Do sonho à vulnerabilidade: o drama venezuelano na Grande BH
Após migrar do país do Caribe para fugir da crise política e econômica, indígenas enfrentam precariedade em Betim. Mas ainda apostam em vida melhor no Brasil
Barracas de madeira e lona abrigam os indígenas da etnia Warao, em terreno sem saneamento básico crédito: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
Em um terreno sem pavimento, barracas improvisadas, construídas com pedaços de madeira e lona, estão amontoadas. Ao seu redor, há tijolos empilhados, mato alto, roupas estendidas nos varais, resíduos e objetos pessoais jogados no chão. No local, não há acesso regular à água potável, energia elétrica ou saneamento básico. Assim vivem indígenas da etnia Warao, imigrantes da Venezuela, em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
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A ocupação teve início em agosto de 2023, de acordo com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), que informa que no local há 258 pessoas pertencentes a 40 famílias venezuelanas. Entre os ocupantes está EulioMedina Warao, de 40 anos, que contou ter vindo para o Brasil em 31 de dezembro de 2020, com a esposa e quatro filhos, em busca de boas condições de vida.
“Ninguém sai do seu país porque quer”, afirmou o indígena ao Estado de Minas, que foi ao território na Grande BH na última quinta-feira (8/1). Eulio Warao disse ter deixado a Venezuela por causa do governo do país e da repressão, mas ficou relutante em se aprofundar no tema. Segundo ele, falar sobre política pode ser perigoso. Desde 2013, a Venezuela vinha sendo presidida por Nicolás Maduro, forçosamente removido do poder no último dia 3, após sua captura e retirada do país numa intervenção militar dos Estados Unidos.
A intervenção não mudou os planos e sonhos dos indígenas. Eulio afirma que não tem expectativas de retornar à Venezuela nos próximos anos. A esperança dele, assim como de outros moradores da ocupação, está depositada no Brasil, mesmo que as condições atuais estejam longe de ser adequadas.
A situação de Eulio Warao e dos demais ocupantes do território foi reconhecida como de extrema vulnerabilidade e emergência humanitária, após visita técnica realizada em 19 de dezembro de 2025 por representantes do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Defensoria Pública e outros órgãos. Também acompanham a situação a Prefeitura de Betim, Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Cruz Vermelha e Conselho Nacional de Direitos Humanos.
Entre as dificuldades enfrentadas pelos indígenas está a insegurança alimentar. “Sem oportunidades estáveis de trabalho, muitas famílias dependem de doações de cestas básicas feitas por igrejas, organizações da sociedade civil e grupos voluntários, além da mendicância em vias públicas. Programas sociais, quando acessados, são insuficientes para garantir subsistência digna”, afirma o promotor de Justiça Walter Freitas.
As moradias também são precárias. Os espaços são pequenos e abrigam famílias numerosas, como constatou a reportagem do Estado de Minas. Por serem feitas de madeira e lona, o interior delas se molha quando chove. Nos dias de sol, ficam extremamente quentes, conta Antonio Sapata Warao, de 36 anos, que deixou a Venezuela em 2016 e já passou por outros estados do Brasil, como Pernambuco. O colchão que ele divide com a família ficou encharcado em decorrência de uma chuva recente. De acordo com EulioWarao, faltam materiais para construção de moradias mais resistentes, assim como itens de higiene e fraldas para as crianças.
A saúde dos indígenas também é uma preocupação das autoridades. De acordo com a Prefeitura de Betim, equipes da Estratégia de Saúde da Família fazem visitas regulares à comunidade desde 2024, promovendo ações de acompanhamento, orientação e inclusão nas campanhas de vacinação, “mesmo diante de desafios culturais e de resistência inicial ao atendimento”, conforme descreveu o Executivo municipal. Por sua vez, a Funai informou que também há participação da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).
Também não há saneamento básico regular na ocupação, aponta o MPMG. Sobre isso, o Executivo municipal informa que, desde 2024, realiza a coleta regular de resíduos sólidos no local e está em contato com a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) para articular alternativas para o fornecimento de água.
A prefeitura também informa que o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) tem orientado as famílias quanto ao Cadastro Único, segurança alimentar e acesso a benefícios socioassistenciais. “O acompanhamento permanece ativo, com foco na prevenção de violações de direitos”, afirma.
O grupo inclui crianças em idade escolar, que têm enfrentado dificuldade de adaptação nas escolas do município Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
EDUCAÇÃO E EMPREGABILIDADE
A educação das crianças também é uma questão a ser discutida. Segundo Eulio Warao, há cerca de 64 indígenas de até 14 anos na comunidade. Ele conta que algumas estão matriculadas na escola, mas têm sido alvo de bullying por parte dos colegas por serem imigrantes e indígenas. Os adultos da comunidade também se preocupam com o aprendizado de práticas e costumes ancestrais. Afastados de seu território de origem, eles temem que a língua Warao e o espanhol se percam.
