JUVENTUDE ANGUSTIADA

Tristeza: pesquisa expõe números da epidemia silenciosa que sufoca jovens

IBGE revela que parcela expressiva de adolescentes se sente cronicamente triste, em quadro associado a redes sociais, celulares, algoritmos e falta de apoio

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Em Minas Gerais, quase um terço dos adolescentes convive com a tristeza constante
Em Minas Gerais, quase um terço dos adolescentes convive com a tristeza constante Leandro Couri/EM. D.A Press

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O sinal que anuncia o recreio traz o barulho típico da juventude: risos, correria e conversas altas. Mas um olhar mais atento pelos corredores ou sobre os olhos fixos na tela do celular pode observar suspiros profundos e sinais de expressão que parecem carregar o peso do mundo. “A gente recebe tanta informação, tanta coisa, que esquece da própria identidade. Ficamos presos, é como uma droga.” O desabafo, de um dos estudantes ouvidos nesta reportagem do Estado de Minas, é o espelho real do que a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), traduz em dados preocupantes.


Segundo o levantamento, em Minas Gerais, mais de um quarto dos estudantes entre 13 e 17 anos ouvidos, em um público de mais de 1,2 milhão de jovens, se autodeclararam tristes. Em nível nacional, os dados ganham contornos ainda mais dramáticos: três em cada 10 alunos afirmaram que se sentem da mesma forma com frequência. Essa epidemia silenciosa, longe de ser um diagnóstico isolado, expõe uma crise multifatorial alimentada pelo abismo criado por problemas de comunicação familiar, algoritmos desenhados para viciar e insuficiência de apoio psicológico nas escolas.


Para mapear esse cenário, a PeNSE, realizada em conjunto pelos ministérios da Saúde e da Educação, buscou promover um “inquérito nacional” voltado para a investigação de atitudes, hábitos e cuidados de saúde entre adolescentes brasileiros, fornecendo indicadores sobre fatores de risco e de proteção para esse público. Realizada em 2024, a quinta edição do estudo – a primeira pós-pandemia da COVID-19 –, foi divulgada em março deste ano.


A população-alvo foi formada por estudantes do 7º ao 9º ano do ensino fundamental e do 1º ao 3º ano do ensino médio, em escolas públicas e privadas do país. Nessas etapas estão alunos com idades entre 13 e 17 anos.


Questionário e liberdade

Em Minas Gerais, a PeNSE estimou em 1.208.159 o total de estudantes de 13 a 17 anos frequentando escolas, 50,7% do sexo masculino (612.929 pessoas) e 49,3% do sexo feminino (595.230 pessoas). Desse total, a maioria (87,6%) frequentava escolas públicas (1.058.057) e 12,4% eram alunos de instituições particulares (150.102). Em relação à distribuição por cor ou raça, a maioria (45,4%) se declarou parda, ao passo que 36,4% se identificaram como brancos, 13,9% como pretos, 2,8% como amarelos e 1,4% como indígenas.


Na pesquisa, o IBGE perguntou a adolescentes sobre a existência de amigos próximos, sentimentos de preocupação e tristeza, a autoavaliação em saúde mental e a percepção corporal, em um questionário de múltipla escolha respondido de forma anônima, por meio de smartphones entregues nas salas de aula. “O adolescente precisa ter liberdade e se sentir seguro para responder. Se alguém fizesse as perguntas diretamente, o resultado seria diferente, não iria retratar a realidade”, explicou o chefe da Seção de Pesquisas Sociais do IBGE em Minas, Leonardo Cabral.


Ele ressalta que o foco do trabalho está em medir sintomas do cotidiano, e não em fechar laudos clínicos. “Não dá para trabalhar com conceitos como depressão, ansiedade ou algo do tipo, até porque muitos não têm acesso a diagnóstico. Por isso, medimos indicativos de comportamento”, esclareceu.


