Eleição em Israel

Formação de novo governo de Israel vai depender de alianças

Blocos do premiê Benjamin Netanyahu e do ex-comandante militar Gadi Eisenkot não obtêm votos suficientes para formar gabinete e dependem de coalizão. Ambos têm reservas em um pacto com os árabes, que tiveram desempenho histórico

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Promessas precisam ser quebradas pelo ex-comandante militar Gadi Eisenkot ou por Benjamin Netanyahu para conseguirem formar o próximo governo. Nem o líder opositor nem o primeiro-ministro conseguiram que seus blocos conquistassem assentos suficientes para conquistar a maioria na Knesset (Parlamento) e nomear o próximo gabinete que governará Israel. Até o fechamento desta edição, com 90% das urnas apuradas, a aliança da oposição encabeçada pelo partido Yashar, de Eisenkot, tinha obtido 48 das 120 cadeiras, enquanto o bloco liderado pelo Likud, de Netanyahu, contabilizava 53. Os partidos árabes Lista Unificada e Ra'am somavam 19 assentos.

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Para controlar a Knesset, é necessária a "captura" de 61 cadeiras. Na tentativa de evitar nova eleição, o presidente israelense, Isaac Herzog, apelou às forças políticas para que façam "todo o possível" e formem uma coalizão de governo. Tanto Eisenkot quanto Netanyahu prometeram, na campanha, que não se aliariam aos árabes. 

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Líder da Lista Unificada, uma coalizão de esquerda de maioria árabe, Yussef Jabareen defendeu uma "verdadeira aliança judaico-árabe" com o objetivo de derrotar Netanyahu, assumir o poder e interromper 19 anos de "Bibi" no comando de Israel, em períodos alternados. Ontem, em Tel Aviv, manifestantes da esquerda saíram às ruas e exortaram os partidos árabes a selarem a aliança com Eisenkot. "Quem quiser oferecer uma alternativa substancial e genuína ao governo sanguinário de Netanyahu terá que falar conosco, a fim de pavimentar o caminho para a mudança que o povo israelense há muito espera", declarou Jabareen à emissora Canal 13.  

Por meio de um comunicado, o Likud acusou os partidos árabes de "roubar" as eleições, mas não apresentou nenhuma evidência sobre supostas fraudes. "As eleições no Estado de Israel foram roubadas por partidos árabes que apoiam o terrorismo e a aniquilação do Estado judeu por meio de graves atos criminosos de corrupção, ameaças, violência, mentiras e uso de programas de computador proibidos para incentivar os eleitores a comparecer às urnas", afirmou.

Eisenkot, por sua vez, se disse "focado" na "árdua tarefa" de trazer mudanças a Israel e estabelecer um "governo sionista mobilizador". "Essa é a vontade do povo, que manifestou sua falta de confiança na gestão governamental do (massacre de) 7 de outubro — e na sua postura de se eximir de responsabilidades — bem como no bloco daqueles que se esquivam de seus deveres", comentou. 

Fragmentação

Professor de ciência política da Universidade Hebraica de Jerusalém, Noam Gidron acredita haver boas chances de Netanyahu sobreviver às eleições, mesmo depois de sua coalizão ter perdido a maioria na Knesset. "A oposição está profundamente dividida. Vários partidos opositores mostram-se muito relutantes em depender do partido das listas árabes, que, tradicionalmente, têm sido excluídas das coalizões de governo em Israel", lembrou ao Correio. Gidron reforçou que não existem evidências para corroborar as acusações de fraude feitas por Netanyahu. "Elas servem para apoiar a meta política de Netanyahu de desacreditar de partidos árabes, que supostamente se beneficiaram da fraude eleitoral. Resta saber se há algo que comprove essas acusações."

