ARTE URBANA

Festival CURA convida o público para um descanso em meio à correria

Edição de 2026 marca a despedida do Festival da Praça Raul Soares com entrega de duas empenas e dois murais

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Quatro novas obras de arte começam a tomar forma na paisagem de Belo Horizonte. O CURA – Festival de Arte Urbana 2026, que acontece entre os dias 19 e 30 de agosto, encerra um ciclo de seis anos na Praça Raul Soares, no centro da capital Mineira, com duas empenas, assinadas pelos artistas Mônica Nador e Ailton Krenak que começaram a ser pintadas nessa quarta-feira (19/8). 

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Em sua 9ª edição, o CURA convida a população a refletir sobre o tema “Descansar enquanto”. De acordo com os organizadores do evento, a frase tem como objetivo propor o descanso como posicionamento frente a uma sociedade cercada pelo excesso de estímulos e informações. A proposta tem ligação, também, com o livro “Descansar é Resistir”, da norte-americana Tricia Hersey. Para a autora, o descanso é uma recusa ativa às estruturas que operam pela exaustão.

“O tema foi criado para ser um conceito aberto: descansar enquanto você vive, descansar agora, descansar enquanto a vida tá acontecendo. Então, a gente aborda a questão do direito ao descanso. A gente pergunta quem tem o privilégio do descanso na nossa sociedade, quem está sem horas de lazer? Essa é a pergunta que vem por trás desse tema”, explica Priscila Amoni, uma das idealizadoras do festival, que junto a Janaína Macruz está à frente do Instituto CURA.

Para esta edição, Priscila Amoni, Janaína Macruz e a curadora convidada Luciara Ribeiro, pesquisadora dedicada às artes africanas, afro-brasileiras e indígenas, realizaram o sonho antigo de ter a assinatura de Krenak em uma das obras que circulam a Praça Raul Soares. 

“Buscamos artistas que pensam e sentem um Brasil profundo. É uma busca por ancestralidade, pela sabedoria dos mais velhos. O Ailton já era um sonho antigo, e o pensamento dele, que fala em adiar o fim do mundo, traz o cerne da reflexão sobre o descanso”, diz Priscila.

Aos 72 anos,  Ailton Krenak, o primeiro indígena na Academia Brasileira de Letras, estreia na pintura de empena. Jornalista, escritor e filósofo, ajudou a inscrever os direitos dos povos indígenas na Constituição de 1988 e se tornou uma das principais vozes pela justiça socioambiental no país. “É impactante pensar no desenho nessa escala de prédio, que vira paisagem. Tem um chamado para a subjetividade, para a poesia, para o sonho”, afirma Krenak sobre o convite.

Já a artista belo-horizontina Rafaela Ianni assina uma obra no muro do caracol do parquinho infantil do Edifício JK. No limiar entre pintura, colagem e assemblagem ela trabalha com acrílica e papel de seda, montando composições de cores intensas e formas geométricas.

"Fiquei honrada com o convite, ainda mais por se tratar do Edifício JK. Ao compor o trabalho, pensei em respeitar o espaço e o projeto do prédio, a partir da pesquisa que venho desenvolvendo", diz Ianni..

Cura por meio da arte

Aos 71 anos, a artista paulista Mônica Nador começa a realizar o sonho de ter sua obra exposta em uma empena. Por conta de burocracias e outros empecilhos, nunca conseguiu levar uma pintura adiante na lateral de um prédio em São Paulo. Esta será a sua maior pintura em escala da carreira. 

Mônica se inspirou no céu noturno para compor a paisagem urbana. “Tem uma coisa da contemplação também, da ideia de fazer uma coisa bonita e que também tem a ver com o próprio tema. Eu sou favorável à beleza pura e gosto de usar essa ideia no meu trabalho: algo que te encanta em meio a vida cotidiana e você fala ‘Oh’. Isso conecta a gente com outros patamares da percepção humana”, explica a artista.

Ela conta que sua afeição pela natureza surgiu na década de 90, quando precisava pegar um trem para sair de São Paulo e  ir trabalhar em Franco da Rocha , a cerca de 40km de distância. Enquanto estava no vagão apinhado de pessoas, ela se encantou por uma paisagem na janela. 

“Era um campo verdinho, uma arvorezinha e um monte de flor vermelha sob um céu bem azul. Isso me tirou daquele instante de aflição e percebi naquele momento que a beleza tinha esse poder”, relembra.

A partir de então, dedica-se a transmitir essa sensação por meio de suas obras. Para Mônica, a arte, assim como a beleza pura, tem três níveis: balsâmico, didático e curativo: “a arte tem essa função, e deveria ser acessível a todo mundo e eu sou uma pessoa que tenta preservar a beleza e as essas coisas decorrentes dela”.

Despedida da Praça Raul Soares

Ao longo de seis anos, o Cura se dedicou-se a criar um mirante circular com 16 obras em vários dos prédios que cercam a Praça Raul Soares. Ali, as idealizadoras do festival puderam acompanhar as mudanças e fazer parte da revitalização da região. 

“A gente assistiu o JK voltando a se abrir para a cidade conforme foi o projeto do Niemeyer. A gente assistiu vários bares chegando ali novos. Quando o Cura chega ali, ele traz luz e se junta aos movimentos que já existem ali, como o Viva JK”, diz Priscila Amoni. 

Amoni conta que agora o Cura se prepara para ocupar e levar arte a outras partes de Belo Horizonte. “Estamos satisfeitas de entregar isso para a cidade e em poder ir para outro território, poder passear mais pela cidade. O Cura é muito mais do que um evento, ele deixa um legado”, afirma. 

