SABIA NÃO, UAI!

Conde Belamorte, o barbeiro mineiro dos poemas sobrenaturais

Terno preto, uma longa capa e caveiras. Conheça a história do escritor que transformou a morte em personagem de sua vida e de seus versos

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“Cemitério da Saudade, 18 de novembro de 1963. Caríssimos mortais: para o discurso que vou fazer dispenso o vosso carinhoso aplauso, porque o cemitério é um lugar de sossego, de respeito e, sobretudo, de silêncio.” Este texto, lido em voz alta por um homem misterioso, vestido com longa capa preta, para seguidores que o rodeavam com velas e um caixão, é o desfecho de uma das muitas histórias de um dos mineiros mais singulares do século passado.

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Joviano Martins Soares Filho, nascido no fim dos anos 1920 em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, trabalhou em livraria, foi trompista na banda da Polícia Militar, barbeiro, alfaiate e um prolífico poeta, que chegou a ser comparado a Augusto dos Anjos (1884-1914), devido à temática que carregava nas estrofes, nas roupas e no nome: a morte.

O Sabia Não, Uai!, série especial sobre fatos e curiosidades da cultura mineira, foi aos arquivos do Estado de Minas para contar a trajetória de Joviano Martins Soares Filho, que ganhou fama em BH no começo da década de 1960 com a alcunha de Conde Belamorte. Um escritor que transformou sua barbearia no Bairro Santa Efigênia em espaço para saraus de poesia à meia-noite, encontros ambientados com caveiras, caixão e sob a luz de velas.

A aparição do Conde

O talento, a elegância e a excentricidade do Conde Belamorte foram reveladas pela primeira vez ao grande público pelo Diário da Tarde (dos Diários Associados) na edição de 28 de agosto de 1961. Pouco tempo depois, Belamorte virou celebridade nacional devido a uma série de reportagens com texto de José Franco e fotos impressionantes de Luiz Alfredo para a revista O Cruzeiro, também dos Diários Associados.

A primeira delas, publicada em 21 de outubro de 1961 com o título “Belamorte: um barbeiro do outro mundo”, traz uma foto em duas páginas do Conde andando entre túmulos do Cemitério da Saudade, Região Leste de BH, e as impressões do repórter sobre o poeta: “Com a sua filosofia de cruzes e catacumbas, explica que ama a morte, com todos os seus espectros e fantasmagorias, porque sente excesso de vida”, diz trecho da reportagem.

O belo ensaio fotográfico para a revista e o estilo único do Conde, que sabia usar as habilidades como alfaiate para valorizar sua identidade visual, fizeram Belamorte ganhar fama e seguidores. Na barbearia, localizada na esquina das ruas Tenente Anastácio de Moura e Tenente Garro, no Santa Efigênia, o poeta promovia saraus para os clientes, sempre à meia-noite, quando enfeitava com velas e caixão o imóvel, demolido a partir de 2013 para a construção de um prédio residencial.

Dia de juras, amor e cemitério

Em fevereiro de 1962, o Conde Belamorte voltou às páginas da revista O Cruzeiro em outro inusitado ensaio fotográfico e reportagem. Desta vez, ao lado da jovem italiana Gillida Bettoni, que estava de passagem pela capital mineira, se apaixonou e passou a atender pelo apelido de Condessa Belamorte.

 

O Conde e a Condessa Belamorte em passeio pelo Cemitério do Bonfim, em BH
O Conde e a Condessa Belamorte em passeio pelo Cemitério do Bonfim, em BH Luiz Alfredo/O Cruzeiro/Arquivo EM

“Antes de conhecer o Conde eu era uma criatura folgazã. Depois de conhecê-lo, renunciei incondicionalmente ao mundo da alegria pelo Reino da Morte e da meditação em que ele vive. Quando notei o meu verdadeiro sentimento pelo Belamorte, tomei a firme decisãode acompanhá-lo com suas ideias e, por isso, vesti-me toda de negro e passei logo a usar o seu medalhão da morte”, disse Gillida à reportagem.

