Transferência de pacientes põe fim à trajetória de dor do Hospital Colônia
Últimos 14 internos deixam área do antigo "hospício de Barbacena" , retratado em reportagens históricas dos Diários Associados
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“Sucursal do inferno”, “porões da loucura”, “fábrica de cadáveres”, “casa da morte”, “campo de concentração nazista”. Ao longo de décadas, foram essas algumas das palavras usadas para descrever as cenas de horror vistas – e tragicamente vividas – no antigo Hospital Colônia, depois Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), na Região Central de Minas. Ontem, a centenária história do “hospício”, como o local ficou conhecido popularmente, teve um ponto final, com a transferência dos últimos 14 pacientes – todos idosos, seis homens e oito mulheres
Segundo a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), vinculada à Secretaria de Estado da Saúde (SES-MG), os pacientes serão realocados em um lar de acolhimento na zona rural do município. O antigo hospício começou a ser desativado em 1980, e sete anos mais tarde, os internos foram transferidos para quatro casas construídas no mesmo terreno onde funcionava a colônia, cenário dos horrores que vitimaram mais de 60 mil pessoas. O fechamento da instituição foi oficializado em 27 de abril, pelo governo estadual, durante vistoria das obras finais de uma nova Unidade Básica de Saúde (UBS) em Barbacena.
Parte dos 14 sobreviventes foi internada ainda crianças ou adolescentes, sem diagnóstico de transtorno mental, em um sistema que, durante décadas, usou a exclusão social como justificativa para confinamentos forçados. Conforme a Fhemig, todos continuarão recebendo acompanhamento médico, psicológico e assistência integral após a mudança.
Os antigos pacientes estão muito debilitados. A única pessoa que consegue se locomover sozinha tem os dois olhos furados, não enxerga. A informação foi confirmada por uma trabalhadora da saúde mental, que atuou no local e esteve presente à cerimônia. Além disso, os sobreviventes não têm ligações familiares. Isso explica o porquê de não terem recebido outro tipo de apoio ao longo das últimas décadas.
“A maior parte chegou no hospital ainda criança. A média de internação – o tempo em que permaneceram no local – é de 50 anos, já a de idade, é de 73. Há um idoso com 90 anos”, informou uma fonte da Fhemig ao Estado de Minas. Após a mudança, a equipe da Fhemig continuará acompanhando conjuntamente à equipe da prefeitura, até que o Executivo municipal assuma totalmente. A intenção é de que haja uma mescla no tratamento para que os idosos não estranhem, será um processo de transição”.
Na abertura da solenidade, as palavras de um ex-interno comoveram os presentes. Bento, de 61 anos, viveu um período de internação no Hospital Colônia e, atualmente, está em uma residência terapêutica de Barbacena. "Foram inúmeras violações de direitos e sofrimentos. Porém, hoje, sou livre. Tenho minha independência e vivo da maneira que quero em total liberdade. É um momento de passarmos um cadeado definitivo nessa história de dor. Os 14 sobreviventes viveram aqui por quase 50 anos e tiveram a história marcada pelo sofrimento. Três deles chegaram antes mesmo de completar 15 anos de idade", afirmou.
O fechamento da instituição foi oficializado em 27 de abril pelo governo estadual durante vistoria das obras finais de uma nova Unidade Básica de Saúde (UBS) no município. "Lembro quando eram 200 (sobreviventes), quando passaram para 80. E lembro quando me disseram que nenhum lugar podia receber os últimos. Mas não aceitamos que os últimos 14 saíssem daqui para o cemitério", destacou o secretário de Estado de Saúde, Fábio Baccheretti.
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A medida dá fim a um dos capítulos mais violentos da história da saúde mental brasileira. A servidora pública Tainara de Paula, também discursou e relatou ser bisneta de uma das vítimas do manicômio. "Realizo hoje um sonho profissional e pessoal. Desinstitucionalizar é reconstruir possibilidades de vida", afirmou.
Violações expostas por
quem conheceu o horror
Inaugurado em 1903 como Sanatório de Barbacena, voltado inicialmente ao tratamento de tuberculose, o espaço passou a ser conhecido, em 1911, como Hospital Colônia, o primeiro hospital psiquiátrico público de Minas Gerais. Ao longo do século 20, tornou-se símbolo de um modelo manicomial marcado por superlotação, abandono e violações de direitos. Entre 1942 e 2020, 40 mil pessoas passaram pela instituição, cerca de 24 mil morreram e, em determinado momento, o local chegou a reunir 3.500 pacientes simultaneamente.
