“Tossindo nos cantos. O lenço na boca, o sangue. A mão na garganta, a perna já bamba. A força não tanta, a vida tão tonta”. Os versos que narram o sofrimento de uma pessoa com tuberculose integram a Música Popular Brasileira desde 1979. Mais precisamente, estão no álbum “Recado”, de Gonzaguinha – artista que viveu em Belo Horizonte na década de 1980 e foi sepultado na mesma capital, em 1991, após um acidente de carro no Paraná.
A história de Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior em Belo Horizonte e sua intimidade com o lindo lago do amor, a Lagoa da Pampulha, já é de conhecimento público. O que pouca gente sabe é que a trajetória dele, assim como a da cidade, é cercada por cicatrizes deixadas pela tuberculose.
Nascido em 1945, Gonzaguinha perdeu a mãe, Odaléia Guedes dos Santos, antes de completar 3 anos de idade, vítima da doença que é tema deste especial do EM. Foi para a mãe que ele escreveu "Odaléia, Noites Brasileiras", a música cujos versos abrem este texto. Já separada de Luiz Gonzaga, ela perdeu a vida em um sanatório, equipamento público criado à época para isolar pessoas infectadas pelo bacilo de Koch. Em BH, um local parecido também foi inaugurado pelo médico Hugo Werneck em 1928, no Norte da capital.
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Mas onde Gonzaguinha, a tuberculose e BH se cruzam? Assim como a mãe, o artista sofreu com a doença durante a vida, apesar de ter se curado. O primeiro diagnóstico aconteceu ainda na adolescência, quando morava na favela Morro de São Carlos, no Rio de Janeiro. O segundo já adulto, quando já existiam medicamentos mais eficazes para combater a bacteriose.
Uma das motivações de Gonzaguinha para vir para BH por volta de 1981 foi justamente ampliar a qualidade de vida. Mesmo curado da tuberculose, ele apostava que na capital mineira, longe da vida noturna do Rio de Janeiro, poderia ter uma saúde melhor.
Quem conta essa história é Mariana Gonzaga, professora da Faculdade de Farmácia da UFMG. Filha de Gonzaguinha, ela hoje coordena o projeto Cuidado Farmacêutico na Tuberculose, iniciativa do Ministério da Saúde que oferece cursos para estudantes e graduados na área e que terá Minas Gerais como piloto. “A tuberculose marca a história da nossa família. [...] A primeira música do meu pai foi aos 14 anos, então a doença estava junto com ele. No segundo tratamento, ele precisou ficar isolado por oito meses. Foi neste contexto do segundo diagnóstico que nasceu o disco ‘Começaria Tudo Outra Vez...’”, diz.
“Ele tinha consciência de que não viveria além dos 24, 25 anos. Minha avó morreu de tuberculose aos 26. Ele mesmo brincava que precisava pegar a doença mais vezes, porque naquele momento, em que você coloca sua vida em cheque, é frutífero para a composição. Quando ele veio para BH, anos depois, foi um momento de maturidade para ele. Maturidade para estar mais saudável e não precisar passar pelo sofrimento da doença novamente”, afirma Mariana Gonzaga.
Semente plantada
Quando chega em BH, Gonzaguinha – segundo relatos da filha Mariana e da viúva Louise Margarete Martins, a Lelete, com quem se casou na cidade – muda completamente seus hábitos. Passa a dar voltas frequentes de bicicleta na Lagoa da Pampulha e até mesmo dentro da Universidade Federal de Minas Gerais.
Com brilho nos olhos, a hoje professora e pesquisadora da UFMG Mariana Gonzaga relembra dos passeios que fazia na garupa do pai pelo campus da Federal na Pampulha. “Alguns funcionários mais antigos até lembram de mim ainda criança, quando vinha com meu pai. Ele estava num momento muito bom da vida. Estava no auge da vida dele, muito feliz com o que havia construído, com a família e a carreira”, relembra a filha.
Questionada pela reportagem se a obra do pai influencia sua vida acadêmica voltada a doenças infectocontagiosas, especialmente a tuberculose e hanseníase, Mariana não esconde a emoção. Poeta do cotidiano sob a ótica do oprimido e do trabalhador, Gonzaguinha nunca deixou de demarcar sua posição política progressista. Ao se voltar a enfermidades tão estigmatizadas, como as bacterioses citadas, a professora da UFMG segue a mesma cartilha, ainda que em área completamente diferente.
“Eu e meus irmãos nunca fomos criados para ficarmos distanciados das pessoas. Eu precisava retribuir para o mundo essa minha vivência. Pensar em doenças infecciosas negligenciadas faz parte da minha carreira desde a graduação. É um retorno à origem da minha família, porque a vida de parte das pessoas hoje não é tão diferente da realidade da minha avó na década de 1940. Mulheres, pretos e favelados ainda morrem de tuberculose. Eu trabalho para mudar isso”, diz.
Outro ensinamento do pai carregado pela filha pesquisadora é a valorização da simplicidade e a necessidade de exercitar a autocrítica como combustível para evoluir. O fato de ele ter alcançado uma plenitude de composição enquanto vítima da tuberculose evidencia o quão Gonzaguinha, como artista, não era uma extensão de sua vida cotidiana, mas representava a si próprio como pessoa.
