Aniversário

Barreiro Tour: "O Barreiro é a capital de BH ", diz produtor do passeio

Roteiro turístico criado para aniversário da região aposta em memória e pertencimento para mostrar que Belo Horizonte vai além dos bairros mais conhecidos

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O Barreiro completa 171 anos nesta segunda-feira (3/8) com uma proposta que vai além das comemorações tradicionais. A programação organizada pelo Espaço Cultural Quinta Arte inclui shows, teatro, gastronomia, eventos esportivos e culturais, mas tem no passeio turístico pela região o principal símbolo de uma ideia defendida pelos organizadores: a de que a história de Belo Horizonte não se concentra na Região Centro-Sul.

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Realizado nos quatro primeiros sábados de agosto, o passeio turístico leva moradores de outras regiões da capital e da Região Metropolitana para conhecer pontos históricos, culturais e ecológicos do Barreiro.

O roteiro inclui o Santuário São Paulo da Cruz, o Parque das Águas, a Praça do Cristo Redentor, o Viaduto das Artes e o Espaço Cultural Quinta Arte, com acompanhamento de historiadores e contadores de histórias da própria região. A proposta é apresentar um território que, apesar de ser mais antigo que Belo Horizonte, ainda é pouco conhecido por muitos belo-horizontinos.

Descentralizar a memória

Para o produtor cultural Mauro Satter, responsável pelo projeto, o tour nasceu da percepção de que a capital costuma valorizar sempre os mesmos espaços quando fala de sua história, cultura e turismo.

"A história de BH não pode ficar centralizada. A gente está fazendo um trabalho para descentralizar, para mostrar que BH é muito maior do que os poucos espaços que as pessoas conhecem hoje, principalmente a área Centro-Sul", explica.

Segundo ele, o objetivo não é apenas contar fatos históricos, mas também atrair pessoas de fora do Barreiro para conhecer artistas, bares, restaurantes, espaços culturais e a dinâmica econômica da região.

"Queremos fortalecer a cultura local, apresentando nossos artistas, bares, gastronomia e espaços culturais. É um projeto artístico, cultural e também turístico", diz Satter. 

A ideia de descentralização aparece como o eixo central: o Barreiro não quer ser visto apenas como uma regional distante do Centro, mas como uma parte fundamental da formação e do desenvolvimento de Belo Horizonte.

Álvaro Castro, comunicador, influenciador local e produtor do City Tour complementa: "Barreiro é a capital de Belo Horizonte, e a gente consegue ver isso no dia a dia. Quem mora no Barreiro não precisa sair do Barreiro para nada, para comprar nada, para procurar nada. Tudo que a gente precisa a gente acha aqui e o resto a gente corre atrás."

E o City Tour foi pensado justamente para aproximar essa história de quem nunca circulou pelos pontos considerados simbólicos do Barreiro. Castro afirma que a reação dos visitantes é o que mais chama atenção.

"É bem importante esse turismo na própria cidade, eu acho que cada vez mais isso tem que ser fomentado. E é também um reconhecimento do nosso Estado e da nossa cidade", comenta Carla França, moradora da Região Leste de Belo Horizonte e participante do tour.

No Santuário São Paulo da Cruz, os visitantes foram recebidos por um religioso passionista, que contou a história do local
No Santuário São Paulo da Cruz, os visitantes foram recebidos por um religioso passionista, que contou a história do local Samuel Gonçalves/ESP.EM

O Parque das Águas, por exemplo, surpreende muitos visitantes por revelar uma face verde e histórica da região. O Barreiro abriga importantes nascentes e áreas ambientais, incluindo o Parque Estadual da Serra do Rola-Moça, um dos maiores parques em área urbana do país e responsável por proteger mananciais que abastecem parte da região metropolitana.

"O Barreiro é quase uma cidade"

Ao explicar a força da região, Mauro Satter destaca que o Barreiro desenvolveu uma dinâmica própria de trabalho, comércio e produção cultural. "O Barreiro hoje tem vida própria. Tem gente que mora, trabalha, produz arte e movimenta a economia aqui. A gente não sai do Barreiro para fazer certas coisas; sai para passear."

Ele também chama atenção para o tamanho da população e para a capacidade econômica da região. "Temos um comércio muito forte, que atende toda Belo Horizonte. É importante que as pessoas conheçam essa força", diz Satter. 

