Da Fafich à Antártica: laboratório da UFMG revela história do continente
Projeto liderado pela UFMG investiga vestígios deixados pelos primeiros grupos que chegaram à região e usa arqueologia para contar histórias esquecidas, preservar acervos e alertar sobre os impactos da ação humana
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Em uma sala no terceiro andar da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte, a Antártica parece estar mais próxima do que os milhares de quilômetros que separam Minas Gerais do continente gelado. Sapatos usados por trabalhadores do século XIX, fragmentos de roupas, ossos, objetos e outros vestígios arqueológicos ajudam a contar uma história pouco conhecida: a das primeiras pessoas que ocuparam uma das regiões mais extremas do planeta.
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É na sala 3070 que funciona o Laboratório de Estudos Antárticos em Ciências Humanas (Leach), coordenado pelo arqueólogo e professor Andres Zarankin. O espaço abriga parte de um projeto internacional liderado pela universidade e dedicado a investigar a relação entre os seres humanos e a Antártica ao longo do tempo. A pesquisa reúne arqueologia, antropologia, conservação e novas tecnologias para reconstruir experiências que ficaram fora dos grandes livros de história.
A Antártica costuma ser imaginada como um enorme território branco, isolado e quase vazio, ocupado apenas por cientistas e algumas bases de pesquisa. Mas essa paisagem tem uma história humana. E ela começou, segundo Zarankin, relativamente tarde na trajetória da humanidade.
"A chegada do ser humano se produz apenas no final do século XVIII, começo do século XIX. Ou seja, é o último grande espaço a ser localizado e ocupado pelo ser humano", explica.
O objetivo geral do Leach é justamente compreender, a partir da arqueologia, as primeiras estratégias humanas de ocupação do território antártico. O foco da pesquisa está, especialmente, em sítios arqueológicos do início do século XIX, localizados nas ilhas Shetland do Sul, região próxima à Península Antártica.
Ao invés de concentrar a narrativa nos grandes exploradores, capitães e personagens tradicionalmente celebrados pela história oficial, o laboratório procura entender a vida de trabalhadores que chegaram à região para explorar seus recursos naturais. São histórias que, muitas vezes, não aparecem nos documentos.
"Essas primeiras pessoas sempre têm sido invisíveis”, afirma Zarankin. “Eram pessoas que não sabiam ler e escrever, então não deixavam documentos."
É justamente nesse silêncio que entra a arqueologia.
Uma história contada pelos objetos
O trabalho dos arqueólogos permite reconstruir experiências humanas a partir daquilo que as pessoas deixaram para trás. Restos de alimentação, roupas, sapatos, ferramentas, objetos pessoais e estruturas de antigos acampamentos se transformam em fontes históricas.
No caso da Antártica, esses vestígios ajudam a revelar a rotina de trabalhadores que foram enviados para a região no início do século XIX, principalmente para caçar focas e explorar elefantes-marinhos e outros animais.
Segundo o professor, a chegada desses grupos está ligada à expansão econômica daquele período. O mercado europeu precisava de matérias-primas, como peles e óleo animal, que tinham diferentes aplicações industriais.
"O sistema vai atrás desses recursos que necessita. Então, chegam na Antártica e encontram como se fosse um supermercado gigante", resume.
O óleo obtido de baleias e elefantes-marinhos era utilizado, entre outras finalidades, para iluminação e na fabricação de produtos. As peles das focas, por sua vez, tinham grande valor comercial, especialmente em regiões frias. A exploração, no entanto, ocorreu de maneira acelerada e sem regras de conservação.
Grupos chegavam à região, caçavam milhares de animais e retornavam ao continente com grandes carregamentos. Com o aumento da oferta, os preços caíam, o que incentivava uma exploração ainda maior.
O resultado foi devastador.
"De 1819 a 1825, praticamente 85% dos animais da Antártica foram exterminados", afirma o professor, ao explicar que a própria dinâmica econômica contribuiu para o colapso da atividade. Depois de alguns anos, os navios já não retornavam com carregamentos suficientes para tornar as viagens lucrativas.
A história dos primeiros caçadores, portanto, não fala apenas sobre o passado da Antártica. Ela também funciona como um alerta sobre a relação entre exploração econômica, recursos naturais e destruição ambiental.
Para ele, entender esse processo é ainda mais importante em um momento em que as discussões sobre mudanças climáticas e aquecimento global colocam a Antártica novamente no centro das preocupações mundiais.
"A história da Antártica funciona como uma espécie de aprendizado para a sociedade e para o mundo", diz.
O continente que pode mudar o mundo
A importância da Antártica ultrapassa, de longe, suas fronteiras de gelo.
O arqueólogo lembra que tudo o que acontece no continente tem impacto sobre o restante do planeta. Mudanças nas temperaturas, no gelo, nos ecossistemas e no clima antártico podem produzir consequências globais.