“Ele era assim em casa: uma pessoa que pede desculpa, que recalcula a rota, que pensa sobre como ele poderia ser melhor. Eu não tenho como me desviar desse caminho. Sempre reflito e penso em melhorar. Quando estou tocando a vida de um paciente com tuberculose, por exemplo, preciso ter essa responsabilidade. Eu sigo esse paralelo, apesar de ser a única Gonzaga que não trabalha com a arte”, afirma a professora.
ENTREVISTA
Mariana Gonzaga, hoje especialista no combate à doença, conta ao EM a história da família a partir do ponto de vista da tuberculose: "Minha avó morreu aos 26"
Mariana Gonzaga
Professora Adjunta da Faculdade de Farmácia da UFMG e pós-doutorada
Minas voltou a ultrapassar 5 mil casos de tuberculose nos últimos anos, algo que não acontecia desde 2008. Por quê?
Acho que tossir ganhou um novo sentido por conta da pandemia. Estima-se que um terço da população mundial tenha a doença na forma latente. Antes, as pessoas não procuravam atendimento pela tosse. Achavam que era uma gripe, um resfriado. Com a COVID, isso muda. Então, os diagnósticos aumentam.
Esses dados preocupam?
Sim e não. É parcialmente bom que estejamos detectando mais casos, porque muitas pessoas sequer procuravam o sistema de saúde antes. Há uma busca ativa também. Mas precisamos pensar no que está acontecendo na sociedade que facilita o desenvolvimento da doença. O comportamento das pessoas influencia bastante, como alimentação e sono. Se a doença sempre esteve latente, por que há mais manifestação dela hoje em dia? É preciso pensar nas mudanças socioeconômicas e de saúde da população.
O que pensa sobre os casos drogarresistentes?
Há uma preocupação grande com o aumento desses casos. Antigamente, a pessoa tinha que passar por um tratamento dobrado, de até mesmo 12 meses. Hoje, já houve uma evolução com um tratamento mais curto, só com medicamentos via oral, sem injetáveis. Isso é bom, porque diminui o abandono. A pessoa ir até o equipamento de saúde para receber o injetável sempre é um desafio. Mas esse é aumento global, não só no Brasil.
A capa do disco “Grávido”, lançado por Gonzaguinha em 1984, na qual ele segura a filha Mariana, entrevista pelo EM e especialista em doença infectocontagiosas, entre elas a tuberculose. O disco de 10 faixas gravado pela EMI tem como música de abertura “Lindo Lago do Amor”, canção em que o compositor homenageia a Lagoa da Pampulha, cartão-postal de BH. “Quando o Gonzaga morreu (em 29 de abril de 1991, vítima de um acidente no interior do Paraná), estava em seu melhor momento de saúde. Ele tinha uma grande paixão por Belo Horizonte. Dava voltas e voltas na lagoa. Não estava fumando nem bebendo. Estava realmente muito feliz”, contou, em rápida conversa com a reportagem por telefone, Louise Margarete Martins, a Lelete, viúva do artista e moradora da capital mineira.
Música composta por Gonzaguinha para a mãe, que morreu vítima da tuberculose aos 26 anos
Odaléia, Noites Brasileiras
Ai de quem quer negar
Esse mar de veneno
Mil vezes maldito
Na inconsciência das vidas à margem
Há de ser
Minha cantora esquecida das noites brasileiras
Te amo
Compositora esmagada dessa barras brasileiras
Te amo
Minha heroína doente do peito
Minha menina da luta
Minha morena catita
Ah! Minha preta
Furando cartão, cantando nos becos
Tossindo nos cantos
O lenço na boca, o sangue
A mão na garganta
A perna já bamba
A força não tanta
A vida tão tonta
Eis Odaléia em busca de um sonho dourado
Vai Odaléia, delírio de um dia
Léia, retrato guardado em meu quarto
Minha Dalva, minha estrela guia
Na fome de amor
Na voz estancada
No ouro da lama
Nos mil desenganos
Saiba, Odaléia pequena
Te ouço
Te vivo
Te amo
Noel Rosa, o Poeta da Vila
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Poeta da vila em BH contra a tuberculose
Em 10 de agosto de 2015, o Estado de Minas contou a história de outro artista renomado da música brasileira que procurou refúgio contra a tuberculose em BH, acreditando que o ar puro da cidade seria capaz de curá-lo. Se Gonzaguinha buscou qualidade de vida após dois diagnósticos da doença, Noel Rosa morou na cidade ainda enfermo. Foram quatro meses na capital mineira por prescrição médica, em 1935. De início, hospedou-se na casa dos tios Mário e Carmem, na Rua São Manoel, no Bairro da Floresta. Com muito custo, concordaria em se internar no sanatório localizado onde hoje fica o Centro de Especialidades Médicas, ligado à Santa Casa. Mas, não deu muito certo: o autor de "Com que Roupa?" escapava para as noitadas e fazia acontecer. Não se sabe se por falta de evolução no tratamento ou por pura impaciência, mas o sambista retornou para o Rio no mesmo ano. Morreu em 1937, dois anos depois, aos 26, deixando cerca de 200 composições.
