Césio-137: como vivem hoje os outros sobreviventes da tragédia
A morte de Lucimar das Neves Ferreira, um dos sobreviventes, reacende a memória do acidente em Goiânia; saiba como estão as pessoas que convivem com as sequelas físicas e psicológicas
compartilhe
SIGA
A morte de Lucimar das Neves Ferreira, um dos sobreviventes do acidente com Césio-137, ocorrida em julho de 2026 aos 52 anos, reacende a memória da tragédia radiológica ocorrida em Goiânia, em 1987. O fato lança luz sobre a realidade de dezenas de pessoas que, mais de três décadas depois, ainda convivem com as marcas físicas e emocionais da contaminação.
A jornada dos sobreviventes é marcada por um acompanhamento médico vitalício e pela luta contra as consequências da exposição à radiação. Muitos dependem de pensões e auxílios governamentais, pois as sequelas, em diversos casos, incapacitaram para o trabalho. A vida deles se tornou uma rotina de exames, consultas e tratamentos para monitorar e mitigar os danos causados pelo material radioativo.
Leia Mais
Desastre de Brumadinho: polícia identifica 268ª vítima 6 anos após tragédia
Brumadinho: famílias das vítimas criticam divulgação dos segmentos achados
O que foi o acidente com o Césio-137?
O acidente radiológico de Goiânia ocorreu em setembro de 1987, quando catadores de lixo encontraram uma cápsula de Césio-137 em um aparelho de radioterapia abandonado. Fascinados pelo pó azul que brilhava no escuro, eles o espalharam, contaminando centenas de pessoas e causando o maior acidente do tipo no mundo fora de usinas nucleares.
A substância foi manuseada por adultos e crianças, resultando em quatro mortes nos primeiros meses e deixando um rastro de contaminação pela cidade. O episódio exigiu uma complexa operação de descontaminação e o monitoramento permanente de todos os expostos.
Como vivem os sobreviventes hoje?
Os sobreviventes do Césio-137 vivem sob constante vigilância médica e enfrentam desafios diários. Eles são acompanhados pelo Centro de Assistência aos Radioacidentados (Cara), em Goiânia, que oferece suporte clínico e psicológico. A rotina inclui exames periódicos para detectar precocemente doenças associadas à radiação, como o câncer. Em 2026, a unidade acompanha cerca de 1.300 pessoas em regime de monitoramento vitalício, número que já reuniu mais de mil pensionistas ao longo das últimas décadas.
Lourdes das Neves, mãe de Leide das Neves Ferreira, a menina de 6 anos que morreu na tragédia e se tornou o rosto mais conhecido do desastre, é uma das vozes mais presentes na luta por assistência às vítimas. Além de perder a filha, ela viu a própria casa ser destruída, descartada como lixo radioativo. Depois do acidente, dedicou-se a cuidar do marido, Ivo, que enfrentou depressão profunda. Lourdes relata que a assistência oferecida no início, incluindo pensão vitalícia, medicamentos e cesta básica, foi sendo cortada aos poucos ao longo dos anos.
Odesson Ferreira, irmão de Devair Alves Ferreira, dono do ferro-velho onde a cápsula foi encontrada, tinha 32 anos quando foi contaminado. Chegou a trabalhar oito dias como motorista de ônibus antes de ser internado, e perdeu a palma da mão e parte do dedo indicador em decorrência da exposição ao material radioativo. Hoje mora no interior de Goiás e atua como ativista pelos direitos dos radioacidentados. Já Roberto dos Santos Alves, um dos catadores que encontraram originalmente a cápsula, precisou amputar o braço.
Marcelo Santos Neves, presidente da Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio), é hoje uma das principais referências institucionais das vítimas e foi quem confirmou publicamente a morte de Lucimar das Neves, em julho de 2026. Segundo a associação, mais de 60 mortes registradas nos anos seguintes ao acidente têm relação com a contaminação.
Além dos problemas de saúde, muitos ainda enfrentam o estigma social. O preconceito e a desinformação na época do acidente geraram isolamento, um fardo que algumas vítimas carregam até hoje. A luta por direitos, como pensões e tratamento adequado, também é uma constante na vida dessas pessoas.
Quais são as principais sequelas do Césio-137?
A exposição à radiação deixou um legado de problemas de saúde complexos e duradouros. As consequências variam conforme o nível de contaminação, mas algumas condições são mais frequentes no grupo monitorado. As principais sequelas incluem:
Câncer: há uma incidência maior de diversos tipos de câncer, principalmente leucemia e tumores de tireoide, pele e estômago.
Lesões de pele: muitos sobreviventes desenvolveram radiodermites, que são lesões crônicas e dolorosas na pele, além de fibroses e atrofias nos tecidos.
Danos a órgãos internos: a radiação afetou sistemas vitais, causando problemas na medula óssea, nos rins e no aparelho gastrointestinal.
Problemas psicológicos: o trauma do acidente e o estigma social resultaram em transtornos como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.