Ainda com o companheiro bem vivo na memória, Liliane França criou projeto de apoio aos garis: "É um ano que a gente está na luta"
O ponto de partida do reencontro com as memórias de Laudemir é o mesmo cenário onde a rotina do casal se entrelaçava, e onde Liliane recebeu a reportagem do Estado de Minas na véspera de completar um ano do crime. Lau, como era carinhosamente chamado, costumava descer do transporte público após o expediente e caminhar até o local de trabalho da companheira para saber se ela precisava de algo, se já havia se alimentado ou queria alguma ajuda. "É uma imagem meio doída, porque vai fazer um ano e, para mim, parece que não. Ainda espero ele voltar para casa", disse ela.
Lau e Liliane vinham de relacionamentos anteriores e planejavam uma nova vida juntos. O pacto entre eles era simples e direto: "Eu cuido de você, você cuida de mim". Tinham o sonho de sair do imóvel cedido por familiares, comprar casa própria e oficializar a união com uma festa de casamento. Com a tragédia, os planos foram interrompidos abruptamente, mas as marcas no cotidiano permanecem vivas.
Na residência do casal, as roupas e os uniformes de trabalho de Laudemir continuam organizadas e exatamente como ele os deixou. "Esses dias me peguei no supermercado olhando a marca de sabão em pó que a gente comprava para ele...Falei: 'Não, não vai precisar levar'. Essa rotina a gente ainda não conseguiu mudar. É como se ele estivesse presente nas nossas vidas", relatou Liliane.
A perda de Laudemir alterou profundamente a dinâmica familiar. Liliane conta que o companheiro era a pessoa com quem tomava todas as decisões. De compromissos importantes até a organização do fimde semana com os filhos. "De repente, eu me vejo fazendo novos sonhos e projetos com pessoas totalmente diferentes. Tem hora que me pego tentando saber a opinião do Lau. Quando quero falar sobre o pessoal da limpeza urbana, por exemplo, pergunto para quem? Olho para as fotos dele em casa e pergunto: 'E aí amor, o que você acha?'. Aí caio na real e lembro que ele não existe mais", lamentou. O apoio emocional de amigos e a fé em Deus têm sido os principais pilares para mantê-la de pé. "A gente tem que, todo dia, se refazer", afirmou.
APREENSÃO CONTÍNUA
Um ano depois do episódio que tirou a vida do trabalhador, a família vive a expectativa da responsabilização legal. Renê permanece recolhido preventivamente na unidade prisional após ter pedidos de habeas corpus indeferidos pelas instâncias superiores. Entretanto, ainda não há data definida para a realização do julgamento perante o Tribunal do Júri.
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Para os familiares, a ausência de uma sentença gera apreensão contínua. "O Renê continua preso, os habeas corpus foram negados, mas eu gostaria muito de ter algo que desse mais conforto, que é a sentença dele. Sinto que ele pode sair a qualquer momento de onde está hoje. O Renê é um cara que se julga melhor do que nós. Para ele, matar mais um pai de família tanto faz. Se a Justiça der a ele o benefício de viver entre nós novamente, acredito que mais uma família vai chorar", disse a viúva.
Apesar do desgaste e da espera por movimentações judiciais, Liliane apoia-se na rede de solidariedade construída por amigos para manter a rotina e os compromissos diários. Para ela, o desfecho do processo criminal representa a garantia de que a perda de Laudemir não se transformará apenas em mais um número nas estatísticas. "É um ano que a gente está na luta, buscando, e com esperança de que a justiça seja feita. A gente vai esperar o tempo que for preciso", concluiu.
LUTAS PELA CATEGORIA
Ao mesmo tempo que luta por justiça, a mulher decidiu desenvolver um projeto para ajudar outros garis. Além do companheiro, um irmão e primos de Liliane também já exerceram a função, muitas vezes invisibilizada pela população. Foi assim que nasceu o projeto Casa do Gari – Alegria de Viver. A ideia é oferecer atendimento gratuito em diversas áreas em uma casa alugada em Contagem, na Grande BH.
Psicólogos, advogados e dentistas trabalham de forma voluntária no projeto para atender garis e seus familiares. A viúva, porém, pretende que o projeto se torne itinerante. A ideia é ter uma van que circule por várias regiões da Grande BH.
Liliane lançou também sua candidatura a deputada federal pelo PDT. Ela vai usar nas urnas o nome Lili do Gari. “Eu sei que tem muitas coisas que não chegam até eles. E uma das coisas é a valorização deles mesmos. É só sendo política que você pode conseguir. Tudo vem da política. Os garis não têm um piso salarial, tem uma proposta parada no Senado (Projeto de Lei Lei 4.146/2020). Se não tem como aprovar, o que pode ser feito para eles? Porque eles existem, eles são essenciais”, afirmou. Ela acrescentou que, "mais do que um partido político ou cargo", sua candidatura tem o "compromisso de ouvir e trabalhar por aqueles que muitas vezes não têm voz".
NOVA DEFESA
Na sexta-feira (7/8), Renê anunciou nas redes sociais que é administrada por sua assessoria o encerramento do contrato com o advogado Bruno Silva Rodrigues, do escritório Bruno Rodrigues Advogados. Ele havia sido contratado em 18 de setembro de 2025, na terceira mudança de defesa do réu. No dia seguinte (8/8), a nova defesa foi divulgada, sendo o advogado Bruno Correa, do escritório Lima e Silva, Correa e Resende Neves Sociedade de Advogados, o atual responsável pelas demandas cíveis e criminais em curso. O novo responsável confirmou a contratação e prometeu fazer anúncios à imprensa nesta semana para repassar informações complementares.
