APELO ESCRITO À MÃO

'Fui jogado fora cinco vezes': carta de paciente expôs horrores do Colônia

Mensagem do interno João Batista da Silva foi publicada em 1979. Quarenta e sete anos depois, ela ressoa na transferência dos 14 sobreviventes

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“A carta de um homem que deseja a paz”. A frase foi título da última reportagem da série “Nos porões da loucura” publicada pelo Estado de Minas em 1979. A coletânea denunciava ao país a rotina de abandono e violência dentro do Hospital Colônia de Barbacena, na Região Central do estado, o maior manicômio já existente no Brasil. Quarenta e sete anos depois, a mensagem manuscrita de um paciente, vítima do “campo de concentração” – como era definido –, volta a ecoar na transferência dos últimos 14 idosos sobreviventes da instituição.

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Nas publicações, encontradas a partir das pesquisas do acervo de 98 anos de páginas impressas da Gerência de Documentação (Gedoc) do Estado de Minas, o jornal descrevia o cenário de horror ao passo que registrava que muitos internos ainda alimentavam a esperança de serem ouvidos fora dos muros do hospital. À época, as palavras de Hiram Firmino, que presenciou in loco a realidade por trás dos muros, expuseram as cenas tragicamente vividas no manicômio.

“Crianças pelo chão, entre moscas. Nenhum brinquedo, um psiquiatra. Aleijados arrastando-se pelo chão. Agrupados para não serem pisoteados na hora da comida. Esperando a maca, a liberdade através da morte. Um asilo medieval de pedra. Úmido e frio. Celas e eletrochoques, todas as torturas. Nenhuma assistência, calor humano. Como um campo de concentração. Farrapos humanos”, dizia o jornalista na reportagem “Você gosta de Deus? Nós somos Deus”. O texto foi publicado pelo EM em 25 de setembro de 1979, e compunha a série de nove matérias que expuseram os bastidores do hospício.

“Homens e mulheres pelos pátios. Pedindo um doutor. Um violão e um cigarrinho. Seres humanos. Rotulados de loucos. Loucos que sabem seus nomes, endereços e sentimentos. Implorando socorro. Vivendo agora, mais uma vez, a esperança remota de serem ouvidos pelas autoridades”, escreveu ainda o repórter. Entre essas vozes estava a de João Batista da Silva, então com 28 anos, que escreveu à mão uma carta publicada na íntegra em duas páginas da edição do dia seguinte, pedindo ajuda para deixar o hospital. 

No apelo, João Batista insistia em lembrar quem era fora dos muros do Colônia. Escreveu o nome do pai, da mãe, dos irmãos e contou que trabalhou como engraxate, em oficinas, em máquinas agrícolas. Repetia, quase como quem tenta impedir o próprio desaparecimento: “não sou doido, não sou doente, quero sair daqui”. Agora, quando os últimos ex-pacientes deixam definitivamente o antigo hospital psiquiátrico, é como se aquela carta atravessasse décadas para finalmente encontrar resposta. 

Ainda no manuscrito, que revela lucidez em meio ao caos descrito, o interno dizia que havia sido internado cinco vezes “por causa de bebida” e descrevia o manicômio como um lugar onde pessoas eram tratadas sem qualquer dignidade. “Todo homem que não dá valor à vida deve e precisa passar por aqui. Assim ele aprende a dar valor ao próximo e a si mesmo”, registrou. 

Realocados

Os últimos sobreviventes deixaram o hospital, fundado em 1903, na década de 1980, quando ele começou a ser desativado. Sete anos depois, os ex-pacientes foram transferidos para quatro residências construídas dentro do mesmo terreno onde funcionava o hospício. Naquele tempo, eles não tinham para onde ir, e por isso, permaneceram na área onde as brutalidades ocorreram até as autoridades se responsabilizarem por eles. O fechamento da instituição foi oficializado em 27 de abril, pelo governo estadual, durante uma vistoria das obras finais de uma nova Unidade Básica de Saúde (UBS) no município. 

Parte dos 14 sobreviventes, entre seis homens e oito mulheres, foram internados ainda crianças ou adolescentes, sem diagnóstico de transtorno mental, em um sistema que, durante décadas, utilizou a exclusão social como justificativa para confinamentos forçados. Segundo a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), todos continuarão recebendo acompanhamento médico, psicológico e assistência integral após a mudança. 

 

João Batista da Silva tinha 28 anos quando escreveu a carta, dentro do hospício
João Batista da Silva tinha 28 anos quando escreveu a carta, dentro do hospício Arquivo EM

Os antigos pacientes estão bastante debilitados e não possuem ligações familiares. Isso explica por que não receberam outro tipo de apoio ao longo das últimas décadas. “A maior parte chegou no hospital ainda criança. A média de internação – ou seja, o tempo em que eles permaneceram no local – é de 50 anos, já a de idade é de 73… há um idoso com 90 anos, por exemplo”, informou uma fonte da Fhemig ao Estado de Minas.