Riscos para o futuro

Segundo Cabral, a sensação de tristeza, por exemplo, pode sinalizar algum transtorno ou fator de proteção em relação à saúde mental. “Quando você tem quase metade dos adolescentes altamente preocupados e tensos com coisas comuns do dia a dia, isso é um indicador claro do risco de desenvolverem transtornos no futuro. Tudo começa a se desenvolver na adolescência, os hábitos que você vai ter pela vida inteira”, pontuou.


O trabalho revela índices que dão voz ao silêncio de uma geração. No estado, 27,8% dos alunos autodeclararam que se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes – porcentagem equivalente a cerca de 335.868 pessoas, mais que um quarto do total. Os números apresentam ainda uma disparidade de gênero: enquanto 15,4% dos meninos relatam conviver com a tristeza constante, o índice explode e atinge 40,7% das garotas, ou seja, quatro em cada 10 meninas.

Meninas mais vulneráveis

Em âmbito nacional, em um público estimado de 12.359.709 estudantes de 13 a 17 anos, o IBGE entrevistou 118.099 jovens que frequentavam 4.167 escolas públicas e privadas de todo o Brasil. Do total, quase três em cada 10 avaliados declaram conviver frequentemente com a tristeza (28,9%). As meninas, novamente, representam a maioria, com 41% das respostas, enquanto os meninos somam 16,7%.


Quando os resultados para esse indicador são comparados com os da pesquisa realizada em 2019 (31,4%), nota-se uma discreta diminuição, de 2,5 pontos percentuais. O IBGE calculou ainda que cerca de 100 mil estudantes brasileiros tiveram alguma lesão autoprovocada nos 12 meses anteriores à pesquisa. Dessa parcela, 73% (ou 73 mil) declararam se sentir tristes.


Apesar do peso das estatísticas, a psicóloga e doutora em psicanálise Carolina Nassau Ribeiro faz questão de ponderar que os altos índices de tristeza capturados na pesquisa não devem ser lidos imediatamente como uma patologia generalizada, embora sejam um sinal de alerta. “A tristeza autodeclarada não é equivalente ao diagnóstico de depressão, mas é um indicador sensível de um sofrimento psíquico relevante. A tristeza faz parte da nossa existência, ela precisa acontecer. A depressão já é uma tristeza prolongada, que não passa, que afeta a funcionalidade. A nossa sociedade tem a mania de reprimir a tristeza. Como temos que performar alegria e sucesso 24 horas por dia, confundimos tristeza com depressão”, definiu a especialista.


Labirinto digital parece sem saída

Se as estatísticas da PeNSE desenham um cenário frio, a realidade ganha rostos iluminados pelo reflexo azul da tela do celular e por um fluxo de conteúdo nas redes – o chamado “feed” – que parece adivinhar a dor. A mesma tecnologia digital que o IBGE usou para coletar dados de forma anônima foi apontada por quatro estudantes de Belo Horizonte ouvidos pelo Estado de Minas como o principal gatilho para a crise de imagem, de procrastinação e para a solidão: o ambiente virtual, que deveria aproximar os usuários, parece ter se transformado em uma arena de comparações da qual é difícil se desvencilhar.


“Se você está triste, o seu celular vai saber que você está triste, porque você vai começar a curtir vídeos melancólicos. E quanto mais você vai curtindo e dando views (visualizações), mais ele vai te indicando conteúdos assim, e mais você vai ao fundo do seu sentimento.” O relato é de uma estudante de 15 anos: Giovana Soares (nome fictício, como os demais apresentados nesta reportagem, para preservar a identidade dos adolescentes) concilia a rotina da escola, na qual é representante de turma, com um curso técnico de robótica e informática.


No tempo livre, a adolescente aprecia bons livros e filmes de romance. Mas ela confessa que as redes sociais também ocupam suas horas vagas. E admite que “às vezes”, se deixa levar pela pressão estética. “Tem muita influência sobre mim em relação à distorção de imagem e à comparação”, contou.


