O principal efeito nas criançasfoi o câncer de tireoide, ligado à ingestão de iodo radioativo. Sobre os filhos dos sobreviventes, estudos publicados em 2021 pelo National Cancer Institute não encontraram evidência de mutações genéticas hereditárias associadas à radiação. Na foto, menina de 13 anos, vítima da radiação em Chernobyl, recebe tratamento em Cuba. Em 1990, a ilha tratou gratuitamente 18 mil crianças ucranianas
A tragédia de Chernobyl não atingiu to dos da mesma forma. Para os adultos, significou evacuação, perda da casa e incerteza. Para as crianças, foi ainda mais profundo: a entrada precoce em uma história que não escolheram viver. Muitas brincavam ao ar livre no dia seguinte à explosão do reator 4, em 26 de abril de 1986, sem saber que respiravam partículas radioativas. Outras ingeriram leite contaminado. Algumas nasceram naquele período e passaram a carregar a marca de uma catástrofe que atravessou gerações.
As crianças foram as mais atingidas porque seus organismos estavam em formação. A tireoide infantil absorve mais iodo, e o iodo radioativo liberado pelo reator entrou na cadeia alimentar principalmente pelo leite contaminado. A Organização Mundial da Saúde (OMS) registrou cerca de 4 mil casos de câncer de tireoide, principalmente em crianças e adolescentes, até 2005, com nove mortes naquele balanço. A UNSCEAR aponta mais de 6 mil casos entre pessoas expostas ainda na infância ou adolescência em Belarus, Ucrânia e Rússia.
O número exato de mortes segue impreciso, cercado por disputas entre estudos e estimativas. O dado mais consolidado é o aumento expressivo do câncer de tireoide infantil, geralmente tratável, mas que expôs milhares de crianças a cirurgias, reposição hormonal e acompanhamento permanente. A própria OMS reconhece que o impacto psicológico foi um dos efeitos mais duradouros, agravado por deslocamento, pobreza e estigma.
Eles nasceram no ano do maior acidente nuclear da história, mas cresceram sem ter escolhido carregar esse rótulo. Quase quatro décadas após a explosão, os chamados “filhos de Chernobyl” seguem revelando como uma tragédia pode atravessar gerações, não apenas pela exposição à radiação, mas pelo peso social, psicológico e histórico que permaneceu ao longo dos anos.
Dados internacionais indicam que centenas de milhares de pessoas foram deslocadas após o desastre, enquanto milhões viveram em áreas com algum nível de contaminação. Entre elas estavam crianças que nasceram naquele mesmo ano ou pouco depois, muitas submetidas a monitoramento médico constante, especialmente por causa do aumento de casos de câncer de tireoide.
A trajetória de Olga Zakrevska ajuda a dimensionar esse impacto. Ela nasceu em 11 de abril de 1986, em Pripyat, apenas 15 dias antes da explosão. Filha de um especialista em energia nuclear, foi retirada ainda recém-nascida da cidade evacuada. Cresceu em Kiev sem memórias diretas daquele momento, mas sob o impacto emocional herdado da família.
O preconceito marcou sua infância. “Depois que nos mudamos, alguns pais impediam seus filhos de brincar comigo e com meu irmão, alegando que éramos radioativos e contagiosos”. A frase, dita em entrevista em 2015 a documentário europeu, resume o peso invisível que muitas dessas crianças carregaram.
Ao longo da vida, Olga passou a conviver com exames frequentes e com a constante associação de sua identidade ao desastre. Já adulta, transformou essa experiência em trabalho, registrando em fotografia outras famílias ligadas a Chernobyl, numa tentativa de dar rosto a uma geração marcada por um episódio que nunca viveu diretamente, mas que nunca deixou de sentir.