MEDO DE DESABASTECIMENTO

Retirada de água para mineração de lítio acende alerta no Norte de Minas

Concessão para projeto de extração de lítio emitida em maio, somada ao fantasma de secas históricas, mobiliza moradores apreensivos com desabastecimento

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Em um território onde a chuva é habitualmente escassa e a presença da água dita o ritmo do cotidiano, a destinação dos recursos hídricos locais tornou-se o centro de um debate para o futuro do Norte de Minas. A concessão de uma outorga de captação de água formalizada em maio de 2026 para o Projeto Colina Lithium, da mineradora Belo Lithium Mineração (PLS), autorizou a empresa a retirar um grande volume do reservatório da Barragem de Salinas, manancial estratégico projetado para o suporte e abastecimento da população do município.

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A decisão acendeu um sinal de alerta entre os moradores, que acompanham com apreensão o impacto da medida diante do histórico de estiagens severas na região e da atual intensificação do fenômeno El Niño. Para quem nasceu e cresceu no semiárido mineiro, a incerteza hídrica não é um detalhe, mas uma marca profunda na rotina familiar. O engenheiro civil Felipe Oliveira, de 34 anos, recorda a situação crítica enfrentada pelo município há pouco mais de uma década.

“A pior seca que me lembro é a de 2015. É muito triste ver gigantes (da agricultura) pararem de produzir, rios cheios secarem. Em Taiobeiras, que fica a 50 quilômetros de Salinas, eles vieram buscar água aqui, porque não tinha nada lá”, relata o engenheiro, que reside no município desde o nascimento.

A inquietação atual ganha contornos ainda mais dramáticos quando compartilhada entre as gerações mais antigas da cidade. Segundo Felipe, seus pais e vizinhos mais velhos guardam na memória estiagens ainda mais rigorosas registradas em décadas passadas, períodos em que a escassez extrema impôs severas privações à comunidade local.

“As pessoas mais velhas relatam que já tiveram secas horríveis nas décadas de 80”, diz o morador de Salinas, que tem medo de que a situação se repita e que a água esteja sendo disponibilizada às empresas em vez de serem destinadas à população. No entanto, o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) afirma que a outorga concedida à PLS não compromete o abastecimento público da população atendida pelo reservatório.

Em nota, o instituto justificou que a autorização foi concedida somente depois de serem realizadas análises técnicas. Além disso, segundo o Igam, a prioridade do uso da água continuará sendo para abastecimento humano e o fornecimento para animais. “A autorização estabelece mecanismos específicos para proteger a disponibilidade de água, e a empresa também está sujeita a limite rígido de captação”, diz o comunicado.

A PLS Brasil Mineração, por sua vez, informou que realizou os estudos técnicos necessários para avaliar a disponibilidade hídrica e as condições de utilização do recurso, tendo sido aprovados em maio de 2026. De acordo com a mineradora, as pesquisas técnicas foram desenvolvidas com o apoio de especialistas e consideraram “a segurança hídrica, a manutenção dos usos existentes e a preservação das condições necessárias ao abastecimento da população”.

A mineradora também afirma que tem mantido o diálogo com a comunidade e autoridades locais para esclarecer dúvidas sobre o Projeto Colina e que reconhece a importância de tratar o tema com transparência: “A empresa tem conhecimento das preocupações manifestadas por moradores em relação ao tema e considera legítimo que a comunidade busque informações e esclarecimentos sobre um recurso tão importante quanto a água”.

A concessão

Os dados técnicos do processo de licenciamento ambiental e de outorga do empreendimento detalham a dimensão do volume hídrico envolvido. De acordo com documentos, a demanda de água para a fase operacional da planta de processamento e lavra de lítio chega a 150 metros cúbicos por hora (m³/h) – o equivalente a 150 mil litros de água retirados a cada hora do reservatório público. Para viabilizar a captação, o projeto prevê a construção de uma estrutura de adutora com cerca de 23 quilômetros de extensão, conectando a Barragem de Salinas às instalações industriais da mineradora.

A destinação desse montante abrange etapas intensivas do processo produtivo, como o tratamento do minério a úmido na Unidade de Tratamento de Minerais (UTM), responsável pelo consumo de mais de 75 m³/h, controle de poeira e umectação de vias internas (37,2 m³/h) e processo de britagem e manutenção de equipamentos. Segundo o Igam, o volume total autorizado para captar anualmente corresponderá a 1,43% do volume armazenado – 92 bilhões de litros. No entanto, a outorga permite o uso de 1,55% no ano, referente ao volume útil da barragem (de 85 bilhões de litros).

Embora o projeto preveja o reuso de efluentes – resíduos gerados por atividades descartados no meio ambiente – no circuito da planta concentradora, a captação bruta no reservatório público incide sobre uma região que já carrega um histórico de fragilidade e disputa. Sob gestão da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) desde dezembro de 2024, a barragem do rio Salinas desempenha um papel importante para a segurança hídrica regional ao atuar na regularização das vazões do curso d’água.

Atualmente, a represa encontra-se com cerca de 80% de sua capacidade total de armazenamento. A competência legal para a análise e concessão de outorgas, no entanto, não cabe à Copasa. “Em Minas Gerais, cabe exclusivamente ao Igam, na condição de órgão gestor estadual, analisar a disponibilidade hídrica, definir as vazões passíveis de outorga e avaliar a compatibilidade dos pedidos de captação”, disse a companhia.

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Enquanto o projeto minerário avança na zona rural, a população cobra dos órgãos ambientais e das autoridades governamentais a garantia de que o desenvolvimento econômico da região não colocará em risco a segurança hídrica da população. Na próxima segunda-feira (7/9), a população se reunirá em frente ao Mercado Municipal de Salinas, às 7h, para cobrar das autoridades clareza sobre as decisões tomadas.

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