Um abaixo-assinado com mais de mil assinaturas, denunciando a falta de pediatria 24 horas na Santa Casa de Caeté, na Região Central de Minas, levou o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) a instaurar um procedimento administrativo para investigar o caso. A medida foi aberta pela 2ª Promotoria de Justiça após um grupo de mães relatar demora nos atendimentos, ausência de pediatras durante madrugadas e fins de semana e dificuldades no acolhimento infantil na unidade de saúde.
O documento foi entregue ao órgão, à Prefeitura de Caeté e à Câmara Municipal, após a mobilização ganhar repercussão nas redes sociais. O movimento começou após vídeos publicados pela publicitária e empreendedora Stef Vrato, de 33 anos, viralizarem na cidade.
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Mãe de Miguel, de 5 anos, e Liz, de 11 meses, ela conta que decidiu expor a situação depois de enfrentar dificuldades para conseguir atendimento para a filha caçula, que nasceu com cardiopatia.
“Minha filha pode ficar roxa a qualquer momento e eu não sei para onde levar. O fato de não ter pediatra 24 horas aqui aumenta ainda mais essa insegurança”, relatou.
Segundo ela, a falta de pediatras em horários considerados críticos gera insegurança entre os pais, principalmente durante o aumento de doenças respiratórias. Muitas famílias, segundo Stef, acabam recorrendo a hospitais de Belo Horizonte.
“Até chegar em Belo Horizonte demora cerca de uma hora. Fora a BR-381, que pode parar a qualquer momento. Isso gera um medo constante, porque os hospitais da capital também estão superlotados”, afirmou.
Após a repercussão dos vídeos, outras mães passaram a compartilhar relatos semelhantes. Uma delas contou que levou o filho de dois meses à Santa Casa durante um fim de semana e recebeu a orientação para oferecer água ao bebê. Segundo a moradora, o atendimento não foi realizado por um pediatra.
“Fui lá e o médico mandou eu dar água para o meu bebê de 2 meses. Para ele, essa seria a solução. Ele foi pesar meu filho e afirmou que ele estava com 2,5 kg, sendo que ele nasceu com 3,795 kg. Não sabia nem o que estava fazendo, coitado. Saí daqui e fui direto para BH. Não era pediatra, pois só tem pediatra em dias de semana, e fui em um sábado”, escreveu.
Outra mãe afirmou que precisou levar o filho para a capital depois que o próprio médico recomendou a transferência por não haver pediatra disponível durante a noite. A criança foi diagnosticada com dengue.
“Meu filho estava passando mal e o levei para a Santa Casa durante a noite. Não havia pediatra e o próprio médico que nos atendeu sugeriu levá-lo para BH por se tratar de uma criança. Além de não ter pediatra 24 horas, a Santa Casa também não realiza exames para identificar realmente o que a criança tem. Levamos meu filho para BH e ele estava com dengue. É um absurdo essa situação. E, além da falta de pediatra 24 horas na Santa Casa, nos postos de saúde também demora quase um ano para conseguir uma consulta”, comentou.
As reclamações também incluem superlotação e demora no atendimento. Uma moradora relatou que aguardou quase oito horas na unidade com a filha doente.
“No mês passado fui com minha filha. Ela estava com dengue e febre alta, e ficamos de 10h55 até as 18h48 devido à alta demanda, por ter uma criança em estado grave internada e, no meio dos atendimentos, a pediatra teve que sair para fazer um parto cesariana de emergência, o que atrasou ainda mais. Eu estava sem nenhum dinheiro, apenas com lanchinhos rápidos na mochila para ela, e nem um almoço ou um pãozinho à tarde foram oferecidos”, disse.
Stef conta que também presenciou uma criança classificada com pulseira laranja esperando mais de uma hora por atendimento.
Ela também relata que o filho mais velho recebeu uma medicação errada. “O médico receitou uma dose de ibuprofeno que era para adulto. Quando fui olhar a bula, percebi o erro”, contou.
Com a repercussão do vídeo, mães da cidade criaram um grupo para discutir a situação da saúde infantil no município. Segundo Stef, mais de 220 mulheres participam da mobilização.
Apesar das reivindicações, Stef afirma que as famílias ainda não receberam respostas oficiais da prefeitura. “Até agora, o retorno foi silêncio”, disse.
Segundo o gestor da Santa Casa, Carlos Júnior, seriam necessários cerca de R$ 80 mil por mês para manter o atendimento pediátrico em tempo integral. De acordo com ele, a ampliação depende de atualização contratual e de repasses do município.
Moradores também cobram melhorias na estrutura hospitalar, principalmente para crianças que necessitam de UTI pediátrica, já que os casos mais graves precisam ser transferidos para Belo Horizonte. “Estamos pedindo o básico”, declarou Stef.
Nesta terça-feira (2/6), o grupo realizou uma caminhada até a prefeitura para cobrar providências do poder público. “A gente quer mostrar que existe uma dor real. Estamos pedindo socorro pelos nossos filhos”, afirmou Stef.
A reportagem procurou novamente a Prefeitura de Caeté para comentar os relatos das famílias e os questionamentos sobre a saúde infantil no município, mas não houve retorno até a publicação desta matéria.
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Estagiária sob supervisão da subeditora Fernanda Borges
