TRAGÉDIA DE MARIANA

Entenda a batalha paralela bilionária entre advogados em ação na Inglaterra

Ação de atingidos pela tragédia de Mariana contra mineradora BHP gera disputa de escritórios para representar vítimas em causa de bilhões. E quais os riscos?

Publicidade
Carregando...


Incertezas sobre os rumos do processo internacional na Inglaterra se alastraram nos territórios devastados pela lama e os rejeitos do rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana, em novembro de 2015. Denúncias sobre fraudes milionárias, cooptação de clientes e estelionato circulam entre os grupos de vítimas, que aguardam a decisão final da corte, a partir desta segunda-feira (5 de outubro de 2026), para saber qual a situação dos representantes legais dos atingidos pelo desastre que teve efeitos entre Minas Gerais e o Espírito Santo (confira a íntegra do que dizem os envolvidos).

Fique por dentro das notícias que importam para você!


De um lado, o escritório Bailey Glasser International (BGI) declarou que, depois da rescisão com o escritório original que propôs a ação, foi selecionado pelo Comitê dos Clientes (representante dos atingidos no processo) e que nada seria necessário ser feito pelos representados, pois a sucessão seria natural. Contudo, agentes a serviço do BGI se espalharam por territórios afetados buscando assinaturas dos atingidos para ratificar a substituição.


O escritório Pogust Goodhead (PG), que ingressou com a ação original, em 2018, questiona a legitimidade do Comitê de Clientes para destituí-lo e aponta riscos de custos milionários para os atingidos, prolongamento da ação e até a sua extinção. Mas encara uma acusação de desligamento por justa causa, por falta de transparência, que pode removê-lo do caso.


Tom Goodhead, um dos fundadores do PG, que deu parte do nome da banca, depois de desligado reapareceu coligado ao BGI. O advogado nega uma série de acusações do PG e de financiadores da ação sobre uso indevido de recursos do processo, estimados em R$ 47 milhões, e até de invasão do escritório para obtenção de dados. Alegando ser alvo de campanha de difamação, ele afirma que é o PG quem lhe deve uma pequena fortuna. São informações que circularam entre os integrantes do Comitê de Clientes, mas não os fizeram recuar da substituição em apoio ao BGI.

O embate bilionário

 

A reportagem do Estado de Minas teve acesso a documentos, depoimentos, conversou com advogados e representantes de setores ligados ao processo que representa mais de 430 mil atingidos e pode lhes render uma indenização estimada em R$ 250 bilhões contra a multinacional inglesa e australiana BHP – com a Vale, a empresa é controladora da mineradora Samarco, operadora da barragem que se rompeu, matando 19 pessoas, devastando o meio ambiente e o modo de vida entre Minas e o Espírito Santo, no que é considerada a maior tragédia socioambiental da história do país.


Talvez a figura mais icônica dessa polêmica seja o advogado inglês Tom Goodhead, que esteve à frente do processo desde 2018 como um dos fundadores do PG. Ele participou de diversas mudanças de sócios e de financiadoras, quando o PG chegou a se chamar SPG Law, depois PGMBM e, por fim, Pogust Goodhead.


“Tom Goodhead foi afastado por justa causa do Pogust Goodhead, porque abusou de sua posição ao obter indevidamente milhões de libras, incluindo recursos que se destinavam a apoiar o processo contra a BHP e a Vale”, acusou, por meio de nota, o fundo norte-americano Gramercy, atual financiador do processo na Inglaterra.


O grupo acusa Goodhead de conluio com outro grupo financiador, o londrino NorthWall Capital. “Desde seu afastamento, ele e a NorthWall Capital têm buscado inviabilizar o litígio relacionado à barragem de Mariana na tentativa de obter lucro com o resultado do processo. Isso representa um enorme desserviço às 400 mil vítimas do desastre”, considera o Gramercy.


