Presidente dos EUA, Donald Trump, discursa durante um café da manhã de trabalho com governadores na Casa Branca, em Washington, DC, em 20 de fevereiro de 2026 - (crédito: MANDEL NGAN / AFP)
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BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Há cerca de um ano, líderes europeus driblavam as bravatas de Donald Trump sobre o continente com afagos e presentes. Nas últimas semanas, o presidente americano acrescentou insultos às ameaças e frases de efeito.
A incômoda contenção da Europa diante da guerra no Irã fez Trump chamá-la de covarde. Em um dos piores momentos da relação transatlântica, a única certeza é que ela promete piorar ainda mais.
A situação é complexa do lado europeu. Cinco semanas após o início dos bombardeios israelenses e americanos, os europeus não dão mostras de que irão participar de um conflito que consideram dispendioso, extemporâneo e impopular. Nem as franjas populistas locais, alinhadas ideologicamente a Trump, encaram o ônus de se envolver na guerra.
Na Alemanha, por exemplo, a AfD olhou para as pesquisas de opinião, que lidera, ao decidir não apoiar publicamente a ação do presidente americano. No mesmo período, mais de um analista notou o fato de a ultradireita ter amargado derrotas eleitorais na França e na Itália.
Da simples recusa a uma tentativa de reorganizar o fluxo comercial no estreito de Hormuz via ONU, a Europa andou de lado na discussão, mais preocupada com o preço da gasolina nos postos e com potenciais novas ondas de imigração e terrorismo do que com as provocações de Trump. O premiê britânico, Keir Starmer, por exemplo, fingiu não ter ouvido que não era "um Winston Churchill".
Nesta semana, Emmanuel Macron finalmente elevou o tom após ter seu nome citado em um jantar na Casa Branca. Na quarta-feira (1°), o presidente americano lembrou do tapa que o colega francês recebeu da mulher, Brigitte, em flagrante que ocupou as redes sociais no ano passado. Comentários que não são "nem elegantes nem apropriados" e que "não merecem resposta", declarou Macron durante visita à Coreia do Sul.
O plano pessoal, porém, veio depois do político. "Quando levamos as coisas a sério, não dizemos o contrário do que dissemos no dia anterior", afirmou o presidente francês das ameaças de Trump, renovadas "a cada manhã", sobre os EUA deixarem a Otan. "Estamos falando de guerra. Estamos falando hoje de mulheres e homens que estão em combate, de mulheres, homens e civis que estão sendo mortos."
Sublinhar a falta de seriedade na fala de Trump é um passo para Macron e para o continente. Até então, líderes europeus absorviam a virulência do americano, apenas sugerindo o custo geopolítico de aderir à guerra patrocinada por ele e Binyamin Netanyahu, de Israel.
A morte de Khamenei, no contexto da ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel, constitui um ponto de inflexão histórico para o Irã e para a dinâmica geopolítica regional, abrindo uma fase de incertezas sobre sucessão e futuras políticas internas e externas de Teerã.
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A morte de Khamenei, no contexto da ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel, constitui um ponto de inflexão histórico para o Irã e para a dinâmica geopolítica regional, abrindo uma fase de incertezas sobre sucessão e futuras políticas internas e externas de Teerã.
Reprodução de vídeo CNN Brasil
Ali Khamenei tinha interesses culturais e intelectuais que surpreendiam alguns observadores por contraste com sua imagem austera. Desde jovem, ele demonstrou paixão por literatura, poesia e história. Relatos dão conta de que livros como â??Os Miseráveisâ?, clássico do francês Victor Hugo, foram marcantes para ele, considerados obras de grande" width="720" height="480">
Ali Khamenei tinha interesses culturais e intelectuais que surpreendiam alguns observadores por contraste com sua imagem austera. Desde jovem, ele demonstrou paixão por literatura, poesia e história. Relatos dão conta de que livros como â??Os Miseráveisâ?, clássico do francês Victor Hugo, foram marcantes para ele, considerados obras de grande
Reprodução de vÃdeo CNN Brasil
Sua liderança foi ao mesmo tempo venerada por partes da população xiita e vista como autoritária e repressiva por opositores e observadores internacionais.
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Sua liderança foi ao mesmo tempo venerada por partes da população xiita e vista como autoritária e repressiva por opositores e observadores internacionais.
Reprodução de vídeo CNN Brasil
Internamente, Khamenei enfrentou movimentos de protesto populares e críticas crescentes, especialmente após eleições controversas e crises econômicas prolongadas.
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Internamente, Khamenei enfrentou movimentos de protesto populares e críticas crescentes, especialmente após eleições controversas e crises econômicas prolongadas.
