Há 73 anos, Belo Horizonte sedia uma das mais tradicionais manifestações das religiões de matriz africana no estado. Realizada anualmente desde 1953, a Festa de Iemanjá reúne neste sábado (15/8) cerca de 60 a 70 terreiros de Umbanda e Candomblé, com carreata, tambores, cantos, oferendas e homenagens à orixá na Pampulha. Reconhecida como Patrimônio Cultural de Belo Horizonte em 2019, a celebração deve receber um público rotativo de pelo menos 5 mil pessoas, segundo a organização.
A programação é organizada pela Casa de Caridade Pai Jacob do Oriente (CCPJO), em parceria com a Reunião Umbandista Mineira (RUM) e o Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-brasileira (CENARAB). A concentração começa às 14h, na Rua Aarão Reis, entre as ruas Guaicurus e o Viaduto da Floresta, atrás do Centro de Referência da Juventude (CRJ). Às 16h30, os participantes seguem em carreata até a Praça de Iemanjá, na Pampulha.
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Para Pai Ricardo de Moura, coordenador da CCPJO, a permanência da festa ao longo de mais de sete décadas mostra a força de uma tradição que preserva elementos deixados pelas gerações anteriores. Segundo ele, apesar das mudanças políticas, territoriais e nas formas de ocupação do espaço público, a essência da celebração permanece.
“É uma celebração que continua mantendo a sua essência com os nossos e as nossas mais velhas”, afirma. Ele destaca que a carreata, os tambores, os cantos, as cores dos terreiros e a entrega de oferendas a Iemanjá fazem parte da tradição mantida ao longo dos anos.
Iemanjá é uma das divindades mais cultuadas no Brasil. De origem africana, seu culto foi trazido para as Américas pelos povos negros escravizados e ganhou diferentes formas de expressão no país, especialmente nas religiões de matriz africana. O nome de origem iorubá, “Yèyéomoejá”, é associado ao significado de “mãe cujos filhos são peixes”.
No Brasil, a orixá também é conhecida por nomes como Janaína, Rainha do Mar, Sereia do Mar, Senhora do Aiocá e Inaê. Associada ao arquétipo da Grande Mãe, Iemanjá é reverenciada em diferentes regiões do país e seu culto não se restringe às áreas litorâneas.
Em Belo Horizonte, a festa ganhou significado também pela ocupação de um espaço que não havia sido planejado originalmente para manifestações do sagrado de matriz africana. A celebração ocorre nas proximidades da Praça Dalva Simão, no Conjunto Moderno da Pampulha, e revela a presença histórica de comunidades de Umbanda e Candomblé na cidade.
A Festa de Iemanjá foi reconhecida em outubro de 2019 pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município, por meio da deliberação nº 086/2019. O registro reconheceu a celebração como patrimônio imaterial da capital, ao lado da Festa dos Pretos Velhos.
A permanência da manifestação também deixou marcas físicas na Pampulha. Em 1982, foi instalada a imagem de Iemanjá às margens da lagoa. Em 2007, o local recebeu o Portal da Memória, obra do artista Jorge dos Anjos. A estátua foi restaurada em 2017.
Pai Ricardo considera a ocupação do espaço público uma dimensão importante da festa. “A presença dos povos de matriz africana, os povos de terreiro e os povos de Umbanda celebrando Iemanjá na Pampulha é um ato político, sagrado, em espaço sagrado”, afirma.
Homenagem a fundador
A 73ª edição também será marcada pela homenagem a Tat’etu Nepanji, Nelson Matheus Nogueira, um dos fundadores da Festa de Iemanjá. Ele morreu em 6 de junho deste ano e, segundo Pai Ricardo, teve papel importante na história da celebração e na organização dos povos de terreiro em Minas Gerais.
“Foi um homem extremamente importante para a festa e para a cena de luta e resistência da tradição”, afirma. Segundo ele, Nelson Matheus Nogueira também contribuiu para a instalação da estátua de Iemanjá e para a criação de espaços de memória e celebração das religiões de matriz africana na capital.
A homenagem será incorporada à programação deste sábado. “ele é uma referência para nós de luta, de pensar, de estratégia, de pensar politicamente a nossa vida em espaço público e proteção em terreiro também”, diz Pai Ricardo.
Enfrentamento à intolerância religiosa
Além da celebração religiosa, a festa é apresentada pela organização como um momento de resistência diante dos casos de intolerância e racismo religioso.
Pai Ricardo afirma que os ataques contra terreiros e praticantes de religiões de matriz africana continuam sendo um desafio em Belo Horizonte. “A violência religiosa, o crime de racismo religioso, ele vem se perpetuando”, afirma.
Segundo ele, entre as iniciativas defendidas pelos povos de terreiro estão ações de educação antirracista nas escolas, capacitação de servidores públicos e medidas de proteção aos espaços religiosos. O coordenador também cita episódios de ataques a terreiros e agressões contra praticantes.
Para ele, a realização da festa na Pampulha contribui para dar visibilidade à presença desses grupos na cidade. “Essa carreata vem para falar disso: que nessa terra tem povo preto, povo de terreiro, povo afro-brasileiro, descendentes de uma diáspora aqui, que contribuem para a identidade dessa cidade”, afirma.
Carreata
A carreata que integra a programação deste ano foi retomada pela organização após períodos em que deixou de ser realizada. De acordo com Pai Ricardo, a tradição permaneceu durante décadas e tem como objetivo também tornar pública a presença dos povos de terreiro na capital.
Ele afirma que a manifestação também movimenta setores da economia ligados às celebrações de matriz africana, como comércio de tecidos, flores e alimentos utilizados nas festividades.
“A carreata é uma carreata que nos fornece a condição de ter visibilidade e de falar de novo o posicionamento e a existência de um povo e de uma ação de um povo que acontece na cidade”, explica.
A programação também terá uma ação de arrecadação de alimentos e fraldas descartáveis infantis ou geriátricas. Os produtos serão destinados a instituições de caridade, como asilos e creches, além de comunidades em situação de vulnerabilidade.
Quem fizer uma doação receberá um Ojá, indumentária utilizada na tradição afro-brasileira para proteção do ori, a cabeça, associado ao destino e à intuição.
Segundo Pai Ricardo, ações de solidariedade são realizadas pela organização também em outras celebrações públicas. “O mesmo movimento que a gente faz dentro da nossa casa, a gente faz em espaço público também”, afirma.
A carreata chega à Praça de Iemanjá por volta das 17h30. Às 19h, começa a Concentração dos Terreiros. A solenidade de abertura está prevista para as 19h30, com a consagração dos barcos e a entrega de flores e presentes para Iemanjá. Às 20h, os terreiros iniciam seus trabalhos.
Para Pai Ricardo, a expectativa é de uma celebração marcada pela fé, acolhimento e resistência. “Pode esperar sempre muito axé. Todo mundo que entrar vai passar por lá e vai sair melhor”, afirma.
Serviço
Festa de Iemanjá – Belo Horizonte
Data: 15 de agosto, sábado
Programação:
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14h: concentração na Rua Aarão Reis, entre Guaicurus e Viaduto da Floresta, atrás do CRJ;
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16h30: saída da carreata em direção à Praça de Iemanjá, na Pampulha;
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17h30: chegada da carreata;
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19h: concentração dos terreiros;
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19h30: solenidade de abertura, com consagração dos barcos e entrega de flores e presentes para Iemanjá;
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20h: início dos trabalhos de cada terreiro.
