais do também autor “Os Buddenbrook”, “Doutor Fausto”, “O eleito”.
Citei a pandemia no início do texto, e confesso que aproveitei vários momentos do período recluso para me dedicar mais à leitura dos escritos de Mann, incluindo, claro, “A morte em Veneza”, que comprei junto com “A montanha mágica”. Por sinal, as obras do escritor alemão entraram em domínio público no início deste mês.
Passados exatamente seis anos, o diálogo na livraria me vem inteirinho à cabeça, em função de três relançamentos. Pela editora mineira Zain, foi publicado “A morte em Veneza”, tecnicamente, uma novela, que tem como protagonistas o escritor Gustav von Aschenbach e o jovem Tadzio – a título de memória e homenagem, vale lembrar que no filme (1971) baseado no livro, dirigido por Luchino Visconti (1906-1976), o garoto é interpretado pelo sueco Björn Andrésen, falecido em 25 de outubro de 2025, aos 70 anos.
De forma inédita, o livro da Zain, nos formatos box (edição limitada, com um encarte) e brochura, se compõe do texto de Mann e de um libreto de Myfanwy Piper (1911-1977) para a ópera “Death in Venice” do compositor igualmente britânico Benjamin Britten (1913-1976). O trabalho concluído em agosto de 1970 nunca foi encenado no Brasil. Há ainda dois posfácios: do paulista João Silvério Trevisan, autor do romance “Ana em Veneza”, que tem como personagem a brasileira Julia da Silva Bruhns Mann (1851-1923), mãe de Thomas Mann e natural de Paraty (RJ), e Dieter Borchmeyer, considerado um dos maiores especialistas no mundo na obra do ganhador do Nobel de 1929.
“A morte em Veneza” também ganha nova edição pela editora Antofágica, com tradução direta do alemão a cargo de Petê Rissatti e mais de 80 artes de Mariana Darvenne. O volume tem apresentação da escritora Tatiana Salem Levy e textos extras do professor Marcelo Backes, da autora Amara Moira e de Paula Jacob, crítica e pesquisadora de cinema. Ambientada na cidade italiana, capital da região do Veneto, a história reúne beleza, desejo silencioso, agonia, destruição e um dilacerante epílogo.
Paralelamente, a Companhia das Letras (selo Penguin) relança “A montanha mágica”, com tradução de Herbert Caro e o posfácio “Leo Naphta e Lodovico Settembrini: Vozes ideológicas na formação de Hans Castorp”, de Marcus Vinicius Mazzari. O objetivo das edições Penguin, para títulos que fazem parte do catálogo da Companhia das Letras, “é oferecer um livro de valor mais acessível ao consumidor, preservando a mesma qualidade e rigor editorial”, informa a editora.
TODOS OS TEMPOS DO MAGO DAS PALAVRAS
Esta edição do Pensar inclui trechos do artigo “A ironia em ‘A morte em Veneza’, de Thomas Mann”, do professor de alemão e teoria da literatura na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Georg Otte. “No campo da literatura, está uma ‘certa ironia’, presente em muitos personagens criados por Mann. Há um contraste entre o propósito de um personagem e o que realmente acontece com ele”, explica Otte. Um bom exemplo está no escritor Gustav von Aschenbach, que viaja para um período de repouso na turística cidade italiana.
Leia: Da biblioteca ao libreto: 'A morte em Venenza' na versão ópera
Leia: Georg Otte analisa a ironia em 'A morte em Veneza', de Thomas Mann
Sobre “A montanha mágica”, o professor Georg Otte, alemão naturalizado brasileiro, escreveu: “’A montanha mágica’ troca o diagnóstico da burguesia hanseática pelas vivências do seu protagonista Hans Castorp, que deixa esse meio social do Norte da Alemanha para trás a fim de se retirar num sanatório nos Alpes suíços, perto de Davos. Sem dúvida, o sanatório também tem sua vida social, mas essa se restringe a um grupo bem circunscrito e ao mesmo tempo isolado dos pacientes de tuberculose, isto é, das pessoas que já não exercem mais suas funções sociais. O tempo nesta “montanha mágica” é diferente do tempo na ‘planície’: não são mais os negócios que determinam a vida das pessoas, mas é o ócio que a doença impõe a elas.”
