O Ministério Público Federal acionou a TV Globo por dano coletivo pelo suposto uso incorreto da palavra “recorde”. O valor da multa é de R$10 milhões de reais. A ação foi protocolada no dia 29 de janeiro pelo procurador da república Cléber Eustáquio Neves, lotado em Uberlândia, região do Triângulo Mineiro.
Na ação, é descrito que a Rede Globo de Televisão, por meio dos repórteres e apresentadores, têm adotado a pronúncia da palavra “recorde” como proparoxítona (“récorde”), em flagrante descompasso com a norma culta da Língua Portuguesa. Nos autos do processo, a ação cita três matérias que teria ocorrido a pronúncia da palavra como proparoxítona.
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A justificativa dada pelo órgão é de que no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras, VOLP, adotado no Brasil como a referência oficial para a ortografia, a palavra “recorde” é paroxítona, com a sílaba tônica em cor: reCORde. Portanto, não leva acento gráfico e não deve ser pronunciado como proparoxítona (RÉ-cor-de).
Outro argumento usado é que os principais dicionários normativos da Língua Portuguesa (Aurélio, Houaiss, Michaelis), em consonância com o VOLP, registram a palavra recorde como substantivo masculino, com tonicidade paroxítona e grafia sem acento. Nenhum deles registra "récorde" como forma correta ou variante.
No processo ainda é dito que o uso reiterado da pronúncia pela emissora que detém a maior audiência do país, exerce um efeito multiplicador nocivo, e induz milhões de telespectadores ao erro, especialmente estudantes em fase de formação e candidatos a concursos públicos. O Ministério Público Federal não se opõe à realização de audiência de conciliação.
Linguista questiona
A linguista, mestranda e pesquisadora de estudos linguísticos da UFMG, Tainá Rocha da Silva, aponta que existem outras demandas mais importantes para o estado do que fiscalizar a pronúncia de uma palavra.
“Eu acredito que a língua portuguesa tem problemas mais graves do que a pronúncia da palavra “recorde”. Temos o sucateamento da educação pública, falta de incentivo à leitura para a população, uma grande quantidade de pessoas analfabetas. Problemas linguísticos bem mais graves que a pronúncia de uma palavra”, diz a linguista.
Segundo dados do Censo Demográfico de 2022, dos 163 milhões de pessoas de 15 anos de idade, ou mais 151,5 milhões sabiam ler e escrever um bilhete simples e 11,4 milhões não sabiam. Isso representa uma taxa de alfabetização de 93,0% e de analfabetismo de 7,0% para esse grupo.
Tainá questiona a observação referente ao uso dos dicionários normativos. Ela concorda que é necessário que os jornais sigam um padrão comunicativo, mas compreende que delimitar um modo correto de se falar uma palavra, desconsidera as diferentes variações linguísticas do Brasil, além de esquecer que uma parte da população não foi letrada.
“Ao meu ver, essa ação produz um impacto muito mais negativo que positivo, pois acredito que uma empresa grande como a Globo, ser processada por pronunciar “errado” uma palavra, mostra para a sociedade que falar fora do “padrão” é cabível de punição”, diz. “Há uma variedade de modos de falar o português. Acredito que quando uma pessoa vê esse tipo de processo, gera um estranhamento e até mesmo uma insegurança sobre a forma como elas falam”, indica.
Sobre o dano coletivo citado pelo Ministério Público, é desconsiderado um aspecto importante na formação da língua, que é a vivacidade dela e a capacidade de se atualizar com o tempo. Tainá enfatiza esse ponto, de que não existe um modo correto de falar e que a pronúncia em si não é uma mudança, e sim uma variação na fala.
“A língua é viva, é múltipla, ela abarca várias particularidades sociais, culturais e étnicas. Temos influências no nosso português de vários lugares do mundo, de países africanos, de países europeus. Temos gírias, sotaques, nossa língua falada no Brasil é muito rica e viva”, aponta a linguista.
Essa delimitação expõe diferentes aspectos da formação da nossa língua. Muitas das nossas palavras tiveram influências de diferentes nacionalidades. As palavras “axé”, “samba”, “bagunça”, “cachimbo” e “fubá” são exemplos de palavras que tem a sua origem nos povos africanos (como o quicongo, o quimbundo e o umbundo) que vieram para o brasil no período escravocrata. A palavra “recorde” não faz parte dessa leva, porém demonstra que muitos dos nossos dialetos foram influenciados por línguas estrangeiras.
Tainá entende que é importante sim ensinar a norma padrão para os brasileiros, pois esse conhecimento permitirá que portas se abram, mas que delimitar um modo correto de se falar, e ignorar todas as diferentes influências na nossa língua, reforça o preconceito linguístico visto no Brasil.
“Devemos levar para a população um conforto em falar, abraçar as nossas variantes. É importante que as pessoas tenham contato com a forma padrão, utilizem, conheçam ela, mas é inadmissível que elas se sintam inseguras para falar”, aponta.
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*Estagiário sob supervisão da subeditora Juliana Lima
