A Prefeitura de Montes Claros (MG), no Norte do estado, busca uma solução definitiva para acolher o grupo de 41 venezuelanos formado por sete famílias da etnia indígena Warão, incluindo homens, mulheres e crianças, que encontram-se em um abrigo improvisado no Ginásio Municipal Ana Lopes desde que chegaram à cidade, em 14 de novembro.
A gestão municipal alega que tem garantido assistência e “acolhimento humanitário” aos venezuelanos, que foram deixados em Montes Claros por um ônibus de Itabuna (BA), onde se encontravam. Explica que o atendimento no abrigo improvisado é feito em ‘caráter emergencial” e que eles terão que deixar o ginásio, uma vez que o espaço precisa ser liberado para competições especializadas, uma delas a etapa municipal dos jogos escolares estaduais, que será disputada em fevereiro.
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Os venezuelanos afirmam que desejam permanecer e trabalhar em Montes Claros e querem que a prefeitura providencie a moradia para eles em definitivo. Isso gerou um impasse, já que, além de anunciar que precisa da desocupação do ginásio poliesportivo, a Municipalidade informou que também não pretende arcar com o aluguel de casas para os venezuelanos, dispondo-se a apoiá-los na localização de imóveis, de forma que eles mesmos venham a custear a locação.
Os imigrantes também alegam que, mesmo após a deposição do ditador Nicolás Maduro da Presidência da Venezuela, pretendem continuar morando no Brasil, com a justificativa de que recebem o auxílio do Programa Bolsa Família, benefício que não existe no país de origem.
Ginásio Ana Lopes, usado como abrigo improvisado para venezuelanos em Montes Claros
O líder do grupo da etnia Warão, Cacique Amario Mota, disse ao Estado de Minas que, na sexta-feira (9/1), recebeu a ligação de uma pessoa que teria se apresentado como representante da Prefeitura de Montes Claros e que informou que os venezuelanos deveriam deixar o ginásio esportivo, sem oferecer outra moradia.
“Não podemos ficar na rua. Temos crianças pequenas. Precisamos de um lugar para morar e colocar nossas crianças na escola”, declarou o cacique. Ele acrescentou que o grupo deseja que a prefeitura viabilize um local para os venezuelanos morarem na cidade. “Queremos casa mesmo”, disse Amario, reclamando do calor no ginásio poliesportivo.
Ouvido pelo Estado de Minas, o prefeito de Montes Claros, Guilherme Guimarães (União Brasil), afirmou que desconhece que algum funcionário da prefeitura tenha ligado para o líder dos venezuelanos para pedir a saída imediata do grupo do ginásio poliesportivo e que não deu nenhuma ordem nesse sentido. “Até o presente momento não há registro, autorização ou conhecimento por parte da administração municipal de qualquer contato com esse teor realizado por servidor ou representante da prefeitura”, assegurou.
“Cabe salientar que o ginásio não é o local adequado para a moradia, ainda mais, tratando-se de crianças. Já sugerimos ao responsável buscar uma moradia digna, que deverá ser arcada pelos próprios (venezuelanos)", declarou o chefe do executivo municipal.
O prefeito reafirmou que a prefeitura “não aluga diretamente” residências para os venezuelanos, “mas dará todo o apoio para a identificação de um local adequado para a devida locação a ser efetivada próprio grupo familiar”.
Guimarães salientou que a gestão municipal está iniciando a temporada de competições esportivas de 2026 e precisa da liberação do Ginásio Ana Lopes para os torneios especializados. “Nesse sentido, o ginásio deverá estar apto para a sua funcionalidade”, pontuou.
“O Município esclarece ainda que a permanência provisória do grupo no ginásio ocorre em caráter emergencial e temporário, mas eles podem a qualquer tempo buscar provisões, conforme a disponibilidade financeira que administram, como por exemplo, a buscar de imóveis para locação, pois percebem valores suficientes para tanto’, relatou o prefeito de Montes Claros.
Ele afirmou que a prefeitura “segue em articulação com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, para garantir a rede de assistência social e demais órgãos competentes, avaliando medidas possíveis dentro dos limites legais, estruturais e orçamentários do Município”.
“A prefeitura ressalta que continua garantindo os atendimentos essenciais ao grupo acolhido, incluindo assistência à saúde, segurança, acompanhamento pela rede de assistência social e fornecimento de alimentação, conforme as possibilidades e atribuições do Município”, afirmou o gestor municipal.
Dignidade humana
Guilherme Guimarães lembrou que os venezuelanos foram acolhidos em caráter emergencial em Montes Claro por uma questão de “dignidade humana”. “A administração municipal reafirma seu compromisso com os princípios da dignidade humana, do acolhimento humanitário e do respeito aos direitos dos imigrantes, destacando que qualquer encaminhamento relacionado a moradia e inserção social deve ocorrer de forma responsável, planejada e institucional”, disse.
Destacou ainda: “o Executivo Municipal permanece aberto ao diálogo e à busca de soluções que conciliem a proteção social dos acolhidos com o interesse público e a capacidade administrativa do Município”.
Recebimento do Bolsa Família
O Cacique Amario Mota disse que a deposição do ditador Nicolás Maduro, capturado por ordem do presidente norte-americano Donald Trump e levado para os Estados Unidos, onde está preso, não vai mudar a vida dos venezuelanos abrigados provisoriamente em Montes Claros.
Ele explica que a intenção do grupo é permanecer no Brasil, especialmente, pelo recebimento do benefício do Programa Bolsa Família.
“Aqui, temos ajuda para comprar comida e roupa para as crianças. Lá (na Venezuela) não tem ajuda nenhuma”, disse o cacique, referindo-se ao benefício social. Ele informou que as sete famílias do grupo venezuelano acolhidas no Norte de Minas recebem o benefício do governo brasileiro – nos valores de R$ 1,2 mil mensais (as famílias que têm filhos pequenos, a maioria do grupo) e R$ 600 (sem filhos em idade escolar).
A crise humanitária no país vizinho durante o governo de Nicolás Maduro elevou de forma expressiva o número de venezuelanos residentes no Brasil atendidos pelo Bolsa Família. O total passou de 1.062 beneficiários do programa no fim de 2017 para 205 mil em setembro de 2025. O levantamento é do portal UOL.
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Os venezuelanos representam 61% dos 331 mil estrangeiros que recebem o benefício. Os dados são de setembro de 2025 e foram obtidos no Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, por meio da Lei de Acesso à Informação.