É justamente por isso que a discussão sobre o aquecimento global torna a região ainda mais estratégica.
A Antártica concentra uma enorme quantidade de água doce congelada e também desperta interesse por seus recursos minerais e energéticos. Ao mesmo tempo, o continente é regulado por acordos internacionais que limitam a exploração econômica e estabelecem regras para a presença humana.
Zarankin destaca que o território é internacional e que a pesquisa científica ocupa um papel central em sua governança. O Tratado Antártico estabelece uma série de regras para a atuação dos países e mantém congeladas as disputas de soberania sobre diferentes áreas do continente.
Mas o futuro da região também envolve disputas geopolíticas e econômicas.
"Tudo o que acontece na Antártica afeta o resto do mundo. Por isso é tão fundamental o clima, os animais, a própria história", afirma.
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A reflexão sobre o passado também permite olhar para os desafios do presente. Para o professor, a história da exploração dos animais no século XIX mostra o que pode acontecer quando recursos naturais aparentemente abundantes são tratados como inesgotáveis.
E essa não é uma preocupação distante para quem vive fora das regiões polares.
Durante a entrevista, o estudioso fez uma comparação com outro cenário extremo do planeta: o Nepal. Para ele, as transformações provocadas pelo aquecimento global não devem ser entendidas apenas como fenômenos locais.
O derretimento das geleiras e as mudanças ambientais em regiões aparentemente distantes afetam populações, sistemas climáticos e ecossistemas de diferentes partes do mundo.
A Antártica, portanto, não pode ser vista apenas como uma paisagem congelada localizada no extremo sul do planeta. O que acontece ali está conectado a processos que atingem o mundo inteiro.
Quem eram os primeiros habitantes?
A pesquisa coordenada pela UFMG começou antes mesmo da criação do laboratório.
Desde meados da década de 1990, Zarankin participa de um projeto voltado para o estudo das primeiras estratégias humanas de ocupação da Antártica. O trabalho ganhou uma dimensão internacional e hoje reúne pesquisadores de instituições do Brasil e de outros países.
O ponto de partida da pesquisa foi uma descoberta feita por geólogos argentinos em uma caverna chamada Lima-Lima. Na época, surgiram hipóteses de que os vestígios encontrados poderiam estar relacionados a náufragos que teriam chegado à região antes das expedições oficialmente reconhecidas.
A investigação arqueológica, no entanto, revelou outra história.
"Encontramos que essa caverna não era de náufragos. Eram parte desses caçadores que eu mencionei antes e que são invisíveis na história", explica o pesquisador.
Esses trabalhadores eram contratados por companhias internacionais e levados até lá. Eles permaneciam em acampamentos durante dias ou semanas, caçando animais, enquanto os navios seguiam para outras áreas ou retornavam depois para buscá-los.
Como muitos desses homens não deixaram registros escritos, a história deles permaneceu à margem das narrativas tradicionais.
Os objetos, no entanto, sobreviveram.
"Como a arqueologia trabalha com a cultura material, com o que podemos chamar de lixo antigo, temos a possibilidade de contar essa história invisível", conta.
Os abrigos dessas pessoas costumavam ser construídos próximos a afloramentos rochosos. Paredes de pedra eram erguidas e cobertas com peles de animais ou lonas. Ossos de baleias também podiam ser utilizados na organização dos espaços.
São detalhes aparentemente pequenos, mas que permitem responder a grandes perguntas: como essas pessoas sobreviveram? O que comiam? Como trabalhavam? Que objetos utilizavam? Como organizavam seus espaços em um ambiente tão extremo?
O frio que preserva a história
Uma das particularidades da arqueologia antártica está nas próprias condições ambientais. O frio extremo faz com que materiais orgânicos que desapareceriam rapidamente em outros lugares sejam preservados por décadas ou até séculos.
É por isso que o acervo reúne uma quantidade importante de materiais orgânicos, como roupas, sapatos, couro e ossos.
Entre os objetos estudados pelo laboratório estão peças de vestuário utilizadas por trabalhadores dos séculos XVIII e XIX. Zarankin destaca que o conjunto de calçados encontrados é especialmente importante para a pesquisa.
No entanto, o clima frio e seco que ajudou a preservar os materiais por centenas de anos é completamente diferente das condições encontradas em Belo Horizonte.
Quando os objetos chegam ao Brasil, passam a exigir protocolos específicos de conservação.
Parte do trabalho é realizada por estudantes e pesquisadores ligados à área de conservação.
Os materiais são analisados, limpos e acondicionados de acordo com suas características.
Objetos menos frágeis podem ser armazenados em caixas resistentes, com materiais que ajudam a protegê-los. Já peças orgânicas, como couro e tecidos, exigem cuidados especiais.