Uma consulta a matérias publicadas entre as décadas de 1960 e 1980, bem antes da luta antimanicomial, mostra a situação degradante nas quais viviam os internos da Hospital de Barbacena, que abriu as portas em 1903 para ser um dos maiores hospitais colônia do país. Há exatos 65 anos, em maio de 1961, a extinta revista “O Cruzeiro”, dos Diários Associados, trazia a reportagem “Hospício de Barbacena: Sucursal do Inferno”, com pessoas de todas as idades amontoadas, muitas delas como se estivessem num ultrajante “vale dos caídos”.
Numa das fotos mais impactantes, há um grupo de homens, a maioria sem camisa, parecendo vagar sem rumo. A legenda diz o seguinte: “O hospício de Barbacena é um imenso pátio dos milagres, onde se misturam loucos, doentes e alcoólatras de todas as idades”. Em outro espaço, há apenas mulheres, e o repórter destacou: “2.600 mulheres amontoam-se nos pavilhões dessa ‘casa dos horrores’. O Brasil está imitando os campos de concentração nazistas”. Na janela protegida por grades, uma pessoa jovem sorri, tendo os braços apoiados nas barras de ferro. O repórter anotou: “Na cidade dos horrores, onde devia haver lágrimas, acontece uma coisa mais terrível: o riso dos loucos”.
Em outra página da revista “O Cruzeiro”, sob o título “Brasil -1961 Tratamento heroico da loucura: morte”, o repórter mostrou o quadro “desumano, criminoso e cruel”, com 1.600 homens “vivendo como animais” e registro de cinco mortos por dia, com destino certo: a escola de medicina. Já o extinto “Diário da Tarde”, de 14 de abril daquele ano, estampava em letras garrafais: “Fome, Doença, Desolação, Pavor e Morte no Hospital Colônia de Barbacena”. Na chamada, havia uma frase que, mais de seis décadas depois, encontra uma resposta completa diante da história de um crime impune e tão violentas cenas de degradação: “Que os homens que governam Minas ponham um ponto final nesse atentado ao pudor da sociedade”.
PORÕES DA LOUCURA
As péssimas condições no antigo “hospício de Barbacena” renderam inúmeras reportagens, documentários, filmes, peças de teatro e livros, com destaque para “Nos porões da loucura”, de Hiram Firmino, e “Holocausto brasileiro”, de Daniela Arbex. Hoje, parte dessa memória está preservada no Museu da Loucura, referência para que o passado não seja esquecido e jamais se repita.
Em julho de 1979, o Estado de Minas publicou a série de 10 matérias “Nos porões da loucura”, do jornalista Hiram Firmino. O trabalho ganhou o Prêmio Esso e se tornou livro, com o mesmo nome, publicado pela Editora Codecri. “O título foi inspirado nos ‘porões da ditadura militar’, como ficaram conhecidos os centros clandestinos de repressão usados durante o regime militar (1964-1985)”, explica o autor.
Hiram Firmino conta como tudo começou. Em 1979, a imprensa mineira publicou uma série de denúncias sobre os hospitais psiquiátricos no estado. Foram dois meses ininterruptos de reportagens – o manicômio de Barbacena, especialmente, era classificado por especialistas como “um campo de concentração nazista”.
“Foi quando aconteceu uma providencial entrevista com o (então) secretário de Saúde do Estado, Eduardo Levindo Coelho, permitindo-nos o livre acesso aos hospitais psiquiátricos. Parece mentira, mas a entrevista foi marcada por mera distração minha. Meu editor, Rogério Peres, havia pautado uma matéria sobre doença de chagas, com um especialista membro da Academia Mineira de Medicina. Quando me dei conta disso, já havia marcado, para o dia seguinte, uma entrevista com o secretário de Saúde. Até comentei na redação do jornal: Vou aproveitar a oportunidade e pergunto a ele qual a sua opinião a respeito dessa onda toda, sobre o fim dos manicômios, liderada pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia.”
Hiram revela que ficou surpreso com o secretário ao perguntar sobre os hospícios mineiros. “Ele não se alterou. Ainda se mostrou bem informado sobre o andamento das denúncias psiquiátricas. Confessou, inclusive, ser um companheiro ideológico do Basaglia. E se disse solidário com os psiquiatras Halley Bessa e Paes Barreto que, já àquela altura, pagavam um alto preço por terem dito a verdade”.
Na sequência, o secretário autorizou a visita; “Nossos hospícios psiquiátricos estão à disposição dos jornais, dos rádios e da televisão. Vocês podem entrar em qualquer um deles, até em Barbacena, e registrarem tudo o que virem. Fazendo isso, inclusive, vocês ainda me ajudarão, pois somente sensibilizando a esfera federal é que poderemos conseguir alguma coisa. Ainda frisou: O ideal seria que esses hospícios já nem existissem mais.” No dia seguinte, a equipe seguiu para Barbacena. E já na terça-feira, as reportagens começaram a sair no EM. “Uma realidade que documentamos e felizmente, acabou, por mais inacreditável que possa parecer.”