Reprodução de vídeo CNN Brasil
Sua administração foi marcada por uma rígida repressão a dissidências internas, o endurecimento de políticas sociais conservadoras e a promoção de um programa nuclear estatal que levou a décadas de sanções e isolamento internacional.
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Sua administração foi marcada por uma rígida repressão a dissidências internas, o endurecimento de políticas sociais conservadoras e a promoção de um programa nuclear estatal que levou a décadas de sanções e isolamento internacional.
Reprodução de vídeo CNN Brasil
Ele supervisionou o fortalecimento da Guarda Revolucionária Islâmica como instrumento de controle interno e de projeção de poder regional, apoiou redes de milícias e grupos aliados em países como Síria, Líbano, Iraque e Iêmen, e manteve uma postura de forte oposição aos Estados Unidos e a Israel.
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Ele supervisionou o fortalecimento da Guarda Revolucionária Islâmica como instrumento de controle interno e de projeção de poder regional, apoiou redes de milícias e grupos aliados em países como Síria, Líbano, Iraque e Iêmen, e manteve uma postura de forte oposição aos Estados Unidos e a Israel.
khamenei.ir/Wikimédia Commons
Ao longo de seus quase 37 anos como líder supremo, Khamenei foi uma figura-chave na formulação da política interna e externa do Irã.
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Ao longo de seus quase 37 anos como líder supremo, Khamenei foi uma figura-chave na formulação da política interna e externa do Irã.
khamenei.ir/Wikimédia Commons
Apesar de inicialmente não possuir o mesmo nível formal de hierarquia clerical que Khomeini, Ali Khamenei tornou-se o segundo líder supremo da República Islâmica, mantendo autoridade sobre as Forças Armadas, o judiciário e o poder político em geral.
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Apesar de inicialmente não possuir o mesmo nível formal de hierarquia clerical que Khomeini, Ali Khamenei tornou-se o segundo líder supremo da República Islâmica, mantendo autoridade sobre as Forças Armadas, o judiciário e o poder político em geral.
khamenei.ir/Wikimédia Commons
Quando o aiatolá Ruhollah Khomeini (foto), líder máximo da Revolução Islâmica, morreu em 1989, Khamenei foi escolhido pela Assembleia de Especialistas para sucedê-lo como líder supremo do Irã, o cargo político e religioso mais alto do país conforme a constituição teocrática iraniana.
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Quando o aiatolá Ruhollah Khomeini (foto), líder máximo da Revolução Islâmica, morreu em 1989, Khamenei foi escolhido pela Assembleia de Especialistas para sucedê-lo como líder supremo do Irã, o cargo político e religioso mais alto do país conforme a constituição teocrática iraniana.
Khamenei consolidou sua posição política nesse período e intensificou seu papel dentro das instituições revolucionárias.
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Khamenei consolidou sua posição política nesse período e intensificou seu papel dentro das instituições revolucionárias.
khamenei.ir/Wikimédia Commons
Ele ocupou a presidência iraniana por dois mandatos consecutivos entre 1981 e 1989, em meio a um contexto de guerra com o Iraque e de tensões internas profundas.Â
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Ele ocupou a presidência iraniana por dois mandatos consecutivos entre 1981 e 1989, em meio a um contexto de guerra com o Iraque e de tensões internas profundas.Â
Em 1981, após o assassinato do presidente Mohammad-Ali Rajai por agentes da Organização dos Mujahidin do Povo Iraniano, que tinha o apoio dos Estados Unidos, Khamenei foi eleito presidente do Irã.
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Em 1981, após o assassinato do presidente Mohammad-Ali Rajai por agentes da Organização dos Mujahidin do Povo Iraniano, que tinha o apoio dos Estados Unidos, Khamenei foi eleito presidente do Irã.
Domínio público/Wikimédia Commons
Durante os anos de formação da nova república, ele ocupou cargos importantes, incluindo o de membro do Conselho Revolucionário e de liderança militar nos primeiros anos do regime.
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Durante os anos de formação da nova república, ele ocupou cargos importantes, incluindo o de membro do Conselho Revolucionário e de liderança militar nos primeiros anos do regime.
khamenei.ir/Wikimédia Commons
Durante os anos 1960 e 1970, antes da Revolução Islâmica, Ali Khamenei foi preso várias vezes pela polícia secreta do regime monárquico em razão de suas atividades políticas e de sua pregação crítica ao governo do xá.
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Durante os anos 1960 e 1970, antes da Revolução Islâmica, Ali Khamenei foi preso várias vezes pela polícia secreta do regime monárquico em razão de suas atividades políticas e de sua pregação crítica ao governo do xá.
khamenei.ir/Wikimédia Commons
Religioso xiita de formação, Khamenei participou ativamente das mobilizações que derrubaram a monarquia do xá Mohammad Reza Pahlavi e impulsionaram a Revolução Islâmica de 1979, que estabeleceu a República Islâmica do Irã sob liderança clerical.
