A quase 10 metros do chão, sobre andaimes, restauradores resgatam a história da centenária Igreja Sagrado Coração de Jesus (de rito siríaco católico), na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Com entusiasmo pelo bom andamento da obra, o experiente Sílvio Luiz Rocha Vianna de Oliveira, coordenador da equipe e especialista no setor, dizia que, naquela altura, é “possível tocar o céu com os dedos”.
O comentário surpreende e surte efeito, pois tem muito de real: a um palmo dos olhos, se vê a pintura de um anjo que perdeu parte da asa devido à degradação e preocupou a comunidade religiosa, especialmente o padre George Raleb Massis, obrigado a isolar a nave há três anos. O restauro do forro consiste na quarta etapa das intervenções iniciadas em 2019 e paralisadas muitas vezes por falta de recursos.
- Concluída a restauração de retrato de dom Pedro II
- 7 de setembro: BH dá parabéns a dois símbolos da cidade; veja quais são
Agora, o movimento externo e interno no segundo templo católico mais antigo da capital – o primeiro é a Capela Nossa Senhora do Rosário (1897), no Centro – indica que o serviço completo de restauro na construção datada de 1901 entra na reta final. Segundo Sílvio Luiz, a expectativa é terminar a parte do forro em março. “Mas ainda teremos intervenção nas paredes, no piso e nas escadas de madeira que conduzem à parte superior da igreja. Assim, acreditamos que tudo será concluído no fim de 2027”, complementa, ao lado, a historiadora do Memorial da Arquidiocese de BH, Flávia Costa Reis.
Leia Mais
Acompanhada do restaurador-chefe da empresa Conservare - Conservação e Restauração de Obras de Arte e da historiadora do Memorial, a equipe do EM conferiu o minucioso trabalho em execução, nos últimos cinco meses, no forro da igreja que mostra cenas da vida de Jesus. “Antes de começar, fizemos o escoramento de toda a área, pois havia desprendimento das pinturas já em processo de craquelamento (trinca na camada de tinta) e perdas sérias, a exemplo do anjo, trabalho atribuído ao alemão Guilherme Schumacher”, conta Sílvio. A ornamentação foi feita no início do século 20 com a técnica do estuque (estrutura de madeira para receber a massa de areia e cal).
A equipe de restauro atua em várias frentes, incluindo tratamento das trincas e rachaduras, consolidação do estuque que estava desprendendo e reforço estrutural do forro. Sobre essa última parte, Sílvio informa que resíduos (sujeira, fezes de aves, restos de antigas intervenções etc.) encontrados nas cambotas de madeira encheram uma caçamba e meia. Subindo por outra escada, os repórteres podem ver as cambotas, que são armação da estrutura do forro de estuque. “Temos 50 cambotas no total, e foram necessários reparos e trocas para garantir a segurança do forro”, afirma o restaurador.
Até agora, a Mitra Arquidiocesana já investiu R$ 1,85 milhão nas obras da Igreja Sagrado Coração de Jesus. Foram usados também recursos de R$ 421,9 mil do Iepha-MG e mais R$ 70 mil de um termo de compromisso com a Prefeitura de BH.
A reforma do forro integra a quarta etapa das intervenções iniciadas em 2019. A previsão é que essa etapa final termine em março
DESAFIOS
No total, a equipe da Conservare em atuação na Igreja Sagrado Coração de Jesus reúne 20 pessoas, entre profissionais formados e estagiários. Mestranda em patrimônio cultural na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a restauradora Ana Vitória Aguiar Monteiro está satisfeita com a oportunidade. “Já trabalhei em obras no Palácio da Liberdade e na sede (Prédio Verde) do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) ambos na Praça da Liberdade, mas é minha primeira vez num templo religioso em BH”, revela Ana Vitória, certa de que a restauração sempre traz desafios ao profissional. “É muita história diante dos nossos olhos.”