NOVOS TEMPOS
Desde 2019, a SES-MG conduz, de forma articulada e contínua, o processo de desinstitucionalização de usuários em situação de longa permanência no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB). O trabalho envolveu a construção de um plano de ação regional, pactuação com municípios, visitas técnicas, apoio institucional e fortalecimento da rede de cuidado territorial.
Entre 2019 e 2025, 68 moradores do CHPB receberam alta para continuidade do cuidado em liberdade. Em 2022, foi registrado o maior número de altas do período, com 27 transferências para Serviços Residenciais Terapêuticos de Antônio Carlos, Carandaí e Ibertioga. Juntamente com Barbacena, os três municípios tiveram papel fundamental no acolhimento de usuários em Serviços Residenciais Terapêuticos. A implantação da Casa de Acolhimento em Barbacena também foi estratégica, conforme as autoridades estaduais da Saúde, para apoiar a transição e garantir moradia adequada aos últimos moradores da instituição.
Ao longo desse período, o governo estadual investiu mais de R$ 718 milhões em ações de saúde mental no estado, sendo R$ 100 milhões somente em 2025. Atualmente, Minas conta com 453 Centros de Atenção Psicossocial (Caps), dos quais 65 voltados exclusivamente ao atendimento de crianças e adolescentes. “O encerramento dos leitos de longa permanência no CHPB representa a consolidação de uma construção coletiva entre estado, municípios e rede de cuidado. A assistência psiquiátrica no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena segue funcionando normalmente, dentro dos protocolos e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS)”, informa a nota da SES-MG.
Mais do que uma mudança de endereço, o ato simboliza o fim de uma forma de cuidado baseada no isolamento, na perda de vínculos e na exclusão social. Os moradores viveram, em média, 49 anos internados. A idade média atual é de 73 anos, e três deles chegaram à instituição antes de completar 15 anos. Muitos foram internados em uma época em que situações de vulnerabilidade social, abandono familiar, preconceito, sofrimento psíquico leve ou comportamentos considerados inadequados pela sociedade podiam levar uma pessoa ao confinamento.
Por trás dos números, há trajetórias atravessadas por décadas de internação, vínculos familiares rompidos ou fragilizados e dependência de cuidados básicos. Também há marcas de vida que resistiram ao tempo, como o gosto por música, desenho, televisão, oficinas e pequenas rotinas do cotidiano. Parte dessas histórias permanece sem registro completo, mas os números conhecidos revelam a dimensão da tragédia.
TRÊS PERGUNTAS PARA...
Hiram Firmino
Jornalista, autor de “Nos porões da loucura”
Em julho de 1979, o jornalista Hiram Firmino publicou, no Estado de Minas, a série de reportagens “Nos porões da loucura”, sobre a situação no antigo Hospital Colônia de Barbacena. Ganhador do Prêmio Esso,
o trabalho se tornou livro.
1) Hoje, passados mais de 40 anos, qual seu sentimento diante de um ponto final nessa história?
Sentimento de dever cumprido, parcialmente. Porque, sem a eterna vigilância e amor ao próximo, tudo pode regredir novamente e de outra forma, sem que a sociedade possa perceber.
2) Por que esse receio?
O que ainda existe de psiquiatra antigo que defende choque elétrico é de apavorar. Um exemplo disso está nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) criados após a Revolução Psiquiátrica. Mesmo sendo referência em saúde mental, para os quais muitos doentes mentais egressos de Barbacena foram acolhidos, eles ainda não tocaram o coração do governo e das políticas públicas. Para muita gente, lugar de louco continua sendo no hospício. Foi o que aconteceu. Morreram mais de 60 mil pessoas no Hospital Colônia que não eram loucas. E ficaram assim, maltratadas e escondidas do olhar humano.
3) Durante a apuração das reportagens, o que mais te impressionou?
Eu não encontrei os loucos terríveis que supúnhamos encontrar. Mas seres humanos como nós. Pessoas que, fora das crises, vivem lúcidas o tempo todo. Sabem quem são, quem são seus pais, seu nome e endereço. E ninguém as ouve até morrer.
LINHA DO TEMPO
1903 – Inaugurado o Sanatório de Barbacena
1911 – Sanatório passa a ser conhecido por Hospital Colônia, a primeira instituição psiquiátrica de Minas
Entre 1942 e 2020 – 40 mil pessoas passaram pela instituição, das quais 24 mil morreram
1980 – Começa a desativação do Hospital Colônia de Barbacena
1987 – Internos são transferidos para quatro casas construídas no terreno do hospital
2026 – Em 17 de abril, é oficializado o fechamento da instituição
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2026 – Em 25 de maio, ocorre a transferência dos últimos pacientes: seis homens e oito mulheres, todos idosos