No processo movido pelo PG contra o Comitê de Clientes, ao qual a reportagem do EM teve acesso, o depoimento da diretora Jurídica, de Operações e sócia, Kam Lynn Wong, narra motivos pelos quais justifica a exclusão de Tom Goodhead da banca, imputando sérias acusações ao advogado. Ainda assim, o comitê que decide os rumos do processo pelos atingidos manteve a escolha pelo advogado fundador da causa e pelo BGI, escritório ao qual está ligado. Segundo o depoimento, até 4 de agosto de 2025, Tom Goodhead era o único cotista e administrador da matriz e único dirigente da subsidiária do escritório PG. Mas as suas contas naquele ano foram contestadas.

A intervenção

O depoimento afirma que isso partiu da principal financiadora. Em 4 de agosto de 2025, a Gramercy Funds Management (EUA) ativou a sua prerrogativa de instalar um administrador judicial sobre as cotas da matriz. O administrador substituiu Tom Goodhead. Entre as alegações, o depoimento destaca gastos particulares considerados indevidos e restrições quanto à administração da Conta de Empréstimo dos Conselheiros e do escritório.


“Estas incluíam questões relativas à aquisição, pelo Sr. Goodhead, pessoalmente, de fundos no valor aproximado de 6,9 milhões de libras (R$ 47 milhões), através de um empréstimo de conselheiro, estruturado de forma a que, na qualidade de único conselheiro e único acionista, o Sr. Goodhead fosse capaz de renunciar ao pagamento; e questões relativas à utilização de fundos pelo Sr. Goodhead em benefício próprio, de sua esposa e de familiares, incluindo para as suas próprias viagens e entretenimento privados”, diz o depoimento.

Os interventores

 

O administrador então nomeou três conselheiros nas duas sociedades do escritório. Tom Goodhead permaneceu como conselheiro de ambas as sociedades. Mas, no mesmo dia, após a Gramercy ter entregue as notificações de inadimplemento em duas linhas de crédito, “o Sr. Goodhead tentou obter acesso não autorizado às dependências do Escritório (PG) usando cartões de acesso de visitantes quando seu próprio cartão de acesso havia sido bloqueado. Ele e outros tentaram impedir o próprio bloqueio no sistema de tecnologia da informação (TI) do escritório, enquanto tentavam bloquear o acesso da alta administração. O Sr. Goodhead também tentou excluir dados e assumir o controle do sistema de TI do Escritório”, acusa o depoimento da diretora Jurídica do PG.

Por meio do BGI, Tom Goodhead nega qualquer irregularidade indicada pelo depoimento e afirma que “tinha todo o direito de entrar em seu próprio escritório – o escritório que ele fundou e administrou por sete anos. A alegação de que ele teria apagado quaisquer dados da empresa é falsa e difamatória”, considera.


O depoimento da diretora do PG afirma que conselho instituído após a saída de Goodhead instruiu um escritório de advocacia a investigar a conduta do advogado, em conjunto com uma empresa de consultoria. “Após a investigação, o escritório preparou uma carta para demitir o Sr. Goodhead por má conduta grave, e a intenção era emitir a carta ao Sr. Goodhead e demiti-lo em 12 de setembro de 2025. O Sr. Goodhead antecipou-se a isso e, antes que o escritório pudesse efetuar sua demissão, o Sr. Goodhead apresentou sua demissão como funcionário em 11 de setembro de 2025, e renunciou a seu cargo de conselheiro”, ainda segundo o depoimento.


Mesmo assim, uma carta de rescisão, de 12 de setembro de 2025, foi enviada, conforme planejado. A carta afirmava, entre outras coisas, que o PG havia concluído a violação direta ao contrato de crédito da Gramercy, incluindo um valor significativo a título de despesas pessoais sem ligação com a operação do escritório ou com o uso prescrito dos fundos estabelecido pelos contratos de financiamento com a NorthWall (a financiadora anterior) e a Gramercy.

A contra-acusação

Por meio da assessoria de imprensa do BGI, Tom Goodhead afirma não ter cometido nenhuma ilegalidade e ser ele o lesado financeiramente. “O Sr. Goodhead não 'se apropriou' de 6,9 milhões de libras, nem de qualquer outro valor, de uma empresa da qual era o único acionista e diretor. A alegação é simplesmente uma tentativa do PG de apresentar como indevida a remuneração acordada por mais de cinco anos de trabalho. Esses acordos foram firmados com os financiadores de ações do PG e supervisionados pelo então diretor de Operações do escritório, que agora é seu diretor-executivo”, diz a nota.


