Doação para motorista de aplicativo vira caso de polícia
Após vídeo viralizar nas redes, empresária recebeu relatos de pessoas que doaram após ouvirem versões diferentes da mesma história
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O que deveria ser uma história de solidariedade e compaixão, acabou entrando para as páginas policiais na última sexta-feira (31/8). Após viralizar nas redes sociais com um vídeo onde aparece fazendo uma doação a um motorista de aplicativo, a empresária Suzane Cunha, mais conhecida como Suzy, não imaginava o rumo que as coisas tomariam a partir daquele momento.
No vídeo gravado pela passageira, o motorista identificado como Samuel Soares de Araújo aparece chorando ao receber uma quantia de R$ 400 da empresária. Inicialmente, ele chega a negar a ajuda. “É sério mesmo, dona?”, pergunta emocionado.
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Ao Correio, Suzy explica que tudo começou ao embarcar na corrida em Vicente Pires, região administrativa do Distrito Federal, com destino à Feira dos Importados, no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA), onde é dona de uma loja de assistência técnica de celulares. Ao perceber que o motorista parecia perdido, ela perguntou se ele conhecia a região.
“Ele disse que estava morando aqui há oito meses e que tinha vindo em busca de uma vida melhor”, afirma. “Falou que antes trabalhava em uma roça no Pará com a esposa africana”. Segundo Samuel, o casal vivia em condições análogas à escravidão.
Na história relatada pelo motorista, a esposa estava internada há três meses no Hospital Regional de Taguatinga (HRT). Durante a gestação do primeiro filho, exames teriam identificado uma infecção bacteriana que causa sangramentos nos olhos, nos ouvidos e na região íntima.
“Perguntei como ele estava lidando com tudo isso, ele disse que o médico falou que ela vai ter de tirar o bebê, além do útero, o ovário e as trompas, para que a bactéria não se espalhe pelo corpo”, relata Suzane.
Samuel também afirmou estar vivendo nos corredores do HRT, já que foi despejado do lugar onde morava no Sol Nascente enquanto acompanhava a internação da esposa. Sem dinheiro para pagar os remédios e exames indisponíveis na rede pública, ele estava fazendo corridas de aplicativo com o carro de um amigo e também planejava vender o próprio celular. Segundo ele, o exame custava R$ 390.
“Ele falou: ‘Sabe, dona Suzane, tudo que eu queria era só pegar esse carro, parar debaixo de uma árvore, deitar ao banco e dormir, porque tem três meses que eu durmo sentado em uma cadeira de hospital’”, afirma.
Sensibilizada pela história, a empresária prontamente fez uma doação ao motorista, que foi às lágrimas. O momento foi registrado por ela no vídeo que repercutiu ao ser postado nas redes sociais, com o objetivo de arrecadar mais ajuda para o casal.
Reviravolta
O caso começou a mudar quando, no fim de semana seguinte, Suzane passou a receber mensagens de pessoas que relataram ter ouvido histórias diferentes do mesmo motorista e feito doações que, somadas, passam dos mil reais.
A empresária afirma que chegou a ir ao HRT para buscar maiores informações, mas os funcionários não puderam informar se realmente havia alguém internado nas condições descritas pelo motorista.
“No domingo, uma menina me mandou o comprovante do Pix enviado a ele no dia anterior, de R$ 530, para fazer esse mesmo exame”, afirma. “Ela disse que ajudou ele em janeiro com a mesma história”.
Um homem não identificado também entrou em contato com Suzane, afirmando que também teria feito uma doação ao motorista durante uma corrida mais tarde naquele mesmo dia. Em seguida, outra mulher afirmou ter ouvido uma história semelhante no mesmo dia, seguida de outra doação.
“Ele me falou que era o primeiro filho deles. Para outra moça que ajudou no mesmo dia, ele contou que era o terceiro filho. Então, comecei a ver inconsistências”, declara Suzane.
Prints recebidos pela empresária mostram pessoas que uma das pessoas que doaram voltou a entrar em contato com o motorista para saber se o exame foi feito. “O bebê infelizmente faleceu. Tô correndo para conseguir o enterro”, responde Samuel, que afirma estar recebendo ajuda de uma médica para divulgar o pedido de doações para o enterro do filho.
O motorista também entrou em contato com Suzane após o vídeo viralizar. “Na segunda- feira, ele me ligou falando que estava usando o celular de uma enfermeira porque o dele tinha quebrado”, afirma. “Ele pediu que eu retirasse o vídeo das redes porque não gostava de se expor e que os familiares dele já estavam preocupados”.
Para testar a inconsistência das versões do motorista, Suzane afirma que perguntou sobre os filhos do casal, no plural, com a desculpa de querer doar roupas. “Ele me disse que eles estavam bem e que tinham 11 e 13 anos. Aí pensei: ‘Realmente, é mentira’”, diz.
Caso de polícia
Reunindo os relatos recebidos, Suzane decidiu prestar boletim de ocorrência na Polícia Civil. No documento encaminhado à 3ª Delegacia de Polícia, o caso foi registrado como estelionato.
Ao Correio, a Polícia Civil do Distrito Federal afirma que um inquérito já foi instaurado e, caso seja condenado por estelionato, Samuel pode pegar até cinco anos de prisão. Desde segunda-feira (3/8), seis boletins de ocorrência já foram registrados por pessoas que fizeram doações ao mesmo motorista.
“Foi Deus que me usou, porque eu não costumo pegar corridas de aplicativo”, afirma Suzane. “Acho que as pessoas deveriam saber o que realmente aconteceu para não cair no golpe também. Eu não peguei o pix dele, mas imagina se eu tivesse divulgado para outras pessoas?”.
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Até o momento da publicação desta reportagem, Samuel ainda não foi encontrado.