O aluno Mateus Silva, de 16, por sua vez, descreve como o vício digital isola os jovens do mundo real. “Os algoritmos são realmente para nos viciar. Tudo aquilo está sempre feito para a gente ficar preso, e isso é algo que, às vezes, leva a gente a entrar em crise. Recebemos tanta informação que esquecemos da nossa identidade... Quem eu sou? O que eu quero? Ficamos presos, como em uma droga mesmo”, afirmou. Colega dele, Carlos Maia, da mesma idade, também destaca a dificuldade de quebrar a dinâmica dos algoritmos, e admite que as plataformas o prendem o dia inteiro no quarto.


Máquina de engajamento

Essa engrenagem que captura a atenção dos estudantes está longe de ser obra do acaso. Professor titular de ciência da computação da UFMG, Wagner Meira Júnior explica que o modelo de negócio das grandes plataformas digitais dá prioridade ao lucro por meio da retenção absoluta do usuário.


“Para que as redes sejam viáveis comercialmente, a pessoa tem que ficar lá. E, para muitas dessas plataformas, vale qualquer coisa para mantê-las conectadas”, afirmou o especialista. Segundo ele, os sistemas de recomendação hoje exploram ativamente as fragilidades psicológicas e emocionais dos jovens. “A pessoa entra em uma bolha de engajamento tão profunda, que perde a percepção”, salientou o professor.
Apesar de avanços legislativos, como o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) Digital (Lei 15.211/2025), e da restrição de telas em escolas, que representam marcos importantes, a aplicação dessas regras esbarra em limites da própria tecnologia. De acordo com o professor Wagner Meira, o ambiente digital carece de infraestrutura para cumprir as novas exigências com total eficácia. “Há um desafio técnico imenso de autenticação. O principal é como fazer o reconhecimento seguro de que o usuário é menor de idade, ou se o responsável por ele é realmente quem diz ser. Raramente se fala do bem-estar do usuário, quem é, como vai ser menos fragilizado”, pontua.


Telas e mudança de humor

A reclusão e a espiral de comparação relatada por jovens tampouco são casuais. Do ponto de vista clínico, o sofrimento está diretamente ancorado em uma mudança comportamental global, consolidada na última década. É o que afirma a psicóloga e doutora em psicanálise Carolina Nassau Ribeiro, ao analisar o impacto da tecnologia na mente infantojuvenil.


“A partir de 2011, 2012, o mundo começou a assistir a uma mudança de humor desses adolescentes. Hoje, a gente já fala em uma relação de causalidade entre o smartphone e as câmeras frontais com o sofrimento desses jovens”, ressaltou. Segundo ela, esse ecossistema digital cobra um preço alto, especialmente da população feminina, o que ajuda a entender os 40,7% de tristeza entre as meninas em Minas.


As garotas também apresentam maior insatisfação com o próprio corpo: segundo a PeNSE, 36,3% estavam insatisfeitas ou muito insatisfeitas. Outras 19,3% declararam que se sentiam gordas ou muito gordas e 32,1% tentavam perder peso.


“Desde novas, elas são confrontadas com ideais de padrões de beleza, de performance e de sociabilidade. Nessa idade de transformação do corpo, são obrigadas a apresentar nas redes sociais padrões irreais. Todo mundo é magro, bonito, rico, cheio de amigos... Mesmo as adolescentes que são consideradas dentro do padrão vão se sentir ansiosas, angustiadas e tristes com esses imperativos”, destacou Carolina Nassau.


Enquanto elas tentam ostentar uma perfeição inalcançável, a psicóloga aponta que o impacto do digital nos meninos se manifesta de outra forma, com o aprisionamento em jogos on-line e conteúdos adultos precoces que alimentam discursos hostis na internet. “Os adolescentes ficam sozinhos em casa, sem ninguém para conversar, vendo essas telas tóxicas, se conectando por meio delas. Sem nenhuma dificuldade: é só clicar. Eles acabam caindo em redes de masculinidade tóxica, e é claro que isso, lá na escola, vai ter um efeito sobre as meninas também, porque eles vão oprimi-las”, aponta a especialista.