“Tom Goodhead realizou despesas por meio de sua própria empresa, com pleno conhecimento dos credores do PG. Essas despesas foram registradas em sua conta de empréstimo de diretor, cujos saldos foram devidamente reconciliados em todos os momentos. Atualmente, o PG deve ao Sr. Goodhead 2,7 milhões de libras (R$ 18,6 milhões), e a empresa enfrenta mais de 80 milhões de libras (R$ 550,9 milhões) em ações judiciais movidas por pessoas físicas e jurídicas que buscam o pagamento de valores pendentes, incluindo advogados brasileiros e financiadores de ações”, informou o BGI, em nome de Goodhead.

Influência e exigências

Segundo as informações do depoimento de Lynn Wong, desde sua saída do PG, Tom Goodhead compareceu a quase todas as reuniões do Comitê de Clientes, mantendo relações próximas com integrantes influentes. Na reunião de 8 de setembro de 2025, o Comitê enviou um aviso ao PG comunicando o propósito de romper com o escritório, sob a exigência de readmissão de Tom Goodhead. Posteriormente, em 30 de setembro de 2025, o Comitê concordou em tornar sem efeito a quebra planejada e manteve o PG na causa.


O documento afirma, ainda, que Tom Goodhead assumiu e depois renunciou a uma sociedade com outros ex-funcionários e advogados do PG em um “pequeno escritório de advocacia” que depois teria se fundido e se tornado o Bailey Glasser International (BGI). “Para mim, está claro que o Sr. Goodhead vem planejando assumir o controle do Processo Mariana há algum tempo”, afirmou a diretora, em testemunho.


Tom Goodhead e o BGI rejeitam a conclusão da diretora do PG. “A sugestão de que essa reorganização teria sido premeditada como forma de transferir o controle do caso é infundada. O BGI é o primeiro empreendimento internacional do Bailey & Glasser LLP, um escritório de advocacia norte-americano com 27 anos de atuação, mais de 130 funcionários e presença em 13 estados dos EUA. A decisão de nomear o BGI foi tomada de forma independente e por unanimidade pelo Comitê de Clientes, com assessoria de advogados ingleses independentes. Ela não foi iniciada por Tom Goodhead. O Sr. Goodhead atua como advogado na equipe jurídica mais ampla que conduz o caso Mariana”, afirmam, por meio de nota.


Sem reconhecer ou comentar o depoimento, o PG informou, por meio de nota, que Goodhead era o “responsável pelo controle e pela administração, ele tinha deveres e obrigações perante os clientes do escritório. Em vez de cumprir adequadamente esses deveres, ele abusou abertamente de sua posição”, declara.


“Tom Goodhead utilizou abertamente os recursos do escritório de maneira indevida, em benefício próprio e de sua família. Essas e outras alegações igualmente graves levaram o Conselho de Administração a instaurar uma investigação independente, que incluiu uma análise abrangente realizada por peritos contábeis forenses. A investigação confirmou a má gestão financeira do escritório por Tom Goodhead, incluindo apropriação indevida de recursos, o que levou o PG a preparar sua demissão por má conduta. Ele renunciou imediatamente antes de a demissão entrar em vigor”, afirma o PG.


“Desde então, todo o trabalho da atual administração liderada por Alicia Alinia, junto ao Conselho de Administração, foi para reestruturar a governança e os controles financeiros do escritório. Se Tom, com sua cultura tóxica de trabalho e descontrole financeiro, permanecesse no cargo, o escritório poderia chegar a uma situação financeira insustentável e que colocaria em risco a defesa dos atingidos do caso Mariana”, declarou o PG.

O QUE ELES DIZEM

CONFIRA A ÍNTEGRA DAS RESPOSTAS DOS ENVOLVIDOS NA BATALHA EM TORNO DA AÇÃO NA INGLATERRA SOBRE A TRAGÉDIA DE MARIANA

BAILEY GLASSER INTERNATIONAL (ESCRITÓRIO ESCOLHIDO PELO COMITÊ DE ATINGIDOS PELA TRAGÉDIA DE MARIANA)

“A representação da grande maioria dos clientes na ação de Mariana pelo Pogust Goodhead foi encerrada por decisão unânime do Comitê de Clientes, que identificou graves violações por parte do escritório inglês de suas responsabilidades profissionais e falhas substanciais em relação à gestão da Ação de Mariana.

