Mortes, famílias desabrigadas e bairros inteiros atingidos pelas inundações marcaram o início de 2026 na Zona da Mata mineira. As chuvas que castigaram municípios como Juiz de Fora e Ubá deixaram um alerta sobre a vulnerabilidade de Minas Gerais diante dos eventos climáticos extremos. Para o período chuvoso de 2026/2027, a Defesa Civil prevê a possibilidade de novos episódios de precipitações intensas, mas também de estiagem prolongada em regiões do estado.
O alerta foi feito pelo coronel Paulo Bermudes Rezende, coordenador da Defesa Civil Estadual (Cedec), nesta quarta-feira (28/10), durante o Seminário Estadual de Enfrentamento ao Período Chuvoso 2026/2027, em Belo Horizonte. Segundo ele, o estado realizou a maior preparação de sua história para enfrentar desastres, com capacitação de agentes, reforço dos estoques de ajuda humanitária e mobilização de diferentes órgãos.
“Posso garantir que esta é a maior preparação da história para o período chuvoso”, afirmou. Nos últimos dois anos, mais de 6 mil agentes municipais foram treinados. Nesta quarta-feira (28), também foram entregues 70 viaturas para reforçar a estrutura das defesas civis municipais. Com a nova distribuição, a iniciativa chega a cerca de 80% dos municípios mineiros.
O fortalecimento das estruturas municipais reúne investimentos superiores a R$ 107 milhões, provenientes de diferentes fontes de recursos, como o Ministério Público, o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) relacionado ao rompimento da barragem de Brumadinho, emendas parlamentares e recursos do governo estadual. O montante contempla a estruturação das coordenadorias municipais, incluindo a aquisição de viaturas e kits operacionais.
Em 3 de julho, foram entregues outras 59 viaturas e 15 motocicletas. Com a distribuição desta quarta-feira, Minas Gerais ultrapassa a marca de 600 veículos e equipamentos entregues para reforçar a atuação das defesas civis municipais. Segundo Rezende, os critérios de distribuição são técnicos e permitem contemplar municípios de diferentes regiões do estado.
Mesmo as cidades que não recebem veículos são beneficiadas pelo processo, uma vez que precisam cumprir exigências para participar do edital, como instituir uma coordenadoria municipal, elaborar mapeamento de áreas de risco e plano de contingência, designar efetivo e disponibilizar uma sede própria.
“Um número muito maior sai fortalecido porque participou efetivamente do processo, melhorando sua Defesa Civil municipal e, em alguns casos, até implementando essa estrutura”, explicou.
O planejamento mais amplo está previsto no PPAG (Plano Plurianual de Ação Governamental) 2024/2027, que reúne R$ 3,5 bilhões em créditos orçamentários para ações relacionadas à política de proteção e defesa civil. O valor abrange diferentes iniciativas da área, não apenas a compra de veículos e equipamentos.
Extremos climáticos
Apesar da preparação, o coordenador alerta que Minas Gerais pode enfrentar situações severas tanto pelo excesso quanto pela falta de chuva. A previsão considera todo o período chuvoso, até março ou abril de 2027, e inclui a possibilidade de precipitações intensas e intervalos prolongados de estiagem, conhecidos como veranicos.
“Existe a possibilidade de impactos severos. Isso envolve tanto o excesso de água quanto a falta dela”, afirmou. Segundo ele, enquanto a Zona da Mata e o Sul do estado exigem atenção em relação às chuvas, o Norte de Minas também inspira preocupação devido à seca.
Rezende ressaltou que os riscos não estão concentrados em uma única região e que os impactos dependem também das condições de vulnerabilidade de cada comunidade. “A chuva, por si só, não é um desastre. O desastre acontece quando a chuva encontra uma situação de vulnerabilidade”, declarou.
Como exemplo, ele citou os impactos registrados no início de 2026, quando Juiz de Fora e Ubá enfrentavam problemas provocados pelas chuvas e equipes também precisaram ser deslocadas para atender outra localidade atingida por alagamentos.
