A Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) abriu as inscrições para os alunos que querem morar nas repúblicas vinculadas à instituição, conhecidas como repúblicas federais. A seleção seguirá as novas regras estipuladas em maio deste ano. Os interessados devem preencher um formulário disponibilizado na página da UFOP.

Ao todo, são 66 repúblicas federais vinculadas às UFOP. De acordo com a universidade, não há uma quantidade de vagas fixas. Elas são disponibilizadas e preenchidas gradualmente. Até essa quinta-feira (20/8) foram recebidas 68 manifestações de interesse e todas serão atendidas.

As novas regras de admissão foram construídas de forma conjunta entre a UFOP e o Ministério Público Federal (MPF), e assinado pelas duas entidades em 7 de maio deste ano. Segundo a documentação, a seleção será pautada em critérios objetivos, públicos e previamente definidos, observadas as resoluções do Conselho Universitário da UFOP. O acordo também veda práticas humilhantes, trotes e qualquer conduta que viole a dignidade humana.

Durante a audiência, também foi negociado a quantidade de eventos remunerados permitidos nas moradias estudantis, que passaram de três para cinco por ano. Tais eventos foram considerados uma importante oportunidade para arrecadar recursos para a manutenção dos imóveis históricos ocupados pelos estudantes.

Com as mudanças, a universidade pretende garantir maior transparência nos processos de ingresso e permanência. “Além da melhoria na taxa de ocupação de vagas, as novas regras de admissão têm o objetivo de possibilitar um maior acompanhamento e, consequentemente, a construção de uma relação mais positiva e próxima da Universidade com os/as estudantes moradores/as das repúblicas federais”, afirmou a UFOP por meio de nota. 

O Estado de Minas tentou entrar em contato com a Associação das Repúblicas Federais de Ouro Preto (REFOP) mas, até o momento da publicação desta matéria, não obteve reposta. 

Quais são as novas regras?

Com as mudanças no processo de seleção de estudantes nas repúblicas federais, passa a ser proibida:

  • A utilização de critérios subjetivos ou discriminatórios, bem como de elementos relacionados a afinidade pessoal, participação em festas, submissão a pessoas veteranas ou ex-alunas, ou quaisquer outras exigências incompatíveis com os princípios da dignidade da pessoa humana, da igualdade de oportunidades e das normas institucionais vigentes. 

  • A atribuição de encargos que resultem em sobrecarga de qualquer residente bem como a imposição de atividades com caráter punitivo, vexatório ou discriminatório.  

  • A submissão da pessoa em processo de seleção a situações de constrangimento, humilhação, exposição vexatória, trotes ou quaisquer práticas incompatíveis com os princípios da dignidade da pessoa humana e com as normas institucionais vigentes. 

Como é o processo de seleção?

Todo o processo de seleção será devidamente acompanhado pela Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis (Prace) da UFOP. Inicialmente, as repúblicas federais disponibilizarão informações sobre as casas e vagas, que serão publicizadas pela Prace, junto com o formulário de inscrição. 

Após o recebimento das manifestações de interesse, a equipe da Coordenadoria de Moradias Estudantis da Prace verificará a disponibilidade de vagas e realizará o encaminhamento formal da pessoa interessada para uma república federal que possua vaga disponível. Caso exista vaga na república de preferência indicada pela pessoa estudante, o encaminhamento será realizado prioritariamente para essa unidade.

As orientações detalhadas podem ser acessadas no link: https://prace.ufop.br/assistencia-estudantil/moradia-estudantil/modalidade-de-gestao-compartilhada/como-ingressar 

Excessos nas repúblicas 

O acordo firmado entre a UFOP e O MPMG também veda práticas humilhantes, trotes e qualquer conduta que viole a dignidade humana. A Universidade tem um longo histórico de supostas brincadeiras com os calouros que colocam em risco a saúde física e mental dos alunos. 

Em 2017, o Conselho Universitário (Cuni) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) já havia aprovado uma resolução que proibia os trotes entre alunos da instituição. O documento previa que a UFOP desenvolvesse, em caráter permanente, ações de conscientização e combate ao trote violento.

Entretanto, em 2022 um estudante da Universidade entrou em coma após um “trote” em uma república federal. Na ocasião, ele foi submetido a tomar óleo, cachaça, molho de pimenta e molho shoyu misturados, e baldes com pó de café foram jogados no seu rosto.

“Ele aspirou e se asfixiou com o líquido, teve pneumonia por aspiração e em seguida, o coma alcoólico. Ele já estava pálido e se debatendo quando levaram ele para a UPA”, relatou a mãe.

Os médicos disseram à mãe que encontraram vômito e pó de café no pulmão do estudante. O hospital acionou a Polícia Civil e registrou boletim de ocorrência após identificarem resquícios de lubrificante no seu ânus.

Depois de ter alta do hospital, o estudante precisou de tratamento psiquiátrico contra a depressão adquirida após evento traumático e precisou fazer uso de medicamentos para dormir e para tratar problemas de refluxo agravados pelos molhos ingeridos no trote. 

Em 2012 uma reportagem do Estado de Minas mostrou que era comum que repúblicas, tanto federais quanto privadas, tivessem práticas degradantes como coagir os calouros a beber, a andar nus pelas ruas de Ouro Preto e espalhar peças íntimas em outras repúblicas para que o estudante novato fosse buscar. 

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Naquele ano, dois estudantes, Daniel Macário de Melo Júnior (27) e Pedro Silva Vieira (25) morreram por excesso de consumo de álcool em festas promovidas pelas repúblicas onde moravam. 

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