No posfácio da edição da Penguin/Companhia das Letras, Marcus Vinicius Mazzari, professor de teoria literária e literatura comparada na Universidade de São Paulo (USP), explica a gênese de “A montanha mágica” (1924). “Movido pelo desejo de escrever um contraponto satírico à novela ‘A morte em Veneza’, publicada em 1912, Mann começa a trabalhar nesse mesmo ano numa narrativa que trazia então o título “A montanha encantada” (“Der verzauberte Berg”), mas a deflagração da guerra em 1914 acarreta uma interrupção de quatro anos, após os quais o projeto é retomado e passa a se expandir prodigiosamente, até atingir as várias centenas de páginas distribuídas nos dois volumes que vêm a lume em novembro de 1924. No segmento ‘Passeio pela praia’, que abre o derradeiro capítulo, o próprio narrador caracteriza ‘A montanha mágica’ como um ‘Zeitroman’, tanto por tematizar o fenômeno (Zeit: tempo) que no início da era cristã tão profunda perplexidade causou em Santo Agostinho (“Quid est ergo ‘tempus’?, pergunta ele no livro das “Confessiones”), como por desdobrar vastíssimo painel sobre o tempo histórico que conduziu à guerra na qual irá se perder a trajetória do singelo “viajante em formação” (Bildungsreisender) Hans Castorp.”
Já na edição da Zain, João Silvério Trevisan joga mais luz na estrada do leitor para se deliciar com a novela “A morte em Veneza”. Em “Thomas Mann e a diáspora do desejo”, ele destaca que, para o escritor alemão, “o grande pecador é quem tem mais condições de se aproximar da divindade”. E mais: “Numa carta ao irmão Heinrich, logo antes da Primeira Guerra Mundial, Thomas admitia: ‘Todo meu interesse sempre se voltou para a decadência; deve ser isso que impede meu interesse pelo progresso’”.
Na mesma edição, Dieter Borchmeyer observa que “A morte em Veneza” pode ser lida em dois níveis: tanto em um nível fiel aos fatos como em outro mítico-simbólico (este último pelo sistema de ‘leitmotivs’). “Quem desconsidera um desses níveis densamente interligados perde o sentido contextual da narrativa. Infelizmente, é o que ocorre – ao contrário da última ópera de Benjamin Britten, ‘Death in Venice’ (‘A morte em Veneza’) – na adaptação cinematográfica de Luchino Visconti, de 1971, que transporta de forma engenhosa o nível realista da narrativa para a linguagem imagética do filme, mas ignora completamente o nível mítico, reduzindo a novela a uma ‘love story’ homoerótica sentimental”.
RAÍZES BRASILEIRAS
Muita gente se surpreende ao tomar conhecimento das raízes brasileiras de Thomas Mann. Em Paraty, no litoral fluminense, ainda existe o casarão onde viveu a mãe de Thomas Mann, Julia da Silva Bruhns (1851-1923), apelidada de Dodô na infância, e, após o casamento, senhora Júlia da Silva Bruhns Mann. Ela nasceu nessa histórica cidade, tudo indica entre as localidades de Graúna e Rio Pequeno, durante mudança da família.
Dodô viveu no sobrado até a morte da mãe, Maria Senhorinha da Silva. Não passou muito tempo e o pai de Júlia, o abastado fazendeiro alemão Johann Ludwig Hermann Bruhns, naturalizado brasileiro com o nome de João Luiz Germano Brunhs, levou a menina e irmãos para seu país natal, mais exatamente para Lübeck. Nessa cidade, Júlia adotou o alemão como primeiro idioma e esqueceu de vez a língua materna.
Casada aos 17 anos com o senador e comerciante alemão Thomas Johann Heinrich Mann, de 29, Júlia teve cinco filhos: Heinrich (também escritor de renome, autor de “Doutor Fausto”), Thomas, Julia, Carla e Viktor. Thomas nasceu em Lübeck, em 6 de junho de 1875. Cresceu numa família abastada e, após a morte de seu pai (1891) e a extinção da empresa, eles se mudaram para Munique, onde o segundo filho ingressou no cenário literário. Desde cedo, seu talento ganhou atenção, como ficou evidente na novela “O pequeno Sr. Friedemann” (1898).
