COMBATE AO CRIME

Especialista avalia que sanções de Trump ao CV e PCC pode fortalecê-los

'Se não houver a cooperação internacional para combater atos criminosos, um efeito indesejável é que se tornam mais poderosos, afirma Niko Passas

Publicidade
Carregando...

A designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos tem potencial de provocar o efeito contrário desejado por Donald Trump e fortalecer as facções criminosas no Brasil e no mundo.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

Essa é a visão compartilhada pelo criminologista Nikos Passas, professor da Universidade Northeastern, nos Estados Unidos. O advogado foi um dos especialistas que colaborou para a implementação das convenções das Nações Unidas contra a corrupção e crime organizado transnacional e vem acompanhando de perto a estratégia americana contra o narcoterrorismo na América Latina.

"No passado, vimos que a aplicação rigorosa de medidas contra essas organizações às vezes serve de incentivo para que elas se tornem mais bem organizadas, mais sofisticadas e, consequentemente, mais poderosas e resilientes", disse em entrevista à BBC News Brasil.

Para Passas, o PCC e o CV foram capazes de crescer e expandir suas operações nas últimas décadas apesar das medidas tomadas no Brasil e internacionalmente para pará-los, o que demonstra sua capacidade de se adaptar e encontrar novas soluções criminosas.

A inclusão das facções na lista americana de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês), que entrou em vigor nesta sexta-feira (5/6), deve significar inicialmente um novo desafio para suas lideranças, diz.

Mas sem uma colaboração estreita entre os governos americano e brasileiro, o cenário pode rapidamente se reverter a favor dos criminosos.

"Se não houver a cooperação internacional necessária para combater atos criminosos, um efeito indesejável e imprevisto pode ser que essas organizações se tornem mais poderosas e difíceis de detectar", explica.

Nikos Passas
Arquivo Pessoal
Passas acredita que facções têm recursos para continuar operando apesar de restrições

As facções precisarão, por exemplo, mudar a forma como gerenciam suas finanças para que possam continuar atuando. E segundo o criminologista, há indícios de que elas são capazes de encontrar aconselhamento legal e financeiro sofisticado para fazer isso.

Da mesma forma, organizações criminosas tendem a fragmentar suas operações quando as autoridades fecham o cerco contra sua estrutura, diz Nikos Passas. Por vezes, isso acaba significando uma expansão para diferentes regiões geográficas e jurisdições.

"A história nos ensina que esse tipo de organização rapidamente recorre a conhecimentos jurídicos sofisticados. Eles podem comprar o apoio de profissionais que lhes mostram como contornar a lei", afirma o criminologista.

Ainda segundo o especialista, a colaboração estreita entre países é uma das melhores formas de combater as organziações e fazer com que as medidas implementadas sejam bem-sucedidas.

No caso do PCC e do CV, porém, ainda não está claro como as autoridades no Brasil e nos Estados Unidos atuarão daqui para frente.

A designação das organizações como terroristas foi vista como uma derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O governo brasileiro era contra a medida – o principal argumento era de que ela poderia colocar em risco a soberania nacional ao abrir espaço para ações militares norte-americanas sob o pretexto de combate ao terrorismo.

O governo também alegava que a medida iria contra a legislação brasileira que faz uma distinção entre as atividades praticadas por facções criminosas e o terrorismo.

Mas a decisão do Departamento de Estado americano foi anunciada mesmo assim, um dia depois do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) ter encerrado uma viagem para Washington, onde se encontrou com o presidente Donald Trump, o vice-presidente J.D. Vance e com o secretário de Estado, Marco Rubio.

Para Nikos Passas, essa cenário indica um futuro incerto em relação à cooperação entre os dois países.

Além disso, diz o especialista, o tom político e partidário da decisão pode ser explorado e beneficiar o PCC e o CV. "Eles podem afirmam que estão agindo contra partes externas que tentam interferir em assuntos brasileiros e obter apoio político adicional", avalia.

Fora do alcance dos EUA?

Uma das maiores consequências da classificação como organização terrorista é a inclusão das organizações na lista do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac) do Departamento do Tesouro americano, que administra e aplica sanções econômicas e comerciais. Com isso, todos os bens das facções e suas lideranças nomeadas são bloqueados nos EUA.

A inclusão também significa que qualquer empresa ou indivíduo que forneça apoio material para membros ou instituições ligadas ao PCC e ao CV pode enfrentar penalidades. Isso inclui envio de dinheiro, prestação de serviço, consultoria, fornecimento de transporte ou qualquer outra ajuda econômica direta ou indireta.

Nikos Passas explica que essas barreiras podem mudar as regras do jogo para as organizações criminosas.

No passado, outras organizações que estiveram na mira do Ofac se afastaram do ambiente financeiro americano e do dólar, diz ele.

"Isso proporciona incentivos adicionais para a desdolarização, visando evitar a jurisdição dos EUA, evitar bancos que operam em dólares americanos ou evitar o dólar americano por completo", afirma.

Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, sendo escoltado por policiais em 2020
AFP via Getty Images
Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, é apontado como chefe do Primeiro Comando da Capital (PCC). Ele está preso desde 1999

No caso específico do PCC e do CV, que já tem suas operações internacionais principalmente na Europa e na África, as sanções devem levar a um afastamento ainda maior dos Estados Unidos, aponta Passas.

O dinheiro que já é lavado, por exemplo, em Portugal, pode passar a ser reintroduzido na economia brasileira de formas mais sofisticadas, diz.

E sem uma cooperação estabelecida não apenas entre as autoridades no Brasil e nos EUA, mas entre as polícias americana, europeias e africanas, pode ficar mais difícil para o governo de Donald Trump monitorar as movimentações das facções.

"Do ponto de vista americano, a lei tem alcance extraterritorial, mas só será eficaz na medida em que houver acordo e cooperação com as autoridades nacionais locais", diz.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

"Em outras palavras, você até pode usar suas armas nos alvos que estão ao seu redor, mas se eles se moverem para outro lugar, estarão fora do seu alcance", resume o advogado.

Tópicos relacionados:

cv faccoes flavio-bolsonaro lula pcc trump

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay