O carnaval de BH chega a 2026 consolidado como um dos maiores carnavais de rua do país, impulsionado pelo crescimento do turismo, pelo impacto econômico e pela diversidade de desfiles espalhados pela cidade. Com expectativa de que turistas representem cerca de 20% do público total, a festa reafirma seu papel como espaço de cultura, encontro e expressão identitária, especialmente nos territórios que carregam histórias fundamentais da capital mineira.
É nesse contexto que o Bloco Afro Magia Negra volta a ocupar as ruas do bairro Concórdia, região conhecida como a Pequena África de Belo Horizonte, levando para o carnava uma proposta que une ancestralidade, educação antirracista e a potência ritual dos tambores.
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Um bloco criado para enfrentar o racismo pela cultura
Criado em 2013, em Belo Horizonte, pelo artista Camilo Gan, o Bloco Afro Magia Negra nasceu da necessidade de reunir pessoas comprometidas com o enfrentamento ao racismo e com a promoção da afrobetização, conceito que orienta o trabalho do coletivo ao longo de seus mais de 12 anos de atuação.
Mais do que um bloco carnavalesco, o Magia Negra propõe uma experiência educativa e ritualística, que utiliza expressões corporais, dança e códigos sonoros ancestrais como ferramentas de letramento racial. A proposta não é “carnavalizar” a cultura negra, mas apresentá-la como tecnologia social capaz de informar, sensibilizar e transformar, conectando passado, presente e futuro por meio da música e do corpo.
A criação do mundo por ODÙDÚWÀ e a narrativa do arrastão
Em 2026, o arrastão do Bloco Afro Magia Negra traz como tema “A criação do mundo por ODÙDÚWÀ”, inspirado na cosmovisão do povo yorubá. A narrativa é baseada nos Itãs, histórias que preservam as memórias e os feitos dos orixás no Ayê, o mundo dos humanos, transmitidas pela tradição oral.
A proposta do tema é apresentar ao público uma leitura ancestral da criação do mundo, convidando à reflexão sobre outras formas de compreender a vida, o tempo e a coletividade. Segundo Camilo Gan, a escolha é também um gesto pretagógico, que amplia o acesso a conhecimentos historicamente marginalizados e reafirma a centralidade das culturas africanas na formação do Brasil.
Com tema inspirado na cosmovisão yorubá, o arrastão traduz em música, corpo e símbolos ancestrais a narrativa da criação do mundo
No arrastão, três elementos simbólicos da criação são representados: a corpo oralidade, associada à galinha-d’angola; o Agemo (camaleão), representado pela banda de rua; e o sopro funfun, responsável por dar vida aos seres humanos, simbolizado pelas Yiaminas, organização ligada ao bloco e formada por mulheres do reinado mineiro e de nações do candomblé em Minas Gerais.
A banda de rua do Magia Negra é composta atualmente por cerca de 80 integrantes, entre percussionistas, instrumentistas de sopro e dançarinas(os). O corpo, segundo o fundador, é elemento central do cortejo, funcionando como veículo de memória, narrativa e criação coletiva.
Ritual, território e memória no Concórdia
O arrastão percorre as ruas do bairro Concórdia, território historicamente ligado às expressões da afromineridade e das culturas negras em Belo Horizonte. A manifestação incorpora elementos característicos dos blocos afros, como toques de tambores ancestrais, dança, clarins, aromas, água de cheiro e o tradicional banho de pipoca, símbolo de saúde, proteção e renovação.
O “esquenta” do desfile é marcado pelo Samba de Terreiro, em reverência aos povos originários, aos encantados do Brasil e às energias que sustentam os patrimônios culturais afro-brasileiros. Em 2026, o bloco recebe convidados como Mestre Oluodé Rogério (SP), Gil da Viola (BA), além de mestres e artistas de Minas Gerais e de outras regiões do país.
Homenagem a Marku Ribas
Neste ano, a tradicional homenagem Opá Magia será dedicada ao compositor, cantor, instrumentista e ator mineiro Marku Ribas (1947–2013). Nascido em Pirapora, às margens do Rio São Francisco, o artista construiu uma obra marcada pelo diálogo entre Minas Gerais, África e as musicalidades das Américas.
Em 2026, o bloco presta homenagem a Marku Ribas, artista mineiro cuja obra conecta Minas Gerais às matrizes africanas e às musicalidades das Américas
Perseguido pela Ditadura Militar, Ribas viveu no exílio na França, onde chegou a participar de gravações com os Rolling Stones. No Brasil, teve composições gravadas por nomes como Alcione, Elza Soares, Paula Lima e João Donato, além de atuar no cinema em produções como Batismo de Sangue e Lula, o Filho do Brasil. Para Camilo Gan, Marku é uma referência fundamental da estética sonora do Magia Negra, cuja obra permanece viva e atual.
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Quando e onde o Bloco Afro Magia Negra sai em 2026
O Bloco Afro Magia Negra desfila na quarta-feira de carnaval, 18 de fevereiro de 2026, no bairro Concórdia. A concentração acontece a partir das 12h, na Praça Gabriel Passos, conhecida como Praça do Magia. Após a cerimônia de abertura, às 15h, tem início o arrastão pelas ruas do bairro, reunindo ancestralidade, música e celebração coletiva no carnaval de Belo Horizonte.