Aos 30 anos, Thomas se casou com Katia Pringsheim, de uma rica família judia. Dos seis filhos, dois – Klaus e Erika – se tornaram escritores de sucesso, a família Mann se tornou-se uma espécie de dinastia intelectual ao longo das décadas.
Embora tenha sido considerado politicamente conservador por muito tempo, Thomas Mann se mostrou um defensor da democracia durante a República de Weimar. Em 1933, quando os nazistas chegaram ao poder, ele foi forçado a deixar a Alemanha. Sua primeira parada foi na Suíça, depois os Estados Unidos, onde se tornou cidadão norte-americano e fez campanha ativa contra o regime nazista. Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Thomas Mann voltou para a Europa, vivendo principalmente na Suíça, onde morreu em 12 de agosto de 1955.
Os leitores podem conhecer a obra de Thomas Mann também nos seguintes títulos: “Tônio Kröger” (1903), “As cabeças trocadas” (1940), “Confissões do impostor Félix Krull” (1954), “O eleito” (1951), “Contos”, “Sua alteza real” (1909), “Mário e o mágico” (1930) e “José e seus irmãos 1”.
“FILHA DA TERRA”
No livro “Terra mátria – A família de Thomas Mann e o Brasil” (2013), de Karl-Josef Kuschel, Frido Mann e Paulo Astor Soethe, há o trecho de uma carta de Thomas Mann a Karl Lustig-Prean, datada de 8 de abril de 1943, sobre o Brasil: “Cedo soou em meus ouvidos o louvor de sua beleza, pois minha mãe veio de lá, era uma filha da terra brasileira; e o que ela me contou sobre essa terra e sua gente foram as primeiras coisas que ouvi sobre o mundo estrangeiro. Também sempre estive consciente do sangue latino-americano que pulsa em minhas veias e bem sinto o quanto lhe devo como artista. Apenas uma certa corpulência desajeitada e conservadora de minha vida explica que eu ainda não tenha visitado o Brasil. A perda de minha terra pátria (‘mein vaterland’) deveria constituir uma razão a mais para que eu conhecesse minha terra mátria (‘mein mutterland’). Ainda chegará essa hora, espero.”
“A MONTANHA MÁGICA”
De Thomas Mann, com tradução de Herbert Caro
Penguin/Companhia das Letras
1160 páginas
R$ 79,90 (livro físico)
“A MORTE EM VENEZA”
De Thomas Mann, com tradução de Julia Bussius
Editora Zain
192 páginas
Disponível em dois formatos: edição brochura (R$ 74,90) e box edição especial (R$ 129,90), com livro brochura e encarte sanfonado exclusivo
Acompanha as edições o libreto da britânica Myfanwy Piper (tradução de Júlio Castañon Guimarães) da ópera homônima de autoria do compositor Benjamin Britten. Encarte com ilustrações de Carla Caffé e fotografia de Gerson Tung
“A MORTE EM VENEZA”
De Thomas Mann, com tradução de Petê Rissatti. Lançamento em 25 de fevereiro
Antofágica
320 páginas e mais de 80 artes de Mariana Darvenne
R$ 54,95 (até 24 de fevereiro, em pré-venda, com 50% de desconto exclusivamente no site da editora (antofagica.com.br). Preço de capa do livro: R$ 109,90, e e-book R$ 19,90
Trechos dos livros
“A MONTANHA MÁGICA”
(Tradução de Herbert Caro)
Joachim era mais alto e mais espadaúdo que ele, um modelo de força juvenil e como que talhado para a farda. Representava aquele tipo bem trigueiro que sua loura pátria não raro produz. Sua tez, bastante morena já por natureza, estava tostada pelo sol e adquirira uma cor quase brônzea. Com os grandes olhos negros e o bigodinho escuro sobre os lábios cheios, bem-conformados, seria positivamente belo, não fossem as orelhas muito despegadas. Essas orelhas haviam sido seu único desgosto, a grande dor da sua vida – até certo momento. Agora tinha outras preocupações. Hans Castorp continuou:
– Você vai regressar comigo, não é? Não vejo impedimento algum.