Demonstrando mais uma grave violação de suas responsabilidades profissionais, o Pogust Goodhead parece ter fornecido ao Estado de Minas* uma cópia do Primeiro Depoimento de Kam Lynn Wong. Trata-se de uma grave violação dos deveres de confidencialidade e sigilo devidos a mais de 420 mil clientes que o PG ainda alega representar. Essa conduta é um exemplo paradigmático dos comportamentos do Pogust Goodhead que levaram à decisão do Comitê de Clientes de rescindir a representação do PG por justa causa.”

(* NOTA DO EM: A reportagem do Estado de Minas, conforme prerrogativa do sigilo de fonte, nunca revelou nem revela de qual fonte obteve o depoimento mencionado na resposta acima do escritório BGI)

Inicialmente, o site do BGI afirmava que os clientes da Ação de Mariana “não precisavam fazer nada”, pois a transferência seria automática após a decisão do Comitê de Clientes de mudar de escritório. Por que, então, agentes do escritório começaram a atuar fisicamente nos territórios, coletando assinaturas e dados, e alegando que isso confirmava ao tribunal na Inglaterra que os afetados concordavam com as decisões do Comitê?

“A posição do BGI é que, após a decisão do Comitê de Clientes de rescindir o contrato com o PG em 29 de agosto de 2026, a transição da representação do PG para o BGI entrou em vigor automaticamente e não exigiu nenhuma ação por parte dos clientes, conforme o BGI afirmou desde o início.

Desde que assumiu a condução do Processo em nome dos clientes representados pelo Comitê de Clientes, o BGI realizou uma série de reuniões locais com advogados parceiros e clientes na ação de Mariana para fornecer atualizações sobre o caso e esclarecer dúvidas diretamente. Essas reuniões destinam-se exclusivamente aos clientes no processo inglês e aos advogados colaboradores.

O envolvimento direto nas regiões afetadas reflete a abordagem que os advogados com vasta experiência no caso de Mariana, e que agora estão no BGI, têm adotado de forma consistente: manter uma forte presença presencial nas comunidades afetadas, permanecer acessíveis aos clientes e garantir que eles se sintam devidamente informados sobre o andamento de suas próprias reivindicações. Nessas reuniões, os clientes também podem fornecer seus dados pessoais, confirmar sua condição de requerentes e, se desejarem, assinar uma declaração expressando apoio e ratificando a decisão do Comitê de Clientes.”

Houve algum obstáculo jurídico ou contratempo para a transferência automática perante os tribunais britânicos, ou essa seria uma transferência manual dos clientes?

“Se o Pogust Goodhead tivesse respeitado e cooperado com a decisão do Comitê de Clientes, a transferência teria sido automática. Agora, a questão da autoridade do Comitê de Clientes para efetivar a rescisão do contrato com o Pogust Goodhead e contratar o BGI será decidida na audiência judicial de 5 e 6 de outubro.

Caso o Comitê de Clientes seja bem-sucedido, o Pogust Goodhead será novamente solicitado a cooperar para efetivar a transferência. Caso contrário, o BGI e o Comitê de Clientes tomarão todas as medidas legais necessárias para efetivar a transferência de dados.”

Qual é a relação formal de Tom Goodhead (corporativa, contratual ou de consultoria) com o Bailey Glasser International? Sob que mandato ou autoridade ele tem participado de reuniões com as partes afetadas no Brasil?

“Tom Goodhead é contratado como advogado pelo BGI. Ele trabalha no caso desde 2018 e é reconhecido por ter iniciado uma das maiores ações coletivas da história do direito inglês. O Sr. Goodhead atua como parte da equipe jurídica do BGI ao lado dos sócios Faranak Ghajavand e Jeremy Evans (ambos também ex-funcionários do Pogust Goodhead).

No total, mais de 15 advogados com experiência no caso estão agora se transferindo para o BGI. A função do Sr. Goodhead na equipe do BGI lhe confere legitimidade direta para participar de reuniões com os afetados no Brasil.”

