O período sazonal se aproxima, o carnaval – com a consequente aglomeração de pessoas – bate à porta, e a preocupação com as doenças respiratórias cresce em Minas Gerais e na capital. Depois de um ano com forte alta nos casos graves, especialmente da influenza (gripe), e elevado número de internações por bronquiolite, as autoridades e especialistas em saúde fazem coro em torno de uma mesma recomendação: se tem vacina, tome.


Na quarta-feira, a Prefeitura de Belo Horizonte reforçou o chamado às gestantes para que se vacinem contra o vírus sincicial respiratório (VSR), um dos principais causadores da bronquiolite, garantindo, com isso, a proteção de bebês em seus primeiros meses de vida. Na semana passada, o titular da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), Fábio Baccheretti, fez o mesmo apelo. Para outros grupos de risco da população, a ordem é manter em dia o calendário vacinal, de olho também na influenza e na COVID-19.


As estatísticas de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) respaldam a preocupação. Segundo dados atualizados na segunda-feira (12/1) no Portal de Vigilância em Saúde da SES, 5.035 pessoas precisaram ser internadas em Minas Gerais no ano passado por desenvolver quadros graves de influenza, o que significa uma alta em torno de 223% na comparação com 2024, quando o total foi de 1.549. As mortes chegaram a 487, contra 158 no ano anterior. Ainda no ano passado, foram confirmados 803 casos de SRAG com internação provocados por infecção pelo vírus sincicial respiratório (VSR) no estado, que resultaram em 13 mortes, seis delas de bebês de menos de 1 ano de idade.


Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), no ano passado, a capital mineira recebeu 3.631 solicitações de internação para tratamento de bronquiolite – considerando os quadros provocados por diversos agentes etiológicos. A alta foi de 23% em relação aos 2.952 pedidos do ano anterior. Considerando somente os quadros provocados pelo sincicial vírus, o número saltou de 485 em 2024 para 983 no ano passado, com elevação de 102,6%.


Os casos de SRAG com hospitalização envolvendo todos os vírus e bactérias a que estão relacionados chegaram a 44.820 em 2025, contra 27.611 no ano anterior. Os óbitos subiram de 2.262 para 2.804 na mesma comparação. A escalada da SRAG no estado em 2025 coincidiu com o período de maior circulação de pessoas durante o carnaval, observa o infectologista e especialista em medicina preventiva e social Carlos Starling. A aglomeração intensifica a transmissão dos vírus respiratórios e, por isso, o momento é de atenção especial.


A vacinação também tem peso alto, comenta. “Outro fator importante é a baixa cobertura vacinal e a circulação de vírus que escapam às cepas previstas e contidas nas vacinas. Lembrando que esses vírus são instáveis e possuem uma enorme capacidade de sofrer mutações”, diz Starling. Ele destaca que “há uma diferença significativa entre vacinados e não vacinados em relação ao risco de agravamento e morte, conforme alertado pelas publicações científicas sobre o assunto”.


COVID-19 AINDA PRESENTE

Apesar de a influenza ter prevalecido no ano passado e a pandemia de COVID-19 ter ficado no passado, o coronavírus segue ativo. Em 2025, as internações provocadas pela doença somaram 1.756, com 284 mortes, segundo dados da SES. Em Belo Horizonte, foram 355 internações, com 59 óbitos. Por isso, Starling alerta para a importância da vacina, que segue disponível na rede SUS.


“A COVID-19 preocupa pela baixa taxa de vacinação e pelo desconhecimento sobre a disponibilidade de tratamento efetivo disponibilizado gratuitamente na rede pública. Esses fatores colocam pessoas mais vulneráveis em risco de desenvolver formas graves da doença”, declara o especialista.

PREPARAÇÃO “PRUDENTE”

Segundo o infectologista, dados de novembro de 2025 indicam uma queda de SRAG em nível nacional, mas pode haver um repique. “A preocupação maior concentra-se em dois períodos específicos: o carnaval (com aumento esperado de transmissão) e a sazonalidade dos vírus respiratórios. O próprio governo estadual se prepara com estrutura hospitalar ampliada, especialmente para atendimento pediátrico, e intensificação de campanhas de vacinação, o que considero prudente”, analisa Starling.