Após a mudança, a equipe da Fhemig continuará os acompanhando, junto com a equipe da Prefeitura de Barbacena, até que o Executivo municipal assuma totalmente. A intenção é que haja uma mescla no tratamento para que os idosos não estranhem. Será um processo de transição.

Para não esquecer

Os horrores do Colônia vieram à tona após uma série de denúncias de violações de direitos humanos cometidas ao longo do século 20. Durante o funcionamento do espaço, mais de 60 mil pessoas morreram em condições degradantes. O episódio rendeu inúmeras reportagens, documentários, filmes, peças de teatro e livros, com destaque para “Holocausto brasileiro”, de Daniela Arbex. 

Na obra, a jornalista descreve que os internos eram submetidos à fome, superlotação, violência física, abandono e tratamentos desumanos, como eletrochoques e lobotomia. Grande parte dos pacientes sequer possuía diagnóstico psiquiátrico. Mulheres grávidas, pessoas em situação de rua, alcoólatras, homossexuais, opositores políticos e quaisquer indivíduos considerados “indesejáveis” socialmente também eram despejados nos porões do manicômio.

Carta na íntegra

Barbacena, 30 de agosto de 1979

Data nasc.: 20/10/50

28 anos, casado

Nome: João Batista da Silva

Natural: de Barbacena

Rua: Expedicionário José Leite [...]

Bairro: Caminho Novo

Pai: João Augusto da Silva

Mãe: Adelina Augusta da Silva


“Tenho 10 irmãos, 7 homens e 3 mulheres. O último irmão, Ronaldo José da Silva, 33 anos, morreu no ano passado debaixo de um trator em outro barranco.

Sou casado com uma garota de São Paulo. Namoramos pouco tempo, gostava dela, mas no amor depois ficamos conhecendo melhor, não pude mais voltar, não quis ver porque quem já amou não soube esquecer. Não deu certo nossos gênios, ela muito nervosa, não sabia o que queria mesmo e se me amava.

Eu sempre fui triste, calado, gostava mais de falar com pensamentos.

OBS: Gosto de roupa toda preta, ou toda branca, ou toda marrom; gosto de todo esporte; gostaria de pilotar avião; sou um bom goleiro; já fui campeão no Vila do Carmo, no Olímpico, no América; pratico alpinismo; gostaria de ser repórter; não perco o 'Fantástico', o 'Jornal da Sete', 'Jornal Nacional' e o 'Globo Repórter'.

Sou católico, mas sempre vou à igreja quando está vazia. Sou pintor de letras e aproximado de ferramentas.

Adoro crianças, gosto muito de conversar com pessoas idosas e com alguém mais entendido do que eu. Alguém que possa me dar amor e me tirar daqui, porque sempre ajudei aos próximos, nunca neguei o que sou.

Gosto de jogar bola e plantar. Gosto de tocar gaita, primeiro em silêncio. Toco valsas, boleros e tangos. Já fui preso 5 vezes por causa de bebida. Já fui jogado fora no Hospital Colônia 5 vezes. Estou cansado de sofrer, eu quero sair daqui. Me ajudem, porque chega, vocês precisam me ajudar o mais depressa possível. Não possível levar uma vida assim:

NÃO SOU DOIDO, NÃO SOU DOENTE, NÃO ROBEI, NÃO MATEI

Vivo pecando porque bebo, não mereço ficar aqui. Sou homem porque não sou valente, sou corajoso porque enfrento um lugar destes como vocês viram. Aonde matam sem saber que matou, porque são uns pobres doentes mentais. Doenças de todo o tipo e têm doidos.  

MAS TODO HOMEM QUE NÃO DÁ VALOR À VIDA, ou próximo de si mesmo, orgulhoso que gosta só de comer bem, quando não pode, DEVE E PRECISA PASSAR POR AQUI. Assim ele aprende a dar valor ao próximo e a si mesmo. Eu nunca e jamais serei assim.

Gosto de saber como quando era criança gostava de voltar à infância, que quando meu pai tinha abandonado a família e tinha 6 anos [...] por causa de outra e fui trabalhar de engraxate, fui trabalhar em máquina [...] oficinas de fábrica e em máquinas agrícolas e portas de ferro [...] ganhando meu suor para ajudar em casa.

PAI você foi meu eroi meu bandido

HOJE É MAIS MUITO MAIS QUE UM AMIGO

Perdi meus documentos uma vez em Belo Horizonte, mas tive tempo de procurar ou medo de ficar em Belo Horizonte não procurei mais voltei com ansiedade. Ajudem-me a sair daqui de novo [...] você vai ter um bom amigo até irmão.

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(As informações foram transcritas da carta publicada no EM)

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