O advogado e turismólogo Tiago Martins Pitthan morreu na noite desse domingo (5/7), aos 47 anos, em Campo Grande (MS). Ele passou mais de um ano convivendo com um câncer de estômago sem possibilidade de cura. Pitthan ficou conhecido por organizar o próprio "velório em vida", com direito a roda de samba. 

Poucas horas antes de morrer, Tiago publicou um último vídeo nas redes sociais diretamente do hospital, deixando uma mensagem que resume a forma como decidiu enfrentar a fase final da doença. "Estou bem, em paz, feliz. Valeu a pena. Tudo valeu a pena. Tive uma vida boa, e é isso. Eu venci. Um beijo do Bom Sujeito”, disse em um story.

Na última publicação, Tiago compartilhou uma fotografia acompanhada de uma breve reflexão. "Sem filtro, sem produção. Pediram para chamar minha família, mas a vida... A vida vale a pena! Talvez eu volte aqui e conte como foi. Talvez não. Na dúvida, amo vocês!", escreveu.

Em 30 de maio, pouco mais de um mês antes da morte, Tiago reuniu mais de 800 pessoas em um antigo galpão de uma cervejaria em Campo Grande para aquilo que chamou de seu "velório em vida". O encontro, inicialmente pensado para cerca de 50 amigos, acabou atraindo um número maior, com familiares, conhecidos e até pessoas que nunca haviam encontrado o advogado, mas que se identificaram com sua história.

A programação foi planejada por ele nos mínimos detalhes. Houve apresentações de bossa nova, samba e rock, um flash mob, um artista criando uma aquarela da celebração em tempo real e, principalmente, muitos reencontros. Na ocasião, Tiago explicou que queria estar presente para ouvir as homenagens e compartilhar aquele momento com quem amava.

"As pessoas perguntam para mim como é estar morrendo. E eu só tenho uma resposta para dar: eu não estou morrendo, estou vivendo", afirmou aos convidados.

 
 
 
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Outro sonho realizado naquele dia foi subir ao palco para tocar guitarra. Mesmo sem nunca ter aprendido um instrumento, ele decidiu começar as aulas depois que descobriu que o câncer era terminal. O objetivo era simples: tocar pelo menos uma vez diante do público. 

O velório acontece nesta segunda-feira (6/7), no Memorial Park, em Campo Grande. 

O diagnóstico mudou os planos, mas não a forma de viver

Os primeiros sintomas apareceram durante o réveillon de 2023 para 2024, em uma viagem a Bonito (MS). Tiago percebeu que sentia o estômago cheio logo nas primeiras garfadas e passou a apresentar episódios frequentes de vômito.

Após exames, veio o diagnóstico de adenocarcinoma gástrico. Inicialmente, os médicos acreditavam que seria possível retirar o estômago em uma cirurgia. No entanto, durante o procedimento, descobriram que o câncer já havia se espalhado para o intestino e o peritônio e apresentava sinais de comprometimento pulmonar. A possibilidade de cura deixou de existir.

"Quando recebi o diagnóstico, foi até um alívio. Sabia quem era o inimigo. E decidi: tenho câncer, mas o câncer não me tem", afirmou em entrevista ao G1

Mesmo submetido à quimioterapia paliativa e à imunoterapia, Tiago procurou manter a rotina pelo maior tempo possível. Continuou trabalhando, treinando e realizando sonhos que havia deixado para depois. Antes da festa de despedida, voltou a Bonito, desceu cerca de 70 metros de rapel até o Abismo Anhumas e saltou de paraquedas.

'Vou morrer, mas não estou morto'

Ao longo do tratamento, Tiago fez questão de falar abertamente sobre temas que, segundo ele, costumavam ser evitados. "Desde o início da minha doença, as pessoas evitam falar comigo: câncer, morte, velório. Faço questão de usar essas três palavras. Quando elas não têm nome, elas assombram a gente”, revelou. 

Além de organizar a própria despedida, ele preparou questões práticas para facilitar a vida da família, como senhas, documentos e o destino de objetos pessoais. O único ritual que deixou para que os familiares decidissem foi o velório tradicional. Em uma das reflexões que mais repercutiram nas redes sociais, resumiu a forma como enxergava o tempo que lhe restava.