A Prefeitura de Betim informa que a Secretaria Municipal da Educação (Semed) faz visitas técnicas no território para identificar crianças e adolescentes em idade escolar, orienta e encaminha as famílias para a unidade mais próxima. Além disso, o Executivo municipal afirma que garante que a possível falta de documentação não seja um empecilho para a matrícula. O número de crianças registradas em escolas ou creches não foi informado. Por sua vez, a Funai afirmou que também “acompanha o acesso das crianças Warao ao sistema educacional, considerando as dificuldades de adaptação ao modelo brasileiro, que se difere bastante dos costumes Warao.”
Para os homens, Eulio conta que há trabalho por diária no setor da construção civil e em outras áreas braçais, alternativas que têm sido as principais fontes de renda da comunidade. O indígena diz que essas opções são vantajosas para eles, pois as empresas providenciam transporte para buscá-los e deixá-los no território.
No entanto, a falta de oportunidades para exercerem os ofícios que realizavam na Venezuela dificulta a adaptação dos imigrantes. É o caso de John Vargas Warao, de 38, que era professor de pedagogia indígena e está no território em Betim há três meses. Ele conta que ainda no país de origem teve o título de docente cassado pelo governo, e que deseja voltar a lecionar, especialmente por acreditar que as crianças Warao precisam de acompanhamento de alguém da comunidade no ambiente escolar.
As mulheres indígenas também têm enfrentado dificuldades por falta de acesso aos materiais que utilizavam para fazer artesanato na Venezuela, como o buriti. Eulio Warao diz que isso impede que a comunidade tenha mais uma fonte de renda e coloca em risco as tradições ancestrais.
CONFLITO FUNDIÁRIO
Eulio Warao acredita que o principal passo para a melhoria nas condições de vida dos indígenas é a destinação de um território definitivo para eles, o que está em discussão. No entanto, ele ressalta que não basta ceder uma terra a eles sem as devidas condições e auxílio para eles se manterem. “Não queremos mudar de lona para lona. De lona, a gente fica aqui”, afirma.
O terreno ocupado está no centro de uma Ação de Reintegração de Posse que tramita na Justiça estadual, acompanhada pelas Comissões de Solução de Conflitos Fundiários do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) e do Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6), de acordo com o MPMG. A Funai também acompanha o processo de definição de uma área adequada para o assentamento da comunidade.
O TJMG informa que uma nova reunião para a vistoria da área indicada para doação para os Warao está agendada para o dia 28. Segundo o órgão, o terreno pertence ao Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra) e, obedecendo os trâmites legais, deverá ser doado à Funai antes de ser repassado às famílias. “Estamos otimistas e acreditamos que a solução está próxima”, afirmou o desembargador Leopoldo Mameluque em dezembro.
ALÉM DO ESTRUTURAL
“Além da precariedade estrutural, a comunidade enfrenta conflitos internos e externos. Internamente, há divisão entre dois grupos Warao, oriundos de diferentes regiões do Delta do Orinoco, com disputas por liderança, espaço e acesso a doações, frequentemente agravadas pelo consumo abusivo de álcool”, afirma o MPMG. Ao Estado de Minas, os entrevistados informaram que há uma divisão entre os indígenas, mas não relataram o motivo nem a ocorrência de conflitos.
O Ministério Público informa ainda que “há registros de mortes de crianças associadas à falta de assistência, tentativas de suicídio e denúncias de abuso sexual contra menor.” Em julho de 2025, uma menina Warao, de 12 anos, morreu em decorrência de complicações de uma gestação resultante de estupro. Um adolescente de 16, da mesma comunidade, foi acusado pela prática de ato infracional análogo ao crime de estupro vulnerável. À época, a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) recomendou a aplicação de medidas socioeducativas.
A Prefeitura de Montes Claros, no Norte de Minas, busca uma solução definitiva para acolher 41 venezuelanos de sete famílias da etnia indígena Warao, incluindo homens, mulheres e crianças, que estão em abrigo improvisado no Ginásio Municipal Ana Lopes desde que chegaram à cidade, em 14 de novembro. O grupo foi deixado na cidade por um ônibus de Itabuna (BA). Os venezuelanos afirmam que desejam permanecer e trabalhar em Montes Claros e querem que a prefeitura providencie moradia definitiva para eles. A municipalidade diz que não pretende arcar com o aluguel de casas para o grupo, mas se dispôs a apoiá-lo na localização de imóveis. Mesmo com a deposição do ditador Nicolás Maduro da Presidência da Venezuela, os imigrantes dizem que pretendem continuar morando no Brasil, onde recebem auxílio do Programa Bolsa Família, benefício que não existe no país de origem.