Natural do distrito de Cachoeira do Campo, em Ouro Preto, Região Central de Minas, o técnico de restauração Edson Júnior Luciano já é um velho conhecido do projeto de restauro da igreja localizada entre as avenidas Alfredo Balena e Carandaí e Rua Paraíba (Região Hospitalar), no Bairro Funcionários. “Trabalhei em outras etapas: a capela-mor, os altares laterais e pinturas do transepto (espaço entre a capela-mor e a nave)”, destaca Edson, formado no curso de conservação-restauração da Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop), a exemplo dos demais técnicos de restauro presentes.
Perto dali, a estagiária Maria Clara Barbosa de Almeida, graduanda no curso de conservação-restauração na UFMG, observa sobre a importância da prática na formação profissional. Ao lado, está a assinatura de Gilberto Bernadinetti, artista que trabalhou no templo e registrou a data 21 de novembro de 1914.
Na parte externa, também se mostra intensa a mobilização, conforme quem passa na Avenida Alfredo Balena pode ver: gramado e piso intertravado colocados após os serviços de drenagem e irrigação. A arquiteta assistente do Memorial da Arquidiocese de BH, Jéssica Morais, adianta que o paisagismo terá canteiros com flores.
Imagem do anjo degradada, o que obrigou o padre George Raleb Massis, à época, a interditar parte da nave, há três anos
PREOCUPAÇÃO
Nos últimos sete anos, o titular da paróquia instituída em 25 de outubro de 1925, padre George Raleb Massis, vem alertando sobre os riscos no bem tombado pelo Iepha-MG e o Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte, (CDPCM-BH). Em sucessivas entrevistas, chamou a atenção das autoridades dizendo que “tombamento significa história, memória viva, cuidado, sendo necessário que todos os órgãos de defesa do patrimônio assumam o compromisso de preservar uma edificação tão importante para a cidade”.
Diante do temor de que o teto desabasse, foi feito o isolamento da nave, há três anos, com anuência do Iepha-MG e a Prefeitura de BH juntamente com o Memorial da Arquidiocese de BH. Hoje, quem entra no templo vê o tapume que deixa disponíveis aos fiéis apenas 30 assentos dos 300 existentes. Com isso, casamentos e batizados saíram de cena, embora moradores e visitantes possam participar todo domingo, às 11h, da missa celebrada em aramaico, a língua que Jesus falava.
A arquiteta assistente do Memorial da Arquidiocese de BH, Jéssica Morais, disse que o paisagismo terá canteiros com flores
HISTÓRIA
A Igreja Sagrado Coração de Jesus tem grande relevância histórica, arquitetônica e cultural, sendo tombada em âmbito estadual e municipal. Apresenta pinturas parietais, havendo painéis e pinturas confeccionados em estêncil e marmorização. Algumas pinturas são atribuídas a artistas de destaque na primeira metade do século 20, entre eles o italiano Francisco Tamietti e o alemão Guilherme Schumacher, que trabalharam na Comissão Construtora da nova capital mineira, sendo responsáveis pela decoração de edificações públicas, religiosas e particulares, como o forro da sala de sessões do Senado Mineiro, hoje Museu Mineiro, e a Igreja São José, atual Santuário Arquidiocesano São José.
"É minha primeira vez num templo religioso em BH", disse a restauradora Ana Vitória Aguiar Monteiro
Iniciativa de Anna de Aquino Sales, mulher do presidente do estado, Francisco Sales, a Igreja Sagrado Coração de Jesus foi construída em terreno cedido por Aarão Reis, chefe da Comissão Construtora da Nova Capital. O lançamento da pedra fundamental ocorreu em 27 de janeiro de 1900 – três anos depois, teve início a obra, confiada aos padres redentoristas, também responsáveis pela construção da Igreja São José.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Em 1925, teve início na igreja o rito siríaco católico, com a nomeação de seu primeiro padre, vindo da Síria, George Elian. O templo conserva características dos tempos apostólicos e de costumes próprios das comunidades cristãs da Síria. A origem do rito remonta aos primeiros tempos do cristianismo. Os católicos do rito siríaco se uniram a Roma a partir do século 17, conservando, no entanto, a própria língua, o rito e a legislação eclesiástica, obedientes à autoridade do patriarca.