Construção coletiva

Amoni explica que esta é a primeira vez que o conceito curatorial foi construído coletivamente. A Comissão Criativa foi composta por pessoas que vivem e pesquisam Belo Horizonte e a arte urbana, como artistas, coletivos e agentes culturais. Segundo a idealizadora, a escolha do tema foi uma unanimidade e dialoga diretamente com outras edições que falam sobre comunidade. 

Binho Barreto, artista e pesquisador que fez parte da Comissão Criativa, aponta que este cansaço generalizado está intimamente ligado às redes sociais e é agravado pela Inteligência Artificial. “O tempo do descanso surgiu da necessidade de ter lacunas e espaços de respiro até para gente conseguir se sentir e perceber o que é importante para nós. Sair do que me parece um pouco de automatismo e desse ritmo frenético que nos é imposto como sociedade, mas, ao mesmo tempo, a gente não consegue parar por completo”, reflete. 

Barreto interpreta que tal ritmo frenético tem impacto no ambiente ao nosso redor por ser imposto também à natureza, em uma lógica de exploração dos recursos ditada pela necessidade imediata mas que não se sustenta. 

“O planeta não está aguentando, e aí vem o colapso ambiental e a emergência climática, que são formas também da gente ler essa necessidade de ‘descansar enquanto’ a própria natureza possa se curar dos males que a humanidade tem feito a ela. Então, esse ‘descansar’ vai no micro, no cotidiano de cada um de nós, e no macro, que é o planeta”, declara.

Arte cotidiana

Além de participar da Comissão Criativa, Barreto lançará um livro durante a programação e também assina a pintura da fachada do Sesc Palladium, na rua Rio de Janeiro. A obra faz referência ao antigo Cine Palladium, que funcionou no edifício. A ideia é representar o público saindo de uma sessão e um detalhe do letreiro retoma a fachada do antigo cinema.

Com uma longa trajetória na arte, Barreto é professor na Escola de Belas Artes da UFMG, doutor em Arquitetura e Urbanismo e fez trabalhos em festivais de arte mural no Brasil e no mundo. Em sua obra, ele trabalha a sociedade e o espaço de um ponto de vista existencial. Para ele, há magia em olhar uma cena e falar que ela é única. Mais que uma homenagem ao cinema de rua, o mural é uma homenagem aos lugares de cultura onde as pessoas se encontram presencialmente.

“Isso é um ponto de interseção muito forte entre a minha poética, o modo como eu penso meu trabalho artístico e o modo como esta edição do CURA está se dando. Esse tempo de respiro que permite com que a gente se escute, é muito transformador porque faz com que a gente possa ter escolhas”.

“O meu trabalho artístico é muito influenciado pela vida cotidiana e, de certa forma, é importante pensar nesses murais mais baixos. Eles estão mais perto da escala humana. Embora as empenas sejam super importantes e têm um impacto muito grande, esse trabalho que está perto é como um encontro corpo a corpo”, afirma. 

O mural terá cerca de 10m de comprimento por 3m de altura e será pintado nesta quinta-feira (20/8) entre 16h e 22h. Quem passar pela Rua Rio de Janeiro poderá acompanhar a evolução da obra em tempo real. 

A pintura faz parte da comemoração de 15 anos do Sesc Palladium e do CURA Palladium: Tinta, Corpo e Cidade. À noite a celebração conta com uma programação que reúne pintura, dança e a cultura ballroom, ao lado da House of Barracuda. 

Programação 

A partir de 26 de agosto, a programação aberta toma conta da praça. Nos dias 26 e 27, das 11h às 22h, o festival leva pela primeira vez a pintura ao vivo para a Raul Soares com seis artistas: Tina Soul, Effe Godoy, Nica, Dalata, Tot e Fhero. A programação musical se estende pelos dias na praça, com DJs no gramado. 

No dia 27, a Mesa de Desenho faz um encontro na praça, das 19h às 21h. A participação é aberta e gratuita, sem exigência de experiência ou formação. De 28 a 30, funciona o Mirante CURA, uma instalação com vista da praça no fim do dia.

Pelo terceiro ano, o highline cruza o vão entre os prédios do hipercentro, com atletas em cabos suspensos e, nos dias 29 e 30, a Rua de Lazer recebe crianças e famílias com jogos e brincadeiras, em parceria com a Prefeitura.

Ao longo da programação, as visitas guiadas ao Edifício JK, em parceria com o Viva JK, sobem ao topo do prédio, de onde se avistam as obras do CURA espalhadas pela cidade. O percurso passa pela arquitetura, pelos espaços de convivência e pelos vãos livres. As sessões acontecem nos dias 27, 28, 29 e 30 de agosto, às 16h30 com entrada gratuita

"O JK já funcionava como mirante informal para obras deixadas pelo festival. Agora, passa a integrar de forma oficial o circuito dessas obras e a experiência do CURA, o que reforça um objetivo antigo, o de ser um patrimônio vivo", afirma o Viva JK.

SERVIÇO

CURA 2026 – Festival de Arte Urbana

19 a 30 de agosto | Praça Raul Soares, Belo Horizonte

Pinturas das empenas

Dia: a partir de 19/08

CURA Palladium

Pintura do Binho Barreto e programação da House of Barracuda

Local: Sesc Palladium 

Dia: 20/08

Live painting 

Dias: 26 e 27/08

Local: Praça Raul Soares

Visitas guiadas ao Edifício JK, com o projeto Viva JK

Datas: 27, 28, 29 e 30 de agosto

Horário: 16h30

Gratuitas. Senhas por ordem de chegada, 30 minutos antes de cada sessão

Classificação: livre

Pintura de Rafaela Ianni no muro do caracol do Edifício JK

Período: 19 a 30 de agosto

A parte externa fica aberta à visitação, e o público acompanha a execução da obra

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Mais informações: @cura.art

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