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Religioso xiita de formação, Khamenei participou ativamente das mobilizações que derrubaram a monarquia do xá Mohammad Reza Pahlavi e impulsionaram a Revolução Islâmica de 1979, que estabeleceu a República Islâmica do Irã sob liderança clerical.
khamenei.ir/Wikimédia Commons
Ali Khamenei, nome completo Ali Hosseini Khamenei, nasceu em 19 de abril de 1939 em Mashhad, no Irã, e foi uma das figuras centrais da política iraniana nas últimas décadas.
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Ali Khamenei, nome completo Ali Hosseini Khamenei, nasceu em 19 de abril de 1939 em Mashhad, no Irã, e foi uma das figuras centrais da política iraniana nas últimas décadas.
Domínio Público/Wikimédia Commons
O ataque aconteceu quando mísseis e aeronaves das forças dos EUA e de Israel bombardearam alvos na capital e em outras partes do Irã como parte de uma grande ofensiva militar que marcou uma escalada inédita no conflito entre Teerã, Washington e Tel Aviv.
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O ataque aconteceu quando mísseis e aeronaves das forças dos EUA e de Israel bombardearam alvos na capital e em outras partes do Irã como parte de uma grande ofensiva militar que marcou uma escalada inédita no conflito entre Teerã, Washington e Tel Aviv.
Reprodução de vídeo TV Globo
O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, foi morto em um ataque militar conjunto dos Estados Unidos e de Israel no dia 28 de fevereiro de 2026. O anúncio, feito por autoridades americanas e israelenses, foi posteriormente confirmado pela mídia estatal iraniana, que declarou o líder “martirizado” e divulgou luto nacional
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O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, foi morto em um ataque militar conjunto dos Estados Unidos e de Israel no dia 28 de fevereiro de 2026. O anúncio, feito por autoridades americanas e israelenses, foi posteriormente confirmado pela mídia estatal iraniana, que declarou o líder “martirizado” e divulgou luto nacional
khamenei.ir/Wikimédia Commons
A ausência da Europa na guerra também é uma meia-verdade. Enquanto Trump chamava a Otan de "tigre de papel" no Truth Social, sua rede social, aviões americanos eram abastecidos no Reino Unido, e a ilha de Lajes, nos Açores portugueses, revivia seu papel logístico histórico em operações militares transatlânticas. Em Ramstein, na Alemanha, a coordenação de drones e ataques aéreos de longa distância era rotina em uma das maiores bases americanas fora dos EUA.
Bem mais do que "ações defensivas", como chegou a defender Starmer, no começo do conflito, tentando traçar um limite para o envolvimento europeu. Ou, como lembrou o jornal americano The Wall Street Journal, um lembrete do "preço que os EUA pagariam se retirassem totalmente sua presença militar do continente".
Até então, na visão de diplomatas europeus, "administrar o homem" era a saída que restava aos principais políticos do bloco, preocupados com as consequências de uma Otan sem os EUA para dissuadir a Rússia na guerra da Ucrânia. "Talvez os europeus devessem ter um plano", escreveu Grégoire Ross, diretor dos Programas de Europa, Rússia e Eurásia da Chatham House, em artigo sobre o silencioso papel de Vladimir Putin no Oriente Médio.
Desde o começo do conflito, Moscou viu parte de sua frota fantasma ser liberada para conter o preço do petróleo, assim como sanções americanas temporariamente suspensas, amenizando o risco de colapso econômico no país, antes evidente. O Kremlin, de acordo com a imprensa europeia, ainda tentou barganhar com Washington o apoio de inteligência que dá ao Irã em troca de favor semelhante na Ucrânia. Não teve sucesso.
No xadrez europeu ainda há a sombra de Putin e Trump na eleição parlamentar húngara, em 12 de abril, que, segundo levantamentos, podem tirar Viktor Orbán do poder após quase 16 anos. O primeiro-ministro húngaro vetou um empréstimo de EUR 90 bilhões da União Europeia à Ucrânia e transformou a guerra no país vizinho em plataforma eleitoral.
Uma vitória do opositor Péter Magyar preocupa a Casa Branca a ponto de o vice-presidente americano, J.D. Vance, desembarcar em Budapeste para eventos de campanha na terça-feira (7). A questão ideológica parece detalhe perto da possibilidade de o governo mais pró-Rússia da União Europeia mudar de lado neste momento.
Uma Europa menos refém dos EUA, por óbvio, não interessa a Trump, assim como um presidente americano mais acuado representa, no fim das contas, mais risco ao continente. A distância entre os dois lados do Atlântico em raros momentos foi tão grande.