Em coletiva sobre o assunto no dia 8, o secretário Baccheretti informou que o Hospital João Paulo II, que é pediátrico, tem capacidade para receber um fluxo diário até 50% maior do que a média, assim como acrescentar oito leitos de urgência e aumentar o número de médicos e da equipe de enfermagem. “No momento o João Paulo II está vazio. Mas estamos prontos para essa abertura. Também vamos mandar os recursos para o interior para depender menos de Belo Horizonte”, diz.


Ainda segundo Baccheretti, em 2025 foram criados 50 leitos de CTI que seguem disponíveis para a população do interior. Além disso, para março deste ano, está prevista a entrega do Hospital Regional de Teófilo Otoni com leitos de UTI tanto para atendimento pediátrico quando adulto.


PREVENÇÃO É ESSENCIAL

Fábio Baccheretti também frisou que a melhor forma de combater as doenças respiratórias é por meio da vacinação. “Nós temos vacina para isso tudo, não podemos deixar de vacinar”. Segundo o Painel de Cobertura vacinal do Ministério da Saúde, foram aplicadas mais de 7 milhões de doses da vacina contra a influenza em Minas Gerais em 2025, chegando a 58,5% de cobertura no público-alvo, e 54.238 doses contra vírus sincicial respiratório A e B. Ainda de acordo com o painel, nenhuma vacina destinada ao público com menos de 2 anos atingiu a meta de 95%.


Em dezembro de 2025, o Ministério da Saúde iniciou a distribuição nacional da vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR) destinada a gestantes a partir da 28ª semana com o objetivo de reduzir casos de bronquiolite em recém-nascidos. A mãe passa os anticorpos para o bebê ainda na gestação e eles podem durar até dois anos, cobrindo a faixa etária mais vulnerável a essas infecções.


Minas Gerais recebeu 62.165 das 673 mil doses do primeiro lote que foi enviado para todos os estados. Até o início de janeiro, 46.920 gestantes foram vacinadas. “A vacina foi aprovada agora e não deu tempo de as crianças já nascerem protegidas. Elas começaram a nascer agora. Então, nós temos muitas crianças de 2 anos que não estão, protegidas. Ou seja, não vai mudar o comportamento da doença este ano por essa nova vacina, mas certamente daqui 2 ou 3 anos a bronquiolite vai diminuir”, afirma Baccheretti. Enquanto isso, o secretário recomenda que os pais evitem expor seus filhos pequenos a ambientes com grandes aglomerações a fim de evitar a contaminação.


CONVOCAÇÃO EM BH

Na quarta-feira, a Prefeitura de Belo Horizonte reforçou a convocação para que gestantes, a partir da 28ª semana de gravidez, recebam a vacina contra o VSR, principal causador da bronquiolite em recém-nascidos. O imunizante é aplicado em dose única, com recomendação de nova imunização a cada gestação, e está disponível nos 153 centros de saúde, no Serviço de Atenção à Saúde do Viajante e em postos extras. Os endereços podem ser verificados on-line.


Desde o início da campanha, em 5 de dezembro, foram aplicadas cerca de 4,4 mil doses da vacina contra o VSR em gestantes na capital. “A vacinação das grávidas antes da chegada do período de sazonalidade das doenças respiratórias é muito importante para garantir a proteção dos bebês desde o nascimento, ajudando a evitar casos graves e internações por bronquiolite nos primeiros meses de vida”, destacou a subsecretária de Promoção e Vigilância à Saúde, Thaysa Drummond.


Para Starling, a expectativa do novo imunizante é bastante promissora. “Estudos clínicos, como o Matisse, confirmam o benefício da vacinação materna. No entanto, ressalto a necessidade de aumentar a adesão, que permanece baixa”. O especialista defende, ainda, a disponibilização ampla do Nirsevimabe, anticorpo monoclonal de longa duração indicado para proteção imediata de bebês não vacinados contra formas graves de VSR. Starling lembra que outras estratégias de prevenção também devem ser mantidas pela população, incluindo a higiene das mãos, educação para tossir e uso de máscaras por pacientes sintomáticos. (Com informações de Mariana Costa) 

Calendário da gestante

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Além da vacina contra o sincicial vírus, o calendário vacinal do SUS também oferece outros imunizantes para gestantes, como as vacinas contra a gripe, a covid-19 e a dTpa, que protege contra difteria, tétano e coqueluche. A orientação da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte é que as grávidas mantenham esses imunizantes em dia. Para verificar a situação vacinal, basta procurar um dos 153 centros de saúde da capital ou o Serviço de Atenção à Saúde do Viajante.

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