O BGI já garantiu as linhas de crédito necessárias (estimadas em US$ 150 milhões nesta fase) para financiar a fase de quantificação dos danos no Reino Unido (2027/2028)? Qual fundo de financiamento é responsável por essa fase? Que garantias o BGI oferece aos mais de 430 mil clientes que representa de que a mudança de assessoria jurídica não comprometerá as apólices de seguro pós-evento (ATE) nem resultará na exposição a reivindicações de honorários pro rata por parte do escritório anterior? Sem esse seguro ou garantia, a BHP poderia até mesmo solicitar a extinção do processo, correto?

“No que diz respeito às apólices de seguro ATE atualmente contratadas pelo Pogust Goodhead, o escritório inglês não respondeu aos repetidos pedidos dos advogados independentes nomeados pelo Comitê de Clientes para obter informações sobre essas apólices.

Enquanto isso, os advogados independentes do Comitê avançaram nas negociações para acordos de substituição, que entrariam em vigor após a conclusão da atual disputa sobre a representação.

Conforme mencionado acima, durante o período provisório, já foi instituída a proteção contra custas adversas.

Por fim, as ameaças e medidas tomadas pelo Pogust Goodhead para cobrar honorários de clientes que alega representar atualmente carecem de fundamento, tendo em vista a rescisão por justa causa e as violações das responsabilidades profissionais e falhas substanciais do Pogust Goodhead em relação à gestão da ação que deram origem a tal rescisão. Tudo está documentado pelo Comitê de Clientes e será analisado pelo Tribunal Inglês.”

É verdade que a empresa financeira NorthWall tem um acordo com o escritório de advocacia Humphries Kerstetter, que atua como consultor da Comissão, garantindo-lhe tratamento preferencial no financiamento e prioridade no recebimento de pagamentos caso o processo seja transferido para o BGI?

“Não cabe ao BGI comentar.”

COMITÊ DE CLIENTES (REPRESENTA OS ATINGIDOS)

Por que o Comitê decidiu apoiar o escritório Bailey Glasser International (BGI) e endossar as ações de Tom Goodhead, mesmo estando ciente das investigações conduzidas pela DLA Piper e pela Alvarez & Marsal e das alegações de má conduta financeira feitas pelo conselho do PG?

“A decisão do Comitê de Clientes de nomear o BGI foi tomada por unanimidade com base em parecer independente de um dos escritórios de advocacia mais renomados de Londres e de um King’s Counsel.

As alegações feitas pelo conselho do PG são totalmente negadas pelo Sr. Goodhead, que afirma que elas são falsas, difamatórias e, a respeito delas, ele está em vias de iniciar um processo judicial contra o PG e seu conselho.

De fato, a decisão de rescindir o contrato com o PG não se referia a nenhum indivíduo em particular, mas a sérias preocupações quanto à conduta do escritório na gestão da Ação de Mariana e do interesse dos clientes que representava. O Comitê identificou mudanças tanto na equipe jurídica quanto na estrutura de financiamento que haviam sido feitas sem sua aprovação e agiu para garantir a representação que considerou mais adequada para proteger os interesses de mais de 420.000 partes afetadas nesta fase decisiva do processo.

O Comitê apresentou todas as suas preocupações diretamente ao PG, mas o escritório ou não as respondeu ou optou por não fazê-lo.”

Qual é a justificativa do Comitê para exigir a recontratação dos advogados sênior que foram afastados, cujos honorários, de acordo com o depoimento (chegando a 8,85 milhões de libras para um único profissional), representariam cerca de 25% do orçamento para a Fase 2?

“A Diretoria do PG desmantelou sistematicamente uma equipe vencedora composta por até 15 sócios qualificados na Inglaterra e advogados sênior que conduziram com sucesso o caso Mariana, passando pela fase de determinação de jurisdição, recursos e sentença de responsabilidade. O Comitê considerou que isso era totalmente contrário aos interesses dos clientes que representa e irracional.