Ontem, uma ação de cobrança de honorários contratuais ajuizada no estado do Rio de Janeiro expôs o rompimento do vínculo profissional entre o escritório de advocacia e o empresário. Segundo o documento a que o Estado de Minas teve acesso, a banca cobra do ex-cliente R$ 240 mil, referentes aos serviços de defesa prestados no processo criminal.
Renê responde a uma Ação Penal que tramita no Tribunal do Júri da Comarca de Belo Horizonte. Ele é acusado pelos crimes de homicídio triplamente qualificado, fraude processual, porte ilegal de arma de fogo e ameaça no episódio do assassinato do gari Laudemir. Atualmente, o empresário encontra-se preso no Presídio de Caeté, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, segundo a Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), que não informou sobre a situação ou comportamento do réu na unidade.
De acordo com o relatório de atividades apresentado pelos advogados no processo de cobrança, a defesa técnica anterior atuou na causa mediante a elaboração de diversas peças, recursos e acompanhamento presencial. Entre os resultados obtidos no curso da ação penal, a banca destaca o deferimento de pedidos para que o réu pudesse prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e cursar faculdade remota a partir do estabelecimento prisional. Além disso, os defensores obtiveram uma decisão favorável no Superior Tribunal de Justiça (STJ) decretando a nulidade de um acórdão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) e conseguiram afastar a qualificadora de perigo comum na sentença de pronúncia do Juízo da 1ª Vara do Júri de BH.
O contrato de prestação de serviços firmado entre as partes estabelecia uma remuneração mista. A parcela fixa previa o pagamento de uma entrada de R$ 10 mil, acrescida de 38 parcelas mensais de R$ 5 mil. O documento previa também honorários de êxito atrelados ao sucesso de teses jurídicas específicas no decorrer da ação.
A controvérsia entre as partes teve início em 31 de julho, data em que o cliente enviou uma notificação extrajudicial por e-mail comunicando a rescisão unilateral do contrato e revogando formalmente a procuração dos advogados. O escritório de Bruno Rodrigues argumenta que a revogação ocorreu de forma imotivada após a execução do trabalho técnico e sem que o contratante honrasse com os pagamentos ajustados.
Diante do impasse, o escritório ingressou com a ação judicial pleiteando a condenação do réu ao pagamento dos R$ 240 mil. A quantia é composta pelos R$ 200 mil relativos à carga honorária fixa e R$ 40 mil referentes à cláusula de êxito pelo afastamento da qualificadora do crime de homicídio. A banca requereu o julgamento antecipado parcial do mérito para a execução das quantias consideradas incontroversas e, de forma subsidiária, o arbitramento judicial dos honorários proporcionais aos serviços prestados. A reportagem procurou o advogado responsável pela ação de cobrança e a defesa do empresário, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição
DELEGADA DE LICENÇA
A delegada Ana Paula Lamego Balbino, esposa do empresário, pode completar um ano de licença médica. A servidora da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) está afastada para tratamento de saúde desde 13 de agosto de 2025, dois dias depois do homicídio ocorrido no dia 11 do mesmo mês. O afastamento foi confirmado ao Estado de Minas pela defesa da delegada. A última renovação passou a vigorar em 9 de junho, com validade até domingo passado (9/8). No entanto, o advogado que representa a delegada, Leonardo Avelar Guimarães, informou que foi solicitada a prorrogação novamente. Segundo ele, ainda não há decisão oficial da PC sobre o pedido. Caso não retorne ao trabalho, a delegada completará, em 13 de agosto, um ano ausente da corporação.
A defesa ainda informou em nota: "Quanto à saúde, a Dra. Ana Paula encontra-se afastada em razão de licenças médicas sucessivamente concedidas e renovadas por junta médica oficial da própria administração pública. Não se trata de afastamento voluntário nem de expediente processual relacionado à sua defesa técnica; cada prorrogação decorreu de perícia realizada por médicos do Estado, que atestaram a permanência do quadro incapacitante". O diagnóstico de saúde não é público, por determinação legal. "O que se pode afirmar é que subsiste a incapacidade para o exercício das atribuições específicas do cargo policial, que envolvem porte de arma, decisão sob pressão e atendimento direto a vítimas de violência", esclareceu.
Procurada pela reportagem, a Polícia Civil se limitou a informar que a licença para tratamento de saúde de servidores ocorre regularmente, conforme previsão legal e mediante avaliação médica competente, observados os procedimentos administrativos aplicáveis.
Processo administrativo
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A delegada Ana Paula Lamego foi indiciada pela Corregedoria da Polícia Civil por prevaricação, por ter entregado sua arma profissional, em momentos anteriores ao crime, ao marido, Renê Nogueira Júnior, acusado de matar o gari Laudemir Fernandes. Ela também foi indiciada por porte ilegal de arma de fogo, no entendimento da Lei de Desarmamento por ter cedido ou emprestado sua pistola de uso pessoal para o companheiro. Questionada ontem (10/8), a corporação confirmou a existência do processo administrativo disciplinar para apuração de eventual prática de transgressão disciplinar que está em tramitação pela Corregedoria-Geral. As investigações mostraram ainda que a servidora do governo de Minas Gerais tinha ciência de que Renê usava sua pistola de uso pessoal.