O coordenador explicou que a vulnerabilidade de determinadas áreas é resultado de um processo histórico de ocupação, que pode atravessar gerações. Segundo ele, há registros de famílias que vivem em áreas de risco há 40 ou 50 anos, o que torna a retirada dos moradores uma questão que vai além da perda material, envolvendo vínculos afetivos e histórias de vida.
“Não é apenas uma questão material de retirada dessas pessoas. Existe também um componente emocional, uma história de vida envolvida”, disse.
A previsão apresentada pela Defesa Civil considera o período chuvoso até março ou abril de 2027. A expectativa é de que o monitoramento seja atualizado semanalmente, conforme a evolução das condições meteorológicas.
“Mais do que tentar cravar exatamente o que vai acontecer ao longo desse intervalo de meses, nosso compromisso é informar semanalmente o que estamos monitorando”, afirmou Rezende.
A precisão das previsões aumenta à medida que os eventos se aproximam. Por isso, a corporação pretende manter a comunicação frequente com a imprensa e outros parceiros, inclusive por meio de um grupo de WhatsApp para compartilhamento de alertas e informações.
Investimentos e monitoramento
Além dos recursos destinados à estruturação municipal, a Defesa Civil conta com investimentos em outras frentes de prevenção e resposta a desastres. Rezende citou projetos de infraestrutura, como as bacias de contenção, que somam aproximadamente R$ 400 milhões.
O coordenador também informou que a execução de investimentos mais recentes, mobilizados com a participação do Ministério Público, do Poder Judiciário, da Assembleia Legislativa e do governo estadual, se aproxima ou já ultrapassou R$ 90 milhões. Os recursos são destinados a treinamentos, aquisição de equipamentos e ações de comunicação.
Outro aporte de R$ 12,5 milhões foi destinado ao Centro de Inteligência da Defesa Civil, desenvolvido em parceria com o Ministério Público. A estrutura é utilizada para acompanhar cenários de risco e aprimorar o envio de informações à população.
Além das ações de prevenção e preparação para novos eventos climáticos, a recuperação dos municípios atingidos pelas chuvas também exige investimentos. Em Juiz de Fora, na Zona da Mata, seis meses depois das tempestades de fevereiro, famílias ainda dependem de assistência e parte da infraestrutura urbana permanece comprometida. Um dos projetos voltados à reconstrução prevê R$ 9,6 milhões para recuperar moradias afetadas.
As chuvas registradas no início do ano deixaram 66 mortos em Juiz de Fora. A Defesa Civil contabilizou mais de 8,2 mil ocorrências e cerca de 2,7 mil imóveis interditados. Ao todo, mais de 8,8 mil pessoas ficaram desabrigadas ou desalojadas em decorrência das tempestades.
A cidade chegou a acolher 630 pessoas em escolas. Outras 130 pessoas, de 43 famílias, foram encaminhadas para moradias temporárias, enquanto 453 pessoas, de 197 famílias, precisaram ser acomodadas em hotéis.
Seis meses depois, a rede hoteleira e as escolas deixaram de funcionar como abrigos para os atingidos. A assistência municipal, porém, continua por meio do Auxílio Moradia, pago atualmente a 240 famílias. As áreas afetadas continuam sob acompanhamento da Defesa Civil, com vistorias técnicas e uso de drones.
Recursos para reconstrução
Parte dos esforços de recuperação está concentrada na reconstrução das moradias atingidas. Em 25 de agosto, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), a Prefeitura de Juiz de Fora e o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Minas Gerais (CAU/MG) firmaram um acordo de R$ 9,6 milhões para o projeto Reconstruindo Lares, que prevê atender 192 famílias.
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O valor será transferido, em parcela única, pelo Fundo Especial do Ministério Público (Funemp) ao Fundo Municipal Especial para Calamidades Públicas (Fumecap).