O BGI não comenta acordos comerciais confidenciais. De maneira mais geral, os honorários dos principais advogados especializados em contencioso comercial em Londres podem ser significativos, especialmente em casos que envolvem processos demorados, complexos e de alto valor. O BGI está muito satisfeito que Alain Choo Choy e toda a equipe de advogados continuem a representar os clientes na Fase 2 do processo.”

TOM GOODHEAD (ADVOGADO QUE ATUAVA NO ESCRITÓRIO QUE PROPÔS A AÇÃO INICIAL DE MARIANA, DEIXOU A EMPRESA E HOJE É ACUSADO DE MÁ GESTÃO DE RECURSOS E COOPTAÇÃO DE CLIENTES)

Como o senhor responde à declaração sob juramento de Kam Lynn Wong, na qual ela alega que você o senhor apropriou (o termo correto seria “obter”) pessoalmente de aproximadamente 6,9 milhões de libras (cerca de R$ 47 milhões) por meio de um “empréstimo de diretor” estruturado de tal forma que, como único diretor e acionista na época, você pudesse anular ou dispensar o pagamento?

“O Sr. Goodhead não 'se apropriou' de 6,9 milhões de libras, nem de qualquer outro valor, de uma empresa da qual era o único acionista e diretor. A alegação é simplesmente uma tentativa do PG de apresentar como indevida a remuneração acordada por mais de cinco anos de trabalho. Esses acordos foram firmados com os financiadores de ações do PG e supervisionados pelo então diretor de Operações do escritório, que agora é seu diretor-executivo.

Atualmente, o PG deve ao Sr. Goodhead 2,7 milhões de libras, e a empresa enfrenta mais de 80 milhões de libras em ações judiciais movidas por pessoas físicas e jurídicas que buscam o pagamento de valores pendentes, incluindo advogados brasileiros e financiadores de ações.”

É verdade que o senhor utilizou recursos da empresa para despesas pessoais e familiares com viagens e entretenimento, violando os contratos de crédito firmados com a Gramercy Funds Management e a NorthWall Capital?

“Tom Goodhead realizou despesas por meio de sua própria empresa, com pleno conhecimento dos credores do PG. Essas despesas foram registradas em sua conta de empréstimo de diretor, cujos saldos foram devidamente reconciliados em todos os momentos. Conforme mencionado acima, o PG deve atualmente ao Sr. Goodhead 2,7 milhões de libras, e o escritório enfrenta mais de 80 milhões de libras em ações judiciais movidas por pessoas físicas e jurídicas que buscam o pagamento de valores pendentes, incluindo advogados brasileiros e financiadores de ações.”

É verdade que, em 4 de agosto de 2025, após a nomeação de um administrador judicial, o senhor tentou obter acesso não autorizado às instalações e à infraestrutura de TI do PG usando crachás de visitante, a fim de excluir dados, assumir o controle dos sistemas ou impedir o acesso da alta administração?

“Tom Goodhead tinha todo o direito de entrar em seu próprio escritório – o escritório que ele fundou e administrou por sete anos. A alegação de que ele teria apagado quaisquer dados da empresa é falsa e difamatória.”

O senhor coordenou a reestruturação ou a mudança de marca da Edward McCourt & Company LLP para Bailey Glasser International (BGI) com o objetivo premeditado de transferir o controle do caso de Mariana? Qual é exatamente o seu papel, cargo formal e capacidade jurídica no BGI atualmente?

“A sugestão de que essa reorganização teria sido premeditada como forma de transferir o controle do caso é infundada. O BGI é o primeiro empreendimento internacional do Bailey & Glasser LLP, um escritório de advocacia norte-americano com 27 anos de atuação, mais de 130 funcionários e presença em 13 estados dos EUA.

A decisão de nomear o BGI foi tomada de forma independente e por unanimidade pelo Comitê de Clientes, com assessoria de advogados ingleses independentes. Ela não foi iniciada por Tom Goodhead. O Sr. Goodhead atua como advogado na equipe jurídica mais ampla que conduz o caso Mariana.”

POGUST GOODHEAD (ESCRITÓRIO ORIGINAL DA AÇÃO NA INGLATERRA)

O PG confirma as posições apresentadas no depoimento de Lynn Wong?

“Os documentos citados fazem parte de um processo em andamento, ao qual o PGMBM se reserva o direito de não comentar os detalhes.