– Regressar com você? – perguntou o primo, fitando-o com os olhos grandes que haviam sido sempre suaves, mas durante esses cinco meses assumiram expressão um tanto cansada, quase melancólica.
– Com você, quando?
– Ora, daqui a três semanas.
– Compreendo, você já pensa em regressar – respondeu Joachim.
– Espere um pouco; mal acaba de chegar. Três semanas representam quase nada para nós aqui em cima, mas para você que vem de visita e tenciona demorar-se só três semanas é uma porção de tempo. Trate de se aclimatar primeiro. Não tardará a notar que não é assim tão fácil. E o clima não é a única coisa estranha que existe aqui. Você encontrará muita coisa nova, sabe? Comigo não será tão depressa como você imagina. “Regressar daqui a três semanas” é uma ideia lá de baixo. Tenho a pele tostada, sim, senhor, mas isso vem principalmente do sol refletido pela neve e não significa grande coisa, como Behrens sempre afirma. No último exame geral, ele disse ter quase certeza de que eu teria de ficar ainda uns seis meses.
“A MORTE EM VENEZA”
(Tradução de Julia Bussius)
O gerente, um homenzinho suave, lisonjeiro e educado, com bigode preto e sobrecasaca no estilo francês, acompanhou-o no elevador até o segundo andar e indicou-lhe o quarto, um cômodo agradável com móveis de cerejeira, decorado com flores muito perfumadas e cujas janelas altas ofereciam uma vista para o mar aberto. Aschenbach se aproximou de uma delas depois que o funcionário se retirou, e, enquanto traziam sua bagagem e a alocavam no quarto, contemplou a praia deserta naquela tarde e o mar sem sol, que estava na maré alta e lançava ondas baixas e compridas contra a orla, em um ritmo calmo e constante.
As observações e as experiências de um indivíduo solitário e calado são ao mesmo tempo mais difusas e mais intensas do que as do sociável. Seus pensamentos são mais pesados, mais esquisitos e sempre têm um toque de tristeza. Imagens e percepções que poderiam facilmente ser descartadas com um olhar, um sorriso, uma troca de opiniões ocupam-no em demasia, aprofundam-se no silêncio, tornam-se significativas, tornam-se vivência, aventura, sentimento. A solidão produz o original; a beleza ousada e surpreendente, a poesia. A solidão, contudo, produz também o equivocado, o desproporcional, o absurdo, o proibido. Assim, os acontecimentos da viagem, o velho janota detestável, com suas tolices de “queridinha”, o gondoleiro desprezível que acabou ficando sem remuneração, ainda atormentavam a mente do viajante. Sem oferecer dificuldades à razão, sem dar motivo sólido para reflexão, esses elementos eram, contudo, de natureza bastante estranha, segundo lhe parecia, e perturbadores justamente em virtude de tal contradição. Enquanto refletia a respeito, Aschenbach saudou o mar com os olhos e sentiu-se alegre em saber que Veneza estava ali tão próxima.
LIBRETO DA ÓPERA “A MORTE EM VENEZA”
Cena 4: A primeira noite no hotel
(O gerente do hotel dá boas-vindas.)
GERENTE DO HOTEL
Temos grande prazer em receber o Signore em nosso excelente hotel.
(Aschenbach acena com cabeça.)
Esperamos que o Signore tenha feito uma agradável viagem; estou certo de que terá uma boa estada.
(Aschenbach acena com a cabeça.)
O Signore fez bem em vir para o Lido de gôndola, não tão rápida quanto o barco, mas mais
agradável, muito mais agradável.
ASCHENBACH
Essa não era minha intenção.
GERENTE DO HOTEL
Mesmo assim, de qualquer modo, uma feliz oportunidade.
E este é o quarto, como o senhor solicitou; e veja, Signore, a vista!
A vista dos nossos quartos que se tem da praia é esplêndida, deste quarto em especial.
ASCHENBACH
Muito obrigado, está muito bom.
GERENTE DO HOTEL
E aqui, Signore, do lado de fora do seu quarto, mas privado, não frequentado, o senhor pode
se sentar e ver o mundo passar. Para homens de letras, como o Signore, que têm prazer na
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