Uma parte importante do acervo é mantida em refrigeradores. A estratégia permite reduzir os processos de deterioração e preservar informações que poderiam ser perdidas caso os materiais permanecessem expostos às condições ambientais comuns.
Da Antártica para uma sala da Fafich
Desde 2009, o Leach funciona na Fafich e se tornou um espaço de pesquisa, formação de estudantes e preservação de materiais arqueológicos.
O laboratório não é um museu e, por isso, não mantém visitas totalmente abertas ao público. Ainda assim, estudantes e pequenos grupos, inclusive de fora da UFMG, podem conhecer o espaço mediante agendamento.
A experiência de visitar o laboratório ajuda a perceber a dimensão concreta de uma pesquisa que, à primeira vista, parece distante da realidade mineira.
Na sala 3070, objetos encontrados na Antártica dividem espaço com equipamentos de conservação e tecnologias utilizadas para registrar, analisar e divulgar os sítios arqueológicos.
O laboratório também possui recursos para estudos tridimensionais.
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Entre eles estão scanners capazes de registrar objetos, estruturas e paisagens em três dimensões.
A tecnologia permite criar modelos digitais de sítios arqueológicos e preservar informações sobre espaços que podem ser alterados ao longo do tempo.
"Você pode escanear a paisagem e reconstruí-la. Depois pode ver isso com óculos 3D ou até em um celular", explica Zarankin.
Os pesquisadores também utilizam impressoras 3D para produzir réplicas de objetos encontrados durante as escavações.
A ideia é preservar as peças originais e, ao mesmo tempo, permitir que outras pessoas possam interagir com cópias dos materiais.
Uma Antártica que pode ser tocada
A divulgação científica é outra frente importante do trabalho desenvolvido pelo laboratório.
A equipe investe no que Zarankin chama de arqueologia pública: a tentativa de levar o conhecimento produzido pela universidade para além dos pesquisadores e especialistas.
Para isso, o grupo tem desenvolvido experiências imersivas e recursos educativos.
Em parceria com iniciativas da UFMG, os pesquisadores criaram um domo sensorial que permite ao público conhecer uma reprodução de um sítio arqueológico antártico.
No espaço, objetos impressos em três dimensões podem ser tocados e explorados. A proposta é oferecer uma experiência diferente da visita tradicional a um museu.
"As crianças não querem apenas ver um objeto atrás de uma vitrine. Elas querem ter a experiência antártica", afirma Zarankin.
O laboratório também trabalha com reconstruções digitais, realidade virtual e jogos.
Com os modelos tridimensionais produzidos a partir dos sítios arqueológicos, uma pessoa pode, por exemplo, colocar um equipamento de realidade virtual e entrar digitalmente em uma caverna pesquisada pelos arqueólogos.
O ambiente virtual permite caminhar pelo espaço e observar objetos e estruturas.
Em alguns projetos, avatares de arqueólogos interagem com o público e explicam os materiais encontrados.
A equipe também desenvolveu, em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), um videogame voltado principalmente para crianças.
O jogo recria aspectos da vida cotidiana dos caçadores que viveram na Antártica no início do século XIX.
Durante a experiência, os jogadores precisam realizar atividades relacionadas à sobrevivência, como acender um fogo e organizar o cotidiano no acampamento.
Depois, a narrativa retorna ao presente e mostra o trabalho das equipes.
A proposta é explicar, de forma interativa, como objetos encontrados séculos depois podem ajudar a reconstruir a vida de pessoas que não deixaram registros escritos.
O jogo em si está em desenvolvimento, mas a primeira parte já foi publicada.
Ciência feita em condições extremas
Chegar aos sítios arqueológicos também é parte do desafio.
Uma viagem pode envolver aviões, navios e helicópteros. Os pesquisadores precisam passar por treinamentos específicos e enfrentar condições ambientais que tornam qualquer atividade mais complexa.
O trabalho de campo pode durar meses.
Em algumas expedições, os pesquisadores passam Natal e Ano-Novo em acampamentos instalados em áreas isoladas.
No continente, o impacto humano é uma preocupação constante. O princípio é simples: aquilo que é levado para o continente precisa voltar.
Além disso, tudo precisa ser planejado. Os acampamentos são organizados com áreas específicas para descanso, alimentação, trabalho e higiene.
A logística, além de complexa, pode ser perigosa. "Se você cai na água, são poucos minutos de vida", relata o professor, ao destacar a necessidade de treinamento e cuidado durante todas as etapas do trabalho.
Apesar das dificuldades, a pesquisa desenvolvida pela UFMG ganhou dimensão internacional.
O projeto envolve instituições e pesquisadores de diferentes países, incluindo universidades europeias e norte-americanas, além de parceiros da Argentina, Chile e outras regiões.
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Para o especialista, a liderança brasileira em uma pesquisa desse tipo também é importante para mostrar a capacidade científica da universidade.