O que podemos dizer é que:

As preocupações com a gestão sob a liderança do sócio-fundador Tom Goodhead surgiram quando ele ainda era CEO, único diretor e único acionista do PG. Como responsável pelo controle e pela administração, ele tinha deveres e obrigações perante os clientes do escritório. Em vez de cumprir adequadamente esses deveres, ele abusou abertamente de sua posição.

Os recursos financeiros do escritório são fornecidos por financiadores de litígios por meio de contratos de crédito, que estabelecem como esses recursos podem ser utilizados. Especificamente, o financiamento deve cobrir custos operacionais legítimos e necessários para conduzir os litígios do escritório, incluindo o processo de Mariana.

Tom Goodhead utilizou abertamente os recursos do escritório de maneira indevida, em benefício próprio e de sua família. Essas e outras alegações igualmente graves levaram o Conselho de Administração a instaurar uma investigação independente, que incluiu uma análise abrangente realizada por peritos contábeis forenses. A investigação confirmou a má gestão financeira do escritório por Tom Goodhead, incluindo apropriação indevida de recursos, o que levou o PG a preparar sua demissão por má conduta. Ele renunciou imediatamente antes de a demissão entrar em vigor.

Desde então, todo o trabalho atual da nova administração liderada pela Alicia Alinia, junto ao Conselho de Administração, foi para reestruturar a governança e os controles financeiros do escritório. Se Tom, com sua cultura tóxica de trabalho e descontrole financeiro permanecesse no cargo, o escritório poderia chegar a uma situação financeira insustentável e que colocaria em risco a defesa dos atingidos do caso Mariana.”

O PG acionou ou pretende acionar a polícia britânica ou a Solicitors Regulation Authority?

“O Pogust Goodhead apresentou, ao longo dos últimos 13 meses, uma série de denúncias à SRA relacionadas a supostas violações cometidas por Tom Goodhead e determinados ex-funcionários. Temos conhecimento de que diversas investigações da SRA decorrentes dessas questões continuam em andamento.”

Qual é a legitimidade do PG para continuar atuando na causa depois da notificação de rescisão do Comitê? O Tribunal já reconheceu a destituição?

“A validade e o alcance da decisão do Comitê são justamente as questões submetidas ao Tribunal Superior de Londres.

O PG sustenta que o Comitê exerce funções importantes previstas nos contratos, mas não tem autoridade para rescindir coletivamente os contratos individuais de centenas de milhares de clientes e contratar outro escritório em nome de todos eles. Isso não retira de cada cliente o direito individual de escolher seu advogado.

O que está em discussão é se o Comitê pode exercer essa escolha coletivamente em nome de pessoas que têm contratos individuais com o PG há anos.

A controvérsia foi formalmente levada ao Tribunal. O juiz determinou a realização de uma audiência em 5 e 6 de outubro para decidir a questão da autoridade do Comitê e a disputa relativa às notificações de mudança de representação, esclarecendo quais escritórios representam quais autores.

Portanto, o Tribunal ainda não reconheceu a alegada destituição do PG nem declarou que o BGI passou a representar coletivamente todos esses clientes. Enquanto a controvérsia não for decidida, a própria ordem judicial estabelece que os advogados da BHP devem se comunicar com o PG e com o BGI nos termos definidos pelo Tribunal.”

Se a rescisão for considerada sem justa causa, o PG pretende cobrar honorários ou despesas diretamente dos clientes que assinarem representação com o BGI?

“A audiência de 5 e 6 de outubro será exclusiva sobre a questão da autoridade do Comitê e a disputa relativa à mudança de representação, esclarecendo quais escritórios representam quais autores. Discussões sobre a existência de justa causa só serão examinadas posteriormente, se necessário, de acordo com os contratos aplicáveis e as decisões do Tribunal.”

Quais são os riscos para o seguro ATE e quais medidas estão sendo adotadas?

“O seguro ATE é uma proteção importante em processos judiciais na Inglaterra, pois a parte que perde uma ação pode ser condenada a pagar uma parcela substancial dos custos jurídicos da parte vencedora. Em um processo da dimensão e do custo do Caso Mariana, esses valores podem ser muito elevados.

