Mortandade massiva de ovas expõe impacto de Belo Monte em reprodução de peixes
Flagrante ocorreu numa área de igarapé do Xingu; problema está diretamente ligado ao regime de operação da hidrelétrica
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Pesquisadores e moradores encontraram locais com mortandade massiva de ovas de peixes abaixo da barragem da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, no trecho conhecido como Volta Grande do Xingu.
A Folha de S.Paulo teve acesso a imagens que foram registradas no sábado (21) por membros do Mati-VGX (Monitoramento Ambiental Territorial Independente da Volta Grande do Xingu). Nas fotos, é possível ver uma infinidade de ovas expostas sobre o solo, folhas e galhos, já fora da água e sem possibilidade de salvamento.
A morte massiva de ovas de peixes foi flagrada numa região conhecida como Piracema do Odílio, uma área de igarapé do Xingu. O problema está diretamente ligado ao regime de operação da hidrelétrica de Belo Monte.
Questionada pela Folha de S.Paulo, a concessionária Norte Energia declarou que "tomou conhecimento do aparecimento de ovas de peixe em uma das áreas de reprodução de peixes", que as "informações e evidências coletadas estão sendo analisadas por especialistas da Universidade Federal do Pará (UFPA) e os resultados da apuração serão devidamente reportados ao Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis]".
Para gerar mais energia em Belo Monte, a maior parte da água do rio Xingu é desviada para um reservatório intermediário, o que reduz drasticamente a vazão em um percurso de cerca de 100 km do rio, conhecido como "trecho de vazão reduzida".
Na prática, mais de 80% da água do rio é desviada para geração de energia. Essa mudança rompeu o pulso natural de cheias e vazantes do Xingu, regime que conectava o rio e as áreas de floresta alagada, onde os peixes costumam se reproduzir.
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Sem essa conexão contínua, as chuvas locais acabam provocando alagamentos rápidos e, com isso, confundem os peixes sobre as cheias, atraídos para desovar. Como a água da chuva baixa logo depois, milhares de ovas ficam expostas.
Os pesquisadores alertam que essa tragédia ambiental repete um padrão que vem sendo documentado todos os anos, desde 2023, mostrando que o ciclo reprodutivo da ictiofauna do Xingu tem sido interrompido de forma sistemática.
"Essas chuvas provocam elevações súbitas no nível da água, que funcionam como falso sinal para os peixes que aguardam nos canais principais o momento certo para iniciar a piracema. Sem a água que vinha do Xingu, não há mais o efeito de remanso nesses igarapés", diz o geólogo e especialista nos rios amazônicos André Oliveira Sawakuchi, professor do Instituto de Geociências da USP.
O Ibama já analisou os casos, com vistoria de campo, e concluiu que as inundações acabaram se convertendo em uma "armadilha" que expõe os ovos ao ambiente seco.
O órgão ambiental declarou à reportagem que "as informações coletadas in loco estão em avaliação".
"A quantidade de ovas é grande. Encontramos ovas ao longo de mais de 1 km de caminhada", diz Josiel Jacinto Pereira Juruna, coordenador do Mati-VGX. "Faz quatro anos que registro esse problema, e nada foi feito. Isso é revoltante."
Segundo o pesquisador, a principal espécie atingida é a curimatá, fundamental para a segurança alimentar e a economia da região. A morte de milhares de ovas significa que não haverá reposição natural dos estoques nos próximos anos.
Sawakuchi afirma que, sem a reprodução das piracemas e com os frutos da floresta aluvial caindo em solo seco, as populações de peixes e quelônios seguem rumo a um colapso.
"São milhares de locais de desova nos mais de 130 quilômetros da Volta Grande, é uma tragédia. A solução é mudar o hidrograma da usina, é preciso que se abra mão de um pouco de energia", diz o especialista.
No domingo (22/2), representantes do Ibama e do MPF (Ministério Público Federal) estiveram no local. A Norte Energia também enviou uma equipe.
A concessionária declarou que, na data do evento, a operação da usina foi realizada de forma regular, em conformidade com os parâmetros da outorga.
"A Norte Energia realiza monitoramento ambiental conduzido por cientistas da UFPA com a participação de moradores locais, que já identificou mais de 140 áreas de reprodução de peixes. Os resultados dos monitoramentos do Projeto Básico Ambiental do empreendimento demonstram que a maioria das espécies manteve a proporção de peixes maduros ao longo de 13 anos de estudo na região da Volta Grande do Xingu", afirmou.
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Segundo a companhia, são observadas mudanças no padrão de reprodução, mas "não há dados que comprovem a extinção de qualquer espécie de peixe nas áreas de influência do empreendimento".
A empresa declarou ainda que "muitas espécies de peixes da região que não precisam das áreas de piracema para se reproduzir".
Em outubro do ano passado, um estudo concluído por cientistas sobre impactos da hidrelétrica apontou risco de um colapso ambiental no entorno da usina, devido à escassez de água no trecho de vazão reduzida do rio, um cenário que pode se tornar irreversível.
O documento trazia registros de mortandade de peixes feitos naquele mês, em pontos localizados no trecho passou a ter menor vazão de água.
Como mostrou a Folha de S.Paulo, a concessionária Norte Energia trava um embate direto com o Ibama sobre a definição de qual será, afinal, a vazão de água no rio Xingu, seis anos após a usina entrar em operação plena.
No lugar do modelo atual, o relatório do Mati-VGX pede que seja implementado o chamado hidrograma das piracemas, um controle que aumentaria o volume e, principalmente, a duração e o tempo de subida das águas pelos peixes, permitindo que os ciclos ecológicos básicos fossem restaurados.
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As solicitações incluem também um limite máximo de 30% de desvio da vazão do rio para geração de energia, com a proibição de variações bruscas do nível da água durante períodos reprodutivos da fauna.