Memória, pertencimento e saudosismo

Embora o passeio tenha caráter turístico, ele também funciona como um exercício de memória coletiva. Os organizadores defendem que a história do Barreiro não pode ser contada apenas por datas e obras públicas, mas pelas experiências de quem viveu as transformações da região.

"A gente não quer só contar a história. Quer contar a história das pessoas que fizeram parte dessa construção, tenham elas 10, 70 ou 90 anos", diz Mauro.

Álvaro relaciona esse sentimento ao orgulho de permanecer na região mesmo diante do crescimento urbano. "Hoje o Barreiro tem mais de 300 mil habitantes, está crescendo e se verticalizando, mas a gente continua muito ligado à nossa história. O passado caminha junto com o presente."

Ele cita lembranças pessoais, como a pedra da Praça da Febem, ponto de parada que foi incluído no passeio para mostrar a rocha que na época da Fazenda Barreiro era usada como apoio para manutenção das ferraduras dos cavalos, mas ainda hoje permanece no local. 

A pedra da Praça da Febem, que existe desde a época da Fazenda Barreiro
A pedra da Praça da Febem, que existe desde a época da Fazenda Barreiro Álvaro Castro e Iris Aguiar

Mais antiga que Belo Horizonte

A história do Barreiro começou oficialmente em 3 de agosto de 1855, com o registro da Fazenda Barreiro. Décadas antes da inauguração da capital mineira (1897), o território já era ocupado por produtores rurais e imigrantes atraídos pela criação de áreas agrícolas que abasteceriam a futura cidade.

Atualmente, a região reúne 54 bairros, 18 vilas e cerca de 300 mil habitantes em uma área de 53,6 quilômetros quadrados, sendo uma das maiores regionais de Belo Horizonte. Ao longo do tempo, passou por diferentes fases: fazenda, colônia agrícola, polo industrial e importante centro comercial e de serviços da capital.

A industrialização ganhou força com a instalação da Mannesmann, atual Vallourec, em 1954, considerada um marco do desenvolvimento regional. O crescimento populacional e econômico transformou o Barreiro em um dos principais recortes socioeconômicos de Belo Horizonte.

O Barreiro entre o passado e o futuro

Mauro Satter afirma que a região vive uma sucessão de marcos históricos: antes e depois do viaduto, do shopping, da expansão industrial e, futuramente, do metrô.

As obras da Linha 2 do Metrô BH, que terá integração com a Linha 1 na Estação Nova Suíça, são vistas como um novo capítulo desse processo de transformação urbana. O avanço do sistema é apontado como mais um elemento capaz de alterar a relação do Barreiro com o restante da cidade.

Para os organizadores do tour, porém, o desenvolvimento não deve apagar a memória local. O desafio é crescer sem perder a identidade construída ao longo de mais de um século e meio.

171 anos celebrados durante todo o mês

A programação do aniversário do Barreiro ocupa os 31 dias de agosto e inclui atrações para diferentes públicos. Entre os destaques estão o espetáculo "Viva Vander Lee – 10 anos de saudade", o stand-up "Habilidades – Um guia prático para não surtar", feiras, eventos de hip-hop, corrida noturna, caminhada ecológica, Minas Rock Beer e a tradicional Discoteca do Barreiro, que homenageia antigas casas noturnas da região. Nas últimas três edições, cerca de 20 mil pessoas participaram das comemorações.

A programação do aniversário do Barreiro conta com o espetáculo "Viva Vander Lee – 10 anos de saudade"
A programação do aniversário do Barreiro conta com o espetáculo "Viva Vander Lee – 10 anos de saudade" Samuel Gonçalves/ESP.EM

Já o City Tour do Barreiro, que acontece aos sábados, transforma uma comemoração local em um debate sobre visibilidade urbana. Ao convidar moradores de outras regiões a percorrer igrejas, parques, monumentos, espaços culturais e histórias de família, o projeto questiona quais territórios são reconhecidos como parte da memória oficial de Belo Horizonte.

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No fim do passeio, a provocação do idealizador do projeto, Mauro Satter, permanece: "Por que que o Barreiro não é apresentado dessa forma para as pessoas? Como uma região mais antiga que a própria capital, com cerca de 300 mil habitantes, forte comércio, patrimônio cultural, áreas ambientais e identidade própria." 

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