Desde o início de abril, a cidade de Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, passou a contar com um espaço vivo onde a leitura dialoga com a oralidade, com a vivência e com a produção cultural da comunidade. O Kilombo Literário nasce com a proposta de ir além do acesso aos livros: promover reconhecimento, estimular a produção de narrativas próprias e transformar a leitura em ferramenta de emancipação social.
O Kilombo Literário passou a operar com uma proposta que vai além da formação de leitores. Instalado no bairro Palmital e inaugurado no último dia 4, o espaço surge com um objetivo direto: fazer com que crianças e adolescentes se reconheçam nas histórias que leem, em um contexto marcado pelo afastamento crescente dos livros, intensificado após a pandemia e pelo uso excessivo de telas.
O projeto foi idealizado pela ativista e pesquisadora Poliana Ramos e viabilizado por meio do 2º Edital Acredita Favela, da Associação Cultural Seu Vizinho, que ofereceu suporte financeiro e técnico. A iniciativa se insere em uma lógica de descentralização do acesso à cultura, levando para a periferia um equipamento que combina leitura, formação e identidade.
Mais do que uma biblioteca, o Kilombo Literário reflete uma trajetória pessoal construída dentro do próprio território. Moradora do Palmital, Poliana Ramos atua entre o Direito, a educação e o movimento negro, com foco na defesa de direitos e na promoção da equidade racial. Essa vivência atravessa diretamente a concepção do projeto.
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“Minha trajetória é marcada pelo compromisso com a justiça social e com a garantia de direitos para populações historicamente invisibilizadas. O Kilombo Literário nasce como continuidade de um processo de letramento racial e de emancipação por meio do conhecimento.”
A própria Poliana conecta o projeto a um percurso anterior, que ganhou forma ainda em espaços de formação e pesquisa. A ideia começou a se estruturar em 2023, durante sua participação em cursos de elaboração de projetos culturais, mas tem raízes mais profundas, ligadas à experiência cotidiana no território.
“O projeto nasce da vivência no território e do contato direto com essas desigualdades. Existe uma distância muito grande entre crianças e adolescentes e os livros, que se agravou depois da pandemia. Ao mesmo tempo, faltam referências que dialoguem com a nossa realidade.”
Esse diagnóstico orienta a estrutura do Kilombo Literário. O acervo, com mais de 70 títulos, foi construído a partir de uma curadoria que prioriza autores negros, principalmente brasileiros, além de incluir obras de autores indígenas e conteúdos que abordam diversidade em diferentes dimensões sociais.
Moradora do Palmital, Poliana Ramos transforma sua atuação no Direito, na educação e no movimento negro na base do Kilombo Literário
Acervo e vínculo
Poliana destaca que a proposta afrocentrada não está apenas nos títulos escolhidos, mas na forma como o leitor se relaciona com o conteúdo.
“Priorizamos livros que possibilitam identificação, pertencimento e reconhecimento. Hoje, meninas e meninos conseguem se ver nas histórias, algo que eu não tive na infância. Isso fortalece a autoestima e muda a relação com a leitura”, afirma.
Títulos como O Pequeno Príncipe Preto, de Rodrigo França, e Meu Crespo é de Rainha, de bell hooks, integram o acervo e ajudam a construir esse vínculo entre leitor e narrativa. A proposta é que o livro deixe de ser um objeto distante e passe a dialogar com a realidade de quem lê.
O funcionamento do espaço também reforça essa lógica. Além do empréstimo de livros, o Kilombo Literário promove rodas de conversa, mediações de leitura e atividades em escolas da região, ampliando o alcance do projeto.
Em uma dessas ações, realizada na Escola Estadual Lafaiete Gonçalves, a apresentação do livro “Na Minha Pele”, de Lázaro Ramos, gerou identificação imediata entre os estudantes, que reconheceram o autor e se aproximaram da obra a partir dessa conexão.
A reação dos alunos sintetiza o objetivo do projeto. Poliana aponta que a leitura ganha outro significado quando há identificação direta com o conteúdo.
“Quando a pessoa se reconhece, o livro deixa de ser algo distante. A leitura passa a fazer sentido e, a partir disso, ela também entende que pode contar a própria história”, afirma.
Inserido em uma região marcada por desigualdades históricas, o Kilombo Literário se consolida como um espaço de resistência cultural e produção de conhecimento. Ao colocar a experiência negra no centro da construção do acervo e das atividades, o projeto amplia o debate sobre quem produz saber e quais narrativas ocupam espaço.
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Poliana resume o impacto que busca alcançar com a iniciativa ao falar sobre formação e pertencimento. “Não é só sobre formar leitores. É sobre formar sujeitos que se reconhecem, que se valorizam e que entendem que suas histórias importam.”