Gadi Eisenkot, líder do partido centrista Yashar, segura a bandeira nacional de Israel, em Tel Aviv
Gadi Eisenkot, líder do partido centrista Yashar, segura a bandeira nacional de Israel, em Tel Aviv (foto: Jack Guaez/AFP)

O especialista de Jerusalém se surpreendeu com o comparecimento dos cidadãos árabes-israelenses às seções eleitorais. "Isso é algo sem precedentes e inesperado, considerando-se que esse setor da sociedade israelense costuma ser caracterizado por uma baixa participação nas eleições. A alta afluência dessa parcela às urnas será examinada minuciosamente pelos próximos meses. Uma possível explicação é o aumento da criminalidade violenta nas comunidades árabes, que cresceu de forma acentuada durante o mandato de Netanyahu", disse Gidron. 

Rami Zeedan, diretor do Centro de Estudos Internacionais e Globais e do Programa de Estudos Judaicos da Universidade do Kansas, admitiu ao Correio que Netanyahu sofreu um revés político significativo, à medida em que seu bloco parece bem aquém dos 61 assentos necessários para formar maioria. "Em 2022, o bloco de Netanyahu tinha 64 cadeiras na Knesset; nesta eleição, deve conseguir em torno de 53. Ainda assim, ele permanecerá como primeiro-ministro até a posse de um novo governo. Caso seus oponentes não logrem formar uma coalizão alternativa, ele poderá continuar à frente de um governo interino durante as negociações", explicou, ao não descartar nova eleição.

Dilema

De acordo com Zeedan, a sobrevivência política de Netanyahu pode depender menos de ele próprio formar um governo do que de impedir que Gadi Eisenkot o faça. "O problema de Eisenkot é que os partidos do chamado 'bloco da mudança' não possuem maioria sem apoio das duas listas árabes. Durante a campanha, ele descartou formar um governo com elas, mas os resultados eleitorais podem forçá-lo a reconsiderar", afirmou.

O especialista disse não esperar, necessariamente, uma coalizão formal. Zeedan considera plausível um governo minoritário apoiado pelo Ra'am ou pela Lista Unificada a partir de fora da coalizão. Nesse caso, os partidos árabes poderiam avalizar a formação de um novo governo e oferecer suporte a legislações específicas, sem cargos.

"Eisenkot enfrentaria a oposição de alguns de seus aliados, especialmente Naftali Bennett e Avigdor Liberman. Aceitar o apoio árabe exigiria uma decisão política ousada e a disposição de desafiar a exclusão, vigente, dos cidadãos palestinos-árabes de uma participação efetiva no governo", alertou Zeedan. Ele esclareceu que Netanyahu poderia atrair dissidentes da oposição para tentar formar o novo governo. "Isso, no entanto, parece improvável. Um governo de unidade está em pauta, mas, da mesma forma, trata-se de um cenário pouco provável."

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Rami Zeedan, diretor do Centro de Estudos internacionais e Globais e do Programa de Estudos Judaicos da Universidade do Kansas
Rami Zeedan, diretor do Centro de Estudos internacionais e Globais e do Programa de Estudos Judaicos da Universidade do Kansas (foto: Andy White)

"A mensagem mais clara das urnas foi a de que os eleitores queriam mudanças, mas não havia consenso sobre como elas deveriam ser. A coalizão governista de Netanyahu perdeu um apoio considerável em comparação com a eleição de 2022, sinalizando uma certa insatisfação (ainda que moderada) com seu desempenho e com a liderança de Netanyahu. Ao mesmo tempo, Netanyahu e o Partido Likud mantiveram uma base eleitoral ampla e fiel, e o Likud continuou sendo o maior partido."

RAMI ZEEDAN, diretor do Centro de Estudos internacionais e Globais e do Programa de Estudos Judaicos da Universidade do Kansas

Noam Gidron, professor de ciência política da Universidade Hebraica de Jerusalém
Noam Gidron, professor de ciência política da Universidade Hebraica de Jerusalém (foto: Arquivo pessoal )

"Se essa eleição for interpretada como um referendo sobre o governo, a resposta foi um claro 'não'. A coalizão de governo perdeu sua maioria na Knesset (Parlamento). Ao mesmo tempo, não há um claro 'sim' para a oposição, que não ganhou votos suficientes para formar um governo alternativo, devido à exclusão dos partidos árabes. Não está claro como o sistema político superará esse impasse."

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NOAM GIDRON, professor de ciência política da Universidade Hebrica de Jerusalém 

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