O casal, entre um passeio e outro por cemitérios de BH, tinha até o sonho de conseguir um caixão duplo para a casa onde moravam. A união, porém, não durou muito.

Noite de gala, velas e caixão

No ano seguinte, o Conde retornou às páginas de O Cruzeiro, na edição publicada na véspera do Natal de 1963, sob a manchete “Belamorte: à meia-noite de autógrafos”. A reportagem tinha acompanhado, no fim de novembro, o lançamento do livro de poemas “A dança dos espectros”, no qual Belamorte leu a íntegra do texto que abre esta reportagem.

 

Em 1963, Belamorte levou multidão às portas do Cemitério da Saudade, em BH, para lançamento de livro
Em 1963, Belamorte levou multidão às portas do Cemitério da Saudade, em BH, para lançamento de livro Luiz Alfredo e José Nicolau/O Cruzeiro/Arquivo EM

Na ocasião, o Conde e a Condessa já estavam separados e a barbearia fechada. Belamorte dedicava-se à alfaiataria enquanto preparava a publicação do livro. Como descrito no discurso-manifesto, o local de lançamento foi o Cemitério da Saudade. O horário inicial seria meia-noite, mas foi antecipado para as 20h, temendo represália daqueles que “andam falando, absurdamente, ser profanação”, conforme explicou o próprio Conde.

Trecho do poema “Soneto da minha morte”, do livro "A dança dos espectros"

“Eu amei a Verdade e, desta sorte,

Ainda a acho cheia de nobreza

No turbilhão fantástico da Morte!”

Apesar da cautela, a noite de autógrafos no cemitério não agradou ao porteiro, que barrou o cortejo de dezenas de fãs e curiosos. Belamorte contornou o problema deixando um caixão na esquina. Acendeu umas velas, fez a leitura em voz alta da obra e iniciou a sessão de autógrafos. “A pena de urubu, preparada especialmente para a ocasião, serviu para dar maior autenticidade à atmosfera desejada pelo barbeiro-poeta de BH”, descreveu a reportagem de O Cruzeiro, que acompanhou o lançamento do livro em 18 de novembro de 1963, uma segunda-feira.

Joviano Martins Soares Filho morou quase cinco décadas na Vila Kennedy, na periferia do Rio de Janeiro, onde manteve a rotina de escrever poemas e viver como Conde Belamorte. Ele morreu, aos 83 anos, em 15 de fevereiro de 2013, enquanto dormia em seu caixão.

O Sabia Não, Uai!

As reportagens do Sabia Não, Uai! mostram de um jeito descontraído histórias e curiosidades relacionadas à cultura mineira. A produção conta com o apoio do vasto material disponível no arquivo de imagens do Estado de Minas, formado também por edições antigas do Diário da Tarde e da revista O Cruzeiro, e por vídeos digitalizados da TV Itacolomi.

Todos os vídeos desta temporada e das anteriores estão disponíveis nas plataformas de podcast e no canal do Portal Uai no YouTube.

O Sabia Não, Uai! foi um dos projetos brasileiros selecionados em 2023 para participar do programa Acelerando Negócios Digitais, do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ), iniciativa apoiada pela Meta e desenvolvida em parceria com diversas associações de mídia (Abert, Aner, ANJ, Ajor, Abraji e ABMD) com o objetivo de atender às necessidades e desafios específicos de seus diferentes modelos de negócios.

Arquivo EM

Se você gostou de mais esta história recontada pelo especial Sabia Não, Uai!, aproveite para acompanhar nossa série sobre a memória do jornalismo brasileiro. O Arquivo EM conta, a partir de buscas na Gerência de Documentação e Informação (Gedoc) dos Diários Associados em Minas Gerais, reportagens quase esquecidas sobre Minas Gerais e o país.

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