Queda de árvore de grande porte, na Rua Sergipe esquina de Av. Cristóvão Colombo, na Savassi

Gladyston Rodrigues/EM/DA.Press

Ou seja: encontrar o besouro dentro de uma árvore não significa necessariamente que ele tenha sido o responsável por matá-la.

"Então, o primeiro mito é que ele mata a árvore", afirma o coordenador. Segundo ele, árvores que já apresentam madeira morta ou algum tipo de doença tendem a ser mais atraentes para as fêmeas, que procuram esses locais para depositar os ovos. A espécie pode utilizar árvores sadias, mas isso seria menos comum.

Uma vida escondida dentro do tronco

O ciclo de vida do besouro ajuda a explicar por que ele pode ser encontrado dentro de uma árvore sem necessariamente estar “morando” ali durante toda a vida. O desenvolvimento passa por diferentes fases. Primeiro vem a larva, depois a pupa e, finalmente, o adulto.

É justamente a fase larval que acontece dentro da madeira. A larva se alimenta e cresce protegida no interior do tronco. Em seguida, passa pelo estágio de pupa, até emergir como um besouro adulto. Quando adulto, deixa a árvore, voa, visita flores e procura parceiros para reprodução.

Queda de árvore de grande porte, na Rua Sergipe esquina de Av. Cristóvão Colombo, na Savassi

Gladyston Rodrigues/EM/DA.Press

Por isso, os exemplares encontrados na árvore que caiu na Rua Sergipe podem ter sido surpreendidos justamente no fim desse ciclo. Paprocki explica que, se adultos foram encontrados no interior do tronco, é possível que eles tenham completado a transformação ali antes de deixar a madeira.

"Eles não vivem dentro da árvore, quem vive dentro da árvore são as larvas", resume.

É uma diferença importante para quem olha para uma árvore oca e imagina imediatamente que o besouro foi o responsável pelo problema. A presença do inseto pode ser, na realidade, uma pista de que algo já vinha acontecendo com aquela árvore.

A cidade também é um ecossistema

Para Paprocki, existe uma ideia muito comum de que natureza e cidade são coisas separadas. De um lado, estariam as florestas, os animais, as plantas e os processos naturais. Do outro, os prédios, carros, ruas, calçadas e pessoas. Só que, na prática, a cidade também abriga uma enorme variedade de seres vivos.

"É importante pensar que a cidade é um ecossistema também", afirma.

Nesse ambiente, árvores não estão isoladas. Elas convivem com insetos, fungos, aves, micro-organismos e outras plantas. Alguns desses organismos ajudam na decomposição da matéria orgânica; outros se alimentam de plantas; alguns são predadores; outros são parasitas. É justamente essa rede de relações que forma uma cadeia ecológica.

"Aquela nossa ideia antiga que a gente tem que se livrar de tudo a não ser aquela árvore que a gente quer já não é mais a ideia que ambientalistas, biólogos e ecólogos têm", explica o coordenador.

"Ele tem que ser encarado como uma espécie linda, que habita as nossas cidades, que nos dão satisfação quando a gente vê em algum lugar", diz.

A aparência do Euchroma gigantea ajuda a explicar por que ele chama tanta atenção. O corpo pode apresentar cores metálicas e iridescentes, fazendo com que o inseto pareça quase uma peça de joalheria ambulante. Não por acaso, ganhou nomes como besouro-metálico e besouro-joia-gigante.

E talvez seja justamente essa beleza que o professor defende que seja recuperada no imaginário popular. "Ele tem que ser encarado como uma espécie linda, que habita as nossas cidades, que nos dão satisfação quando a gente vê em algum lugar", diz.

Queda de árvore de grande porte, na Rua Sergipe esquina de Av. Cristóvão Colombo, na Savassi

Gladyston Rodrigues/EM/DA.Press

O passado de uma "praga" em BH

O besouro-metálico não é exatamente um desconhecido para os técnicos responsáveis pela arborização da capital. O primeiro relato técnico da espécie em BH ocorreu em 2013. Anos depois, a presença do inseto passou a ser associada a danos em árvores, especialmente mungubas e paineiras.

A situação ganhou proporções maiores a partir de 2016. Na época, árvores de grande porte começaram a apresentar sinais de enfraquecimento e algumas chegaram a cair sem que houvesse necessariamente uma tempestade ou ventos fortes. O fenômeno levou a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) a intensificar as vistorias e o monitoramento de árvores.

Em 2017, a dimensão do problema chamou ainda mais atenção. A prefeitura chegou a monitorar cerca de 1.800 árvores que poderiam estar vulneráveis, enquanto exemplares infestados eram retirados por causa do risco de queda sobre pessoas, veículos e imóveis.

O próprio poder público passou a estudar o ciclo do inseto para encontrar formas de controlar os danos. Em 2018, a prefeitura informou que havia realizado mais de 3 mil vistorias em árvores das espécies mais afetadas e que mais de 500 árvores haviam sido suprimidas em 2017. Anos depois, pesquisas continuaram em busca de alternativas de manejo e controle.

Em 2023, a Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica informou que vinha avaliando tratamentos aplicados diretamente em árvores infestadas. O objetivo era reduzir os danos provocados pelo inseto e, ao mesmo tempo, preservar as árvores sempre que possível.

Esse histórico explica por que a palavra “praga” ficou tão associada ao Euchroma gigantea na capital. Afinal, houve um período em que a presença do inseto realmente representou um desafio para a arborização urbana e para a segurança da população.

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Mas Paprocki propõe uma distinção: controlar o risco representado por uma árvore não é o mesmo que declarar guerra ao animal. (Com informações de Izabella Caixeta)

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