O PG contratou um seguro ATE como parte da estrutura de proteção já existente para seus clientes. Sua finalidade é cobrir o risco de condenação ao pagamento de custos da parte contrária, caso essa obrigação seja imposta aos autores segurados. O seguro integra as garantias financeiras que sustentam o processo.

Se a cobertura atual deixasse de valer após uma mudança de representação, sem que houvesse proteção substituta adequada, a BHP poderia pedir ao tribunal que exigisse uma garantia para cobrir seus custos jurídicos futuros. Caso o tribunal exigisse a garantia e ela não fosse apresentada, poderia suspender o andamento das ações afetadas até o cumprimento da ordem.

O descumprimento continuado de ordens judiciais poderia, em última instância, colocar essa ação em risco, inclusive com a possibilidade da extinção do processo.

Retirar uma proteção já estabelecida contra esses custos, sem assegurar antes uma alternativa adequada, pode, portanto, criar um risco processual sério. Isso é especialmente relevante neste momento: a segunda fase do julgamento está prevista para começar em abril de 2027 e deve durar 22 semanas.

O PG tem alertado reiteradamente que a substituição da estrutura jurídica, financeira, securitária e operacional que sustenta um processo dessa dimensão não pode ser descrita como uma transição “sem obstáculos” se essas proteções não estão de fato asseguradas.

Não basta dizer aos clientes que seu caso pode ser transferido.

Eles têm o direito de saber o que acontecerá com as proteções que cercam suas ações. Nossa prioridade é preservar o calendário do processo, manter uma proteção adequada contra o risco de pagamento dos custos da parte contrária e evitar que as ações de pessoas que esperam há quase 11 anos por justiça sejam colocadas em risco desnecessariamente.

Por isso, nossa prioridade é resolver essa questão rapidamente e voltar a concentrar as atenções no que importa: garantir uma indenização integral e justa a pessoas que já esperam há quase 11 anos por justiça.”

ESCRITÓRIO HUMPHRIES KERSTETTER (REPRESENTA O COMITÊ DE CLIENTES)

“O Comitê de Clientes foi criado para representar os interesses coletivos dos autores das ações e possui amplos poderes de decisão sobre a condução do litígio, incluindo a possibilidade de dar instruções aos advogados e tomar as medidas necessárias para a continuidade ou a resolução do processo.

O Comitê atuou dentro dos poderes que lhe foram conferidos contratualmente, levantou repetidamente sérias preocupações sobre a condução do litígio, inclusive por meio de uma notificação formal, e buscou aconselhamento independente antes de concluir que uma mudança de representação havia se tornado inevitável. O Comitê continua plenamente confiante na decisão que tomou para proteger os interesses das pessoas que representa.”

GRAMERCY FUNDS MANAGEMENT (FUNDO QUE FINANCIA A AÇÃO ATUALMENTE)

“A equipe do Pogust Goodhead e do Quinn Emanuel está concentrada em responsabilizar a BHP e a Vale pelo desastre de Mariana e em garantir que as vítimas obtenham o melhor resultado possível o mais rapidamente possível, e a Gramercy continua apoiando esses esforços.

Tom Goodhead foi afastado por justa causa do Pogust Goodhead porque abusou de sua posição ao apropriar-se indevidamente de milhões de libras, incluindo recursos que se destinavam a apoiar o processo contra a BHP e a Vale.

Desde seu afastamento, ele e a NorthWall Capital têm buscado inviabilizar o litígio relacionado à barragem de Mariana na tentativa de obter lucro com o resultado do processo. Isso representa um enorme desserviço às 400 mil vítimas do desastre.”

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

NORTHWALL CAPITAL (FUNDO QUE JÁ PATROCINOU E PODE SER NOVO PATROCINADOR DA AÇÃO NA INGLATERRA)

“Após a decisão do Comitê de Clientes de mudar seus representantes legais com o objetivo de fortalecer a posição dos requerentes, o foco da NorthWall Capital é garantir a continuidade do financiamento e apoiar o melhor resultado possível para aqueles afetados pelo desastre de Mariana.”

Tópicos relacionados:

indenizacao justica mariana mineracao tragedia

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay