"A abolição foi um engodo": Guarda de Moçambique celebra 82 anos
No mês de maio, tradição de matriz Banto ressignifica aniversário da abolição da escravatura e mantém viva reverência a Nossa Senhora do Rosário em BH
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“Hoje nós sabemos que a abolição foi o engodo, que foi uma farsa que depois daquele documento assinado, outras atrocidades continuariam a acontecer”, afirma Isabel Casimira Gasparino, matriarca da Guarda de Moçambique 13 de Maio de Nossa Senhora do Rosário.
Aos 62 anos, Rainha Belinha ocupa este mês as ruas do Bairro Concórdia, na Região Nordeste de Belo Horizonte, com cantos e ritos de matriz banto para celebrar e ressignificar o aniversário da abolição da escravatura.
Essa tradição, instituída por Dona Maria Casimira, avó falecida de Isabel, completa 82 anos de fundação ininterrupta neste maio de 2026 e se mantém viva para reverenciar a Virgem do Rosário e honrar a esperança de liberdade dos ancestrais negros.
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Ao longo do mês, a festa mobiliza moradores locais e visitantes numa programação intensa, com louvação, saídas do Boi do Rosário, conhecido popularmente como bumba-meu-boi, cortejos, hasteamento das bandeiras dos santos padroeiros e a Festa Maior. Sempre celebrada no domingo próximo ao 13 de maio, a grande festa da comunidade deste ano, se preparou para receber 12 grupos convidados e mais de 900 visitantes.
Honra a Chico Rei
Rainha Belinha reforça a importância de afastar a visão romantizada de que o 13 de Maio de 1888, quando a Lei Áurea colocou fim oficial à escravidão no Brasil, foi uma concessão benevolente de liberdade.
“Chico Rei, com todo o seu esforço conseguiu se auto alforriar e alforriar vários negros e negras. Ele dizia sobre si: ‘Rei na minha terra, rei em qualquer terra’. A reprodução de Reinado se torna mais forte a cada dia em Minas Gerais, porque o povo é sabido, é religioso, e cultua suas tradições e ancestralidade”, afirma Isabel.
Em março de 2026, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu, em uma decisão histórica, o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas como o mais grave crime contra a humanidade. O Brasil foi o último país do Ocidente a abolir a prática.
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Dona Maria Casimira e a origem da Guarda
A história da Guarda de Moçambique começou a ser construída em 1944, partindo de um ato de fé da avó de Belinha, a Dona Maria Casimira. Ela estava doente e prometeu a Nossa Senhora do Rosário que, se recuperasse a saúde, mandaria celebrar uma missa em respeito àqueles que morreram escravizados e serviria um banquete ao povo do Reinado.
O pedido foi atendido e a promessa evoluiu para a formação de uma guarda oficial, mas a fundação esbarrou no racismo burocrático de uma sociedade excludente. "Coisa de preto não funciona sem alvará, sem licença, e mulher não podia tirar", recorda Isabel.
Com isso, Maria Casimira emancipou o filho, Efigênio Casimiro, com apenas 14 anos, que ele assinou o registro oficial do grupo.
Estrutura coletiva
Para que hoje as ruas do Bairro Concórdia sejam tomadas pelo movimento, a Guarda de Moçambique opera como um ecossistema colaborativo, em que cada integrante possui uma função vital.
No topo dessa hierarquia, o Rei e a Rainha do Congo assumem a responsabilidade de manter a disciplina. Abaixo da realeza, há os chamados capitães, que atuam como os comandantes de rito de cada guarda. Há também os vassalos, termo utilizado para designar os dançantes.
Contudo, a matriarca faz questão de destacar a importância de cada integrante: das busca por donativos ao bate de porta em porta para convidar a vizinhança. "A guarda não é só dançante. A guarda é cozinheiro, é quem faz a bandeirinha, é quem limpa o espaço da capela", detalha a Rainha.
Sete irmãos sob a mesma camisa
A irmandade resiste e funciona atualmente em BH com uma dinâmica que Isabel, também pesquisadora, cineasta e educadora, compara à Seleção Brasileira. Segundo ela, o Reinado é o termo universal que abraça todo o povo de origem banto sob o manto de Nossa Senhora do Rosário. Dentro dessa seleção, existem sete grupos, sete irmãos: Moçambique, Congo, Caboclo, Vilão, Candombe, Catopé e Marujada.
Embora a fé seja a mesma, as identidades rítmicas e os símbolos de liderança mudam, assim como jogadores de clubes distintos que se unem para defender a camisa da Seleção nacional.
A Guarda de Moçambique carrega o bastão como elemento de poder e dita seu compasso com caixas, caxambu, patangomes e as chamadas "gungas" presas aos tornozelos. Já o Congo é regido pela força de uma espada e incorpora uma musicalidade afinada com instrumentos como tamborim, pandeiro, reco-reco, sanfona e viola.
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Resistência constante
Ao longo das mais de oito décadas, a Guarda de Moçambique 13 de Maio de Nossa Senhora do Rosário conquistou respeito e consolidou sua presença no bairro, contudo, Isabel tem ciência de que os problemas estruturais ultrapassam as fronteiras da comunidade.
"O mundo é racista", afirma ao apontar que é fundamental a preparação das novas gerações para enfrentar ambientes hostis, como a escola, classificada por Belinha como um espaço onde a autoestima da criança negra precisa de proteção.
Ancestralidade independente do folclore
A desvinculação definitiva do termo "folclore" para definir as práticas afro-brasileiras é outro desejo da soberana do 13 de Maio. Para Isabel, o passado de repressão, marcado pela intolerância de figuras religiosas, usou a nomenclatura como um escudo.
Apesar de reconhecer que caminhar lado a lado das concepções folclóricas, de estudiosos, de antropólogos e de pesquisadores foi essencial para a tradição não sucumbir, hoje o Reinado tem solidez para caminhar sem esse vínculo.
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"A gente não precisa ser chamado de folclore porque Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora em sua plenitude, não é folclore em lugar nenhum", destaca Belinha.