"Vou morrer, mas não estou morto. Entendi que o tempo é um dos bens mais preciosos que a gente tem”, refletiu.

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O empresário Tiago Martins, de 47 anos, morreu no domingo, dia 5/7/2026, deixando uma mensagem: "Estou bem, em paz, feliz. Valeu a pena. Tudo valeu a pena. Tive uma vida boa e é isso. Eu venci. Um beijo do Bom Sujeito.” Morador de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, ele chamou a atenção no dia 30 de maio ao organizar o próprio velório em vida. Reproduc?a?o/TV Globo
Tiago Martins tinha um câncer de estômago sem possibilidade de cura. A expectativa inicial envolvia tratamento cirúrgico, mas os médicos constataram que o câncer já havia se espalhado para outras partes do organismo. Ele, então, decidiu reunir parentes e amigos no antigo galpão de uma cervejaria para celebrar a vida. Reproduc?a?o/TV Globo
A ideia inusitada surgiu durante o velório do seu pai, em agosto de 2024. Tiago observou amigos e familiares contando histórias e relembrando momentos marcantes. Apesar das homenagens, sentiu falta de algo essencial: a presença da própria pessoa homenageada: "Ninguém sabe mais sobre meu pai do que ele mesmo. Faltou ele ali." Reproduc?a?o/TV Globo
A reflexão o levou a uma decisão inesperada: se um dia fosse celebrado por aqueles que ama, queria participar desse momento. E o que inicialmente seria um encontro restrito a amigos próximos acabou ganhando grande repercussão e atraindo pessoas de diferentes regiões do país. Reproduc?a?o/TV Globo
Entre os participantes da sua despedida estavam visitantes que viajaram centenas de quilômetros apenas para conhecê-lo e prestar apoio. Muitos se identificaram com sua forma de enfrentar a doença e encontraram inspiração em sua postura diante da finitude da vida. Reproduc?a?o/TV Globo
Foi o caso da servidora pública Lícia Freitas, de 43 anos, e o servidor público Ramon Santos, de 56 anos, que chegaram de João Pessoa, na Paraíba. "Me tocou bastante a história dele e ver como ele encara a vida abreviada", contou Lícia. "Ele é um sujeito admirável e não deixou a proximidade da morte paralisar a vida", disse Ramon. Reproduc?a?o/TV Globo
Ao longo da celebração, Tiago fez questão de reforçar uma mensagem simples e direta: "As pessoas perguntam para mim como é estar morrendo. E eu só tenho uma resposta para dar: eu não estou morrendo, eu estou vivendo. Eu vou morrer uma vez só. O resto do tempo eu estou vivendo." Reproduc?a?o/TV Globo
Com roupas coloridas e cercado por demonstrações de carinho, Tiago passou horas conversando, ouvindo histórias, recebendo abraços e compartilhando emoções. "Eu quero abraçar e ser abraçado. Eu quero receber carinho, dar carinho. Eu quero rir. Eu quero chorar de emoção", comentou. Reproduc?a?o/TV Globo
Em entrevista para o Fantástico, os irmãos de Tiago comentaram na época sobre sua decisão. “É a maneira dele querer que seja. Ele fez questão de usar essa palavra [velório]. O que a gente vai fazer lá é celebrar a vida dele", disse um dos irmãos. “Foi a forma que eu encontrei de lidar com tudo isso. Porque eu acho que é isso que vale a pena", disse a irmã caçula, que irá escrever um livro sobre a história de Tiago. Reproduc?a?o/TV Globo
O câncer de estômago é uma doença que se desenvolve a partir do crescimento descontrolado de células na parede do órgão. O tipo mais comum é o adenocarcinoma gástrico, responsável pela grande maioria dos casos diagnosticados. Esse tumor tem origem nas células glandulares que revestem internamente o estômago e pode se espalhar para outros tecidos e órgãos se não for tratado. julien Tromeur/Unsplash
Entre os sintomas mais frequentes estão dificuldade para se alimentar, sensação de estômago cheio, perda de peso, dores abdominais, náuseas e fadiga. Nos estágios iniciais, a doença pode não apresentar sinais evidentes, o que dificulta o diagnóstico precoce. Fatores como tabagismo, histórico familiar e hábitos alimentares inadequados podem aumentar o risco de desenvolvimento da doença. Reproduc?a?o/TV Globo
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