A epidemia silenciosa de tristeza entre jovens, apontada na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), caminha lado a lado com uma percepção de desamparo. Segundo o levantamento, 25,3% dos alunos mineiros (e 26,5% no Brasil) afirmaram sentir que ninguém se preocupa com eles na maior parte do tempo, além de declarar incapacidade de lidar com as pressões do cotidiano: 49,4% dos jovens em Minas afirmaram se sentir muito preocupados com coisas comuns do dia a dia na maior parte do tempo, tensão que sufoca principalmente as adolescentes (62%, contra 37,2% dos meninos).


Nesse contexto, a psicóloga e doutora em psicanálise Carolina Nassau Ribeiro aponta para a fragilidade dos laços familiares. “Os pais saem para trabalhar exaustivamente o dia inteiro, não têm mais aquele momento do almoço e do jantar em família. E, quando esses pais retornam à noite, também estão colados nas telas. Estamos vendo uma família fragilizada. Então, são adolescentes muito solitários e com pouca possibilidade de exteriorizar o próprio sofrimento”, advertiu.


Esse abismo no apoio familiar se comprova na rotina dos estudantes. A estudante Giovana Soares (nome fictício, como os demais apresentados nesta reportagem, para preservar a identidade dos adolescentes), de 15 anos, enfrentou o divórcio dos pais, que disse ser um pico de tristeza em seu dia a dia. Segundo relata, em alguns momentos ela encontra uma barreira ao tentar se abrir em casa, confessando que o estresse e a preocupação geram atritos com o pai. A mesma desconexão é sentida por Joana Martins, de 16 anos. Para ela, os mais velhos tendem a “simplificar os sentimentos”. “Os adultos hoje em dia estão mais complicados. Na maioria das vezes, eles são muito práticos. Nós pensamos demais, temos muitos sentimentos, somos mais intensos, precisamos de cautela”, desabafou.


O hábito de “pensar demais” apontado por Joana ganha um peso ainda maior devido às cobranças implacáveis sobre o futuro. O estudante Carlos Maia aponta que a iminência do vestibular e a cobrança social por escolhas profissionais precoces funcionam como um combustível para a ansiedade na rotina escolar. “Você já começa a se preocupar muito com a vida adulta. Eu me preocupo muito em questão de faculdade, fico ansioso. Com 18 anos, você decide o que você quer seguir, a carreira da sua vida. Acho que isso pesa muito, porque estou começando a minha vida agora”, destaca ele.


Alerta para a família

Para a presidente do Departamento Científico de Adolescência da Sociedade Mineira de Pediatria, Débora Fernandes Ferreira Baeta Neves, o caminho para reverter os índices de isolamento e tristeza captados pela PeNSE exige uma mudança postural de pais e responsáveis. “Os jovens pedem e têm necessidade de ser compreendidos, faz parte da adolescência. O adulto não mostra um interesse genuíno, entra rapidamente para resolver o problema e não tratar o cerne, a raiz do sentimento. O jovem precisa se sentir ouvido em vários aspectos, desde o esporte que pratica e a escola até chegar a problemas mais graves”, citou.


Além disso, a especialista ensina que o gerenciamento das telas não deve ser construído a partir da proibição, e sim do equilíbrio. “É preciso não apresentar apenas restrições, mas ensinar como conviver com a tecnologia. A partir do começo da vida no mundo virtual, já é preciso ter limites, de tempo, de quais plataformas usar. É importante que o jovem encontre alternativas para a desconexão: esportes, atividades culturais, passeios com amigos e família”, acrescentou.


O “tempo de qualidade” também é defendido por Gabriela Crenzel, integrante do Grupo de Trabalho de Saúde Mental da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). “Desenvolver um ambiente de acolhimento significa valorizar o tempo que se passa com os filhos, sejam programações de lazer, ou fazer uma refeição, conversar sobre acontecimentos da vida”, enumera.


