O que corre nas águas que outros rios despejam no São Francisco?
Do Rio Paraopeba, ao lado do Velhas um dos maiores poluidores, ao Urucuia, que com o Paracatu dilui a sujeira, São Francisco corre em Minas entre contrastes
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Um dos grandes responsáveis pela degradação das águas do Rio São Francisco, ao lado do Rio das Velhas, o Rio Paraopeba – que tem a bacia com reservatórios responsáveis por mais de 60% do abastecimento da Grande BH e foi devastado pelo rompimento da barragem de mineração em Brumadinho (2019) –, tem seu ponto mais degradado em Juatuba, ainda na região metropolitana da capital, bem depois das descargas do Ribeirão Betim. É o que indicam dados do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) coletados nos últimos 10 anos e compilados pela equipe de reportagem do Estado de Minas.
As medições apontam para uma piora na concentração de tóxicos: o índice de toxicidade alta, presente em 20% das amostras entre 2015 e 2019, subiu para 80% de 2020 a 2024. A qualidade foi média em todas as medições da década.
As coletas em Pompéu, os últimos dois pontos de amostragem antes de o rio desaguar na represa de Três Marias, já na calha do Rio São Francisco, ficaram incompletas. Sobre a contaminação por tóxicos de 2020 a 2024, prevaleceu na última estação o nível médio, com qualidade média no mesmo ponto.
A mancha da industrialização
No Rio Pará, outro grande afluente do São Francisco, a degradação se inicia visivelmente após a mancha industrial de Divinópolis, na Região Centro-Oeste de Minas. A contaminação por tóxicos, que era baixa nos primeiros cinco anos, chegou a 40% de concentração média de 2020 em diante. O índice de qualidade da água também foi médio.
A última estação de coleta antes de o Pará desaguar no Rio São Francisco, entre Martinho Campos e Pompéu, fica em Pitangui, onde 80% das amostragens tinham índices baixos de tóxicos e 20% de médios, enquanto a qualidade da água foi boa em 60% das amostras e média em 40%.
O Pará acabou de receber a segunda expedição organizada pelo Comitê da Bacia Hidrográfica (CBH), que chamou a atenção para lixo, esgoto e desmatamento na sub-bacia, mas buscou sobretudo criar mais interesse dos moradores da área de influência do manancial, na primeira travessia da nascente à foz em um rio considerado de difícil navegação.
“A ideia foi trazer esse olhar de dentro do rio para fora, para que as pessoas não fiquem de costas para o rio. Instalamos o marco da nascente, para que as pessoas da região saibam onde brota o Rio Pará. Mostramos a poluição de Divinópolis navegando com equipamentos de proteção individual para mostrar o nível de contaminação das águas”, detalhou o presidente do CBH do Rio Pará, José Hermano de Oliveira Franco. “Buscamos chamar os pescadores para interagir conosco. Os índios, para entender quais as situações por que passam. Mostramos que o rio pode ser navegado e que desenvolvemos um aplicativo para que os interessados possam usar o rio”, destacou.
Norte e Noroeste trazem mais pureza
Os rios Paracatu e o Urucuia estão entre os grandes responsáveis pela melhora expressiva da situação do Rio São Francisco em Minas, pouco antes de ultrapassar a divisa com a Bahia. O Paracatu chega ao Velho Chico em Santa Fé de Minas, no Norte do estado, em ótimas condições, sendo quase um terço da largura do leito principal. Lá, as águas do afluente tiveram 100% de baixa saturação de tóxicos, 80% das amostras de água com qualidade boa e 20% de índice de qualidade média na última década.
Quando chega a Pintópolis, também no Norte de Minas, o Rio Urucuia, que vem de Goiás e atravessa plantações pelo Noroeste e Norte mineiro, também traz depuração ao leito do Velho Chico. O afluente desaguou no São Francisco com baixas concentrações de tóxicos em todos os testes feitos na última década e com uma qualidade da água considerada boa em 70% das amostragens e média em 30%.
Esperança vem de nova classificação
Na sub-bacia do Rio São Francisco mais poluída em Minas Gerais, a do Rio das Velhas, investimentos e uma campanha para mudar o enquadramento dos mananciais para que ganhem mais proteção contra atividades poluidoras podem ser uma alternativa contra a poluição.
É o que diz o presidente do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, Valter Vilela. Para ele, uma recuperação gradual das águas já vem sendo sentida após a implantação, pela Copasa, das estações de tratamento de esgotos (ETEs) do Arrudas, em 2001, que trata parte dos esgotos sanitários de Belo Horizonte, e da Onça, em 2006, que trata esgotos da capital e de Contagem, na região metropolitana.
“Os dados mostram que peixes estão voltando ao rio das Velhas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e até em Sabará há registro de espécies encontradas”, afirma. Novos investimentos têm potencial de melhorar ainda mais a qualidade do Rio das Velhas, na opinião do presidente do comitê. “O investimento previsto pela Copasa, de R$ 1,06 bilhão na ETE Onça, passando de tratamento secundário para terciário, provocará sensível melhoria da qualidade das águas”, prevê.
Metas precisam ser fiscalizadas
Segundo José Maciel Nunes Oliveira, ex-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (de 2021 a 2025), e atual coordenador da Câmara Consultiva Regional do Baixo São Francisco, um dos problemas identificados na bacia e nas sub-bacias é o cumprimento das metas e dos projetos de saneamento de empresas e consórcios públicos e privados.
“O Ministério Público Federal organizou um grupo de trabalho que pretende monitorar o esgotamento sanitário. Uma situação que é importante de se verificar é sobre o cumprimento de metas, os investimentos e trabalhos das concessionárias privadas que passaram a ter o controle dos serviços sanitários. E o Comitê de Bacia do São Francisco vai acompanhar esse monitoramento”, afirma Oliveira.
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“A nossa defesa é no sentido de que os municípios que privatizaram serviços de esgotamento sanitário não recebam verbas para obras públicas, pois no momento da privatização, na composição dos valores dos seus serviços, eles tinham previsto as obras e metas a atingir. Não podem agora querer fazer isso com recursos públicos que deveriam ir para projetos e abastecimento de quem precisa”, critica Oliveira.