Durante séculos, rios caudalosos e águas profundas definiram toda a extensão territorial entre Argentina e Uruguai. Essa separação exclusivamente fluvial, no entanto, deu lugar a uma única e curiosa divisa terrestre construída pela própria natureza no Rio da Prata.

A transformação ocorreu na ilha Martín García, um território argentino de 1,84 km² cercado por águas uruguaias, a cerca de 3,5 km do litoral vizinho. O local, formado por rochas maciças e antigas, difere das ilhas de sedimentos que predominam na foz dos rios Paraná e Uruguai, constituindo atualmente a única fronteira seca compartilhada entre os dois países.

Leia Mais

A fusão natural no meio do rio

O nome do ponto estratégico homenageia Martín García, despenseiro da expedição do navegador Juan Díaz de Solís, que morreu em 1516 e foi sepultado no local. Por causa da posição privilegiada para controlar a navegação fluvial, a área enfrentou disputas militares intensas ao longo dos séculos.

Acordos diplomáticos posteriores confirmaram o domínio argentino sobre o espaço e determinaram sua destinação como reserva natural. Contudo, a dinâmica das correntes fluviais começou a redesenhar a geografia local em meados do século passado.

Em 1961, um banco de areia começou a se acumular ao norte do solo da ilha. A nova formação sedimentar recebeu das autoridades uruguaias o nome de Timoteo Domínguez. Com o depósito contínuo de sedimentos, as duas ilhas se uniram fisicamente na década de 1980 — há cerca de quatro décadas —, consolidando uma única massa de terra dividida entre as duas nações.

Um limite baseado em um litoral extinto

Diante do avanço constante dos sedimentos, diplomatas dos dois países anteciparam o fenômeno no Tratado do Rio da Prata, assinado em 1973 — há mais de cinco décadas. O documento estabeleceu uma regra preventiva: caso ocorresse a junção física com outra ilha, o limite internacional deveria seguir o contorno registrado nas cartas náuticas do início da década de 1970.

Por essa razão, a fronteira seca atual passa exatamente por uma linha costeira que já não existe na geografia real. Os trabalhos de demarcação e fixação de marcos sobre o terreno consolidaram tecnicamente em 2019 a divisão que a natureza unificou.

Episódios marcantes da história política

Antes de abrigar essa divisa incomum, o território isolado funcionou como presídio político para governantes argentinos afastados do poder em momentos de ruptura institucional.

O ex-presidente Hipólito Yrigoyen foi mantido sob custódia na ilha em 1930, após ser deposto. Situação idêntica ocorreu com Arturo Frondizi em 1962, também retirado da presidência e levado ao local por autoridades militares.

Em outubro de 1945, Juan Perón permaneceu detido no mesmo solo, semanas antes dos acontecimentos que o projetaram em definitivo ao poder. Atualmente, a área reúne patrimônio histórico preservado, funciona como reserva ecológica e atrativo turístico, mantendo viva a singularidade de uma fronteira moldada pela ação das águas.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

*estagiária sob supervisão do editor-executivo João Renato Faria

compartilhe