Entre trilhas, cachoeiras e ônibus metropolitanos, a influenciadora Joelma Marques, de 35 anos, transformou roteiros gratuitos pela Grande BH em conteúdo para quase 140 mil seguidores — número conquistado há cerca de um ano, após deixar a área de eventos, na qual trabalhou durante grande parte da vida.
Natural de Belo Horizonte e moradora do bairro Ipê, na Região Nordeste da capital, o diferencial de seu trabalho está na produção de roteiros detalhados, com informações sobre trajeto e tempo de caminhada. Seus vídeos sobre trilhas e cachoeiras na Região Metropolitana se tornaram um dos principais atrativos do perfil por unir lazer, natureza e orientações práticas para quem deseja explorar esses locais sem carro.
Antes da internet
Antes de atuar na internet, Joelma trabalhava com feiras, eventos empresariais e shows. Segundo ela, a rotina intensa e os horários irregulares contribuíram para a decisão de mudar de área. "Quem trabalha com evento não tem horário. Era de dia, de tarde, de madrugada. Eu queria encontrar outra coisa para fazer", afirma.
A criação de conteúdo surgiu a partir de um hábito antigo: registrar os passeios feitos com amigos utilizando ônibus e metrô. Joelma já publicava em suas redes sociais visitas a cachoeiras, áreas verdes e outros espaços da cidade. Mesmo com poucos seguidores na época, ela percebeu o interesse do público pelas informações. "As pessoas sempre perguntavam como chegar, quanto gastava, se era seguro. Minha mãe também sempre me incentivava a gravar", conta.
A partir disso, decidiu estruturar sua produção para o lazer gratuito. A maior parte dos roteiros começa no Centro de Belo Horizonte, ponto escolhido por concentrar linhas de ônibus que atendem diferentes bairros da cidade. "Todos os ônibus chegam ao Centro. Então, tento fazer os roteiros partindo dali para facilitar para todo mundo", diz.
Roteiros e cuidados
Entre os posts mais acessados do perfil estão os vídeos sobre cachoeiras na Região Metropolitana. Joelma costuma utilizar aplicativos de mapas para localizar trilhas e verificar a existência de transporte público até os destinos. Em alguns casos, também recebe sugestões enviadas pelos próprios seguidores.
"Por enquanto, tenho 35 vídeos de cachoeiras distintas no meu perfil, mostrando o caminho, os cuidados e a minha experiência", descreve.
Joelma costuma utilizar aplicativos de mapas para localizar trilhas e verificar a existência de transporte público até os destinos
Ela explica que faz uma checagem prévia das informações antes de publicar qualquer roteiro. Sua preocupação está sempre relacionada à segurança e à acessibilidade do público que acompanha os conteúdos. "Tem muitas crianças e muitas pessoas mais velhas que me seguem. Então eu procuro explicar se a trilha é fácil, difícil, quanto tempo leva, para ninguém ser pego de surpresa", afirma.
Um dos locais citados por ela é a Cachoeira da Paixão, em Raposos, considerada uma das trilhas mais difíceis já feitas por ela. O trajeto exige caminhada longa e passa por áreas mais isoladas. "O que fez esse trajeto ser tão difícil, foi a falta de informação que eu tinha sobre ela. Ela é uma mata quase intocável, muito bem preservada", explica.
"Foram 9 quilômetros - desde que eu desci do ônibus no Terminal Rodoviário de Raposos - para ir, e mais 9 quilômetros para voltar. Eu procurei informações sobre a cachoeira no site da cidade, nas redes sociais e em várias plataformas, mas não consegui muitas informações. Acredito que fui a primeira pessoa a postar sobre o caminho que leva até ela de forma detalhada".
Além da carência de conteúdos sobre o percurso, Joelma salienta que o caminho é muito longo, íngreme e há muitas pedras e cascalhos pela trilha.
Outro roteiro frequentemente mencionado é o do Poço Azul, no Parque da Gandarela, também em Raposos. Ela justifica que costuma sair cedo da capital para evitar horários de maior calor e conseguir retornar no mesmo dia. O percurso até o parque inclui ônibus saindo do Centro da capital e caminhada de cerca de 2,2 quilômetros após o desembarque.
Trilha do Poço Azul, no Parque da Gandarela, em Raposos
A influenciadora alerta que evita fazer trilhas sozinha e orienta os seguidores a agirem da mesma forma. Apesar de muitos vídeos mostrarem apenas ela durante o percurso, normalmente está acompanhada por amigos responsáveis pelas gravações. "Eu sempre reforço isso nas legendas. Não recomendo que ninguém faça trilha sozinho, principalmente em locais isolados", diz.
Além das cachoeiras, a conta também reúne postagens sobre museus, centros culturais, brechós, bazares populares e espaços públicos. Um de seus vídeos de maior alcance foi sobre um bazar. Segundo ela, o vídeo viralizou cerca de quatro meses após o início do trabalho nas redes sociais.
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"Conteúdo sobre bazar sempre dá muita visualização, porque ao mesmo tempo que muita gente buscar se informar sobre isso, há muitos comentários preconceituosos, pessoas que acham que quem compra nesses lugares não têm condições de comprar em outras lojas - e por isso compram lá -, além de quem fala que 'bazar só vende roupa de defunto'", conta.
Com o tempo, começaram a surgir parcerias publicitárias e convites para divulgação. Atualmente, a produção de conteúdo é sua principal fonte de renda.
Importância da acessibilidade
Mesmo com o crescimento da página, ela diz que continua priorizando programações acessíveis financeiramente. Entre os exemplos citados está a divulgação de dias gratuitos em museus e instituições culturais, além de informações sobre compras populares em locais como o Ceasa Minas.
"Tem gente que não acessa esses espaços porque não sabe como funciona ou acha que não pode entrar. Recebo mensagens de pessoas agradecendo porque conseguiram visitar lugares que nunca imaginaram conhecer", afirma.
A influenciadora relata que uma das mensagens que mais a marcou foi a de uma mãe que conseguiu visitar o Instituto Inhotim, com as duas filhas, após assistir a um vídeo feito por ela que explicava como chegar lá de ônibus e em dias de entrada gratuita.
"Ela falou que, quando era criança, não conseguiu conhecer Inhotim em uma excursão escolar porque a família não tinha condições, mas depois conseguiu ir com as filhas", lembra.
Toda a produção é feita pela própria influenciadora. Ela é responsável pelo planejamento dos roteiros, gravação, edição e publicação nas plataformas. No início precisou aprender sozinha técnicas de edição e produção audiovisual. "Eu não sabia editar nem foto. Fui aprendendo tudo do zero", comenta.
Atualmente, desenvolve entre três e quatro roteiros por semana. As visitas são feitas tanto durante os dias úteis quanto aos finais de semana, estratégia utilizada para observar diferenças no fluxo de pessoas e no funcionamento dos espaços.
"Eu vejo que muitas pessoas começaram a ocupar espaços da cidade porque passaram a ter acesso à informação. Acho que esse é o principal resultado do conteúdo", diz.
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*Estagiária sob supervisão da subeditora Juliana Lima