Apoio frágil na escola

Se a pressão do cotidiano deságua dentro das salas de aula, a rede de apoio que deveria acolher esses estudantes nas instituições de ensino ainda se mostra frágil. Para a psicóloga Carolina Nassau, o ambiente escolar está focado em metas e tende a “ignorar” a mente dos alunos. “As escolas estão muito mal preparadas para lidar com questões de saúde mental, porque os conteúdos são muito intensos e elas estão preocupadas com as avaliações. É muito difícil que um professor consiga ver nos alunos uma questão de saúde mental”, avaliou.


Segundo ela, o maior perigo reside naqueles estudantes que não geram ocorrências ou não chamam a atenção da diretoria. “O adolescente que tem grupo, que faz barulho, que ocasionalmente leva uma ocorrência, ele incomoda a escola, mas está dando vazão para o sentimento dele. Eu prestaria atenção no adolescente isolado, silencioso, calado. O que só anda de blusa de manga comprida pode estar, ocasionalmente, escondendo autolesões. É importante prestar atenção nesse comportamento de quem não incomoda, mas está completamente solitário”, alerta a especialista.

A diferença entre a tristeza cotidiana e o adoecimento grave está na capacidade de interagir, define ela. “Um adolescente que ficou triste por um tempo curto e voltou a se socializar, a sair com amigos, a passear, está sem problema. Agora, aquele que não consegue sair dessa tristeza e começa a apresentar um comportamento de autoisolamento, isso já deve preocupar”, apontou Carolina. “Adolescente feliz é adolescente que se socializa. É uma etapa importantíssima em que ele sai do vínculo tão forte com a família e precisa do grupo”, concluiu.

Abismo entre as redes de ensino

O olhar especial cobrado pela psicóloga Carolina Nassau esbarra na escassez de apoio técnico no ambiente escolar. O questionário da PeNSE revelou que, em Minas Gerais, menos da metade (40,3%) dos estudantes frequentavam escolas com algum tipo de suporte psicológico. O abismo entre o ensino público e o privado também fica evidente: enquanto 63% dos alunos da rede particular contam com esse apoio, na rede pública o índice despenca para 37,1%.


Essa disparidade escancara que, na prática, a aplicação da legislação federal que exige a presença de psicólogos e assistentes sociais nas redes públicas de ensino (Lei 13.935/2019) ainda caminha a passos lentos no país. A norma estabelece que as redes de ensino devem contar com setores de psicologia e de serviço social para desenvolver ações para a melhoria da qualidade do processo de ensino-aprendizagem, por meio de equipes multiprofissionais.


Na tentativa de reverter esse cenário, as secretarias de Estado de Educação (SEE-MG) e de Saúde (SES-MG) informam investir em uma atuação integrada que divide as funções entre a sala de aula e a rede de saúde. A principal medida nesse sentido foi a implantação dos Núcleos de Acolhimento Educacional (NAEs), criados em 2022. Atualmente, a rede estadual conta com 230 núcleos ativos, que reúnem 460 profissionais, entre psicólogos e assistentes sociais, distribuídos pelas 47 Superintendências Regionais de Ensino.


Os profissionais dos NAEs não realizam atendimento clínico individualizado; a função deles é institucional e preventiva, concentrada em identificar fatores psicossociais que atrapalham o aprendizado, mediar conflitos e tentar reaproximar as famílias da rotina escolar. Quando o caso requer cuidado especializado, a escola encaminha o jovem para a Rede de Atenção Psicossocial (Raps), que conta com mais de 440 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e unidades de atenção primária. Em Belo Horizonte, a prefeitura indicou que a Portaria SMED 176/2025 regulamenta a atuação de psicólogos(as) e assistentes sociais na rede municipal de educação. “No ano de 2025, essa equipe realizou 1.335 ações de saúde mental em 242 escolas da rede municipal de educação”, informou, em nota.


“Avanços são necessários”

No plano federal, o Ministério da Educação (MEC) também tenta implementar três legislações no campo da saúde mental. São elas: a Lei 13.935/2019, que institui as equipes multidisciplinares de psicólogos e assistentes sociais nas escolas; a Lei 14.819/2024, que institui a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares; e a Lei 15.100/2025, que versa sobre a restrição do uso de aparelhos eletrônicos para fins não didáticos nas escolas.


No que diz respeito à primeira norma, o MEC produziu um documento para orientar estados e municípios a criar suas próprias políticas de atenção psicossocial, com a contratação de profissionais. “O MEC reconhece que avanços ainda são necessários para efetivar essa política e, por isso, tem se aproximado de entidades especialistas, como o Conselho Federal de Psicologia e o Conselho Federal de Serviço Social, para debater a formação profissional dentro das atribuições previstas”, informou, em nota enviada à reportagem.

Em relação à Lei 15.100/2025, o ministério disponibiliza materiais orientadores e formativos sobre o tema. Vale destacar os guias voltados para gestores, professores e familiares sobre a restrição de celulares em sala, disponíveis no repositório “Mecred”. Também foram desenvolvidas formações sobre o uso de tecnologias para fins didáticos e cursos na plataforma “Avamec” sobre como manejar situações de saúde mental decorrentes de episódios de ansiedade, depressão ou agressividade dos estudantes. Já para cumprir a Lei 14.819/2024, a pasta tornou a saúde mental um eixo urgente do Programa Saúde na Escola, concentrando-se no treinamento de gestores e no mapeamento de experiências que funcionam.


O preço físico da tristeza

A sobrecarga e a tristeza frequente relatadas por estudantes cobram um preço físico que transborda para o sistema de saúde nacional, conforme levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgado em dezembro do ano passado. O “Informe II: saúde mental” revelou um paradoxo: a juventude brasileira apresenta as maiores taxas de internação por questões de saúde mental, mas é o público que menos acessa a atenção primária à saúde em busca de serviços para tratar o problema, na comparação com a população em geral.


O estudo descreve o perfil de internações hospitalares, mortalidade e atendimentos relacionados à saúde mental na atenção primária de brasileiros com 15 a 29 anos, entre 2022 e 2024, com base em dados do SUS e do Censo 2022. No período analisado, apenas 11,3% dos atendimentos de jovens na atenção primária foram para tratar da saúde mental, enquanto na população geral essa proporção é de 24,3%. Já a taxa de internações para a juventude foi de 579,5 casos para cada 100 mil habitantes. Os dados, no entanto, não aparecem estratificados por estado.


A busca tardia por socorro ganha contornos nítidos nos hospitais. Dados da plataforma DataSUS revelam que, em Minas, as internações de jovens entre 10 e 19 anos por lesões autoprovocadas alcançaram o maior número em abril de 2026, quando analisados os registros de abril dos últimos cinco anos (o mês foi analisado por ser o último contabilizado neste ano, até a data atual).


Em abril de 2022, o estado registrou 15 internações desse tipo, quantidade que saltou para 18 no mesmo mês de 2023. Após uma leve retração em abril de 2024, com 16 casos, o índice voltou a subir significativamente: foram 20 internações no mesmo período de 2025. Já este ano, as ocorrências atingiram 22 jovens hospitalizados por episódios de autolesão. No país, o mesmo mês deste ano também teve o maior registro (70 casos). Na sequência aparecem 2024 (51); 2025 (50); 2022 (48) e 2023 (38).

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Em nota, o Ministério da Saúde esclareceu que, com base na Lei 10.216/2001, a internação deverá ser indicada apenas quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes, respeitando sempre o Estatuto da Criança e do Adolescente. O mesmo ocorre em Minas, segundo a Saúde estadual. O cuidado em saúde mental no SUS é garantido por meio da Rede de Atenção Psicossocial. Atualmente, são 18 diferentes pontos de atenção e aproximadamente 6.508 serviços e dispositivos distribuídos em todo o território nacional, entre os quais se destacam 3.110 Centros de Atenção Psicossocial (Caps), sendo que 343 deles são infantojuvenis (CAPSi). Para casos de urgências, a rede conta com 2.224 leitos de saúde mental em hospitais gerais. 

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