O início de um novo ano letivo é sempre cercado de expectativas para estudantes e pais. Mas, além de questões como a qualidade do ensino e as despesas com material escolar, cada vez mais uma outra preocupação ronda as famílias neste momento: os comportamentos nocivos entre alunos. Uma pesquisa mostra que o bullying é o principal motivo de apreensão no retorno às escolas.


A Ecglobal, uma empresa ligada à plataforma de marketing do Grupo Stefanini, entrevistou cerca de 250 pessoas para entender os anseios dos pais na volta às aulas. O bullying aparece com destaque entre as principais preocupações dos responsáveis, com 57%, seguido de questões relacionadas, como comportamentos inadequados dos colegas (48%), segurança física (47%), discriminação (39%) e falta de apoio emocional (33%), enquanto a pressão acadêmica representa 15% das menções de entrevistados.


Além disso, os pais acreditam que a pandemia ainda afeta negativamente a rotina dos alunos. Para 37% deles, o isolamento social afetou muito. Já 80% avaliam que o ensino remoto causou efeito negativo para a educação dos filhos.




A nutricionista Isabel Albuquerque, de 41 anos, conta que a filha Clara, de 13, já foi vítima de bullying e discriminação na escola em que estuda, e teme que isso possa acontecer novamente, já que a menina vai começar a estudar em um novo colégio neste ano. “Ela está indo para uma escola nova, e não tenho certeza de como isso vai funcionar.”


Os episódios aconteceram quando a menina tinha entre 9 e 10 anos, quando entrou em uma nova instituição de ensino, pois a família havia se mudado de cidade. “Foi muito difícil, tanto para ela quanto para mim. Agora nesta fase pré-adolescente, o que mais me preocupa é a falta de apoio emocional e preconceito, de uma forma geral, de cor, gênero e religião”, comenta.


A nutricionista diz que esse, inclusive, foi um dos motivos que a levaram a trocar a filha de escola novamente. Mesmo com a medida, a mãe afirma que sempre teme que a menina volte a ser alvo de bullying, embora acredite que a filha esteja mais preparada para lidar com a situação.


Isabel diz que as duas conversam muito, sobre tudo, e conta que Clara demonstrou receio quando da primeira mudança de instituição de ensino e de cidade. “A gente chegou à escola no começo da pandemia e foi muito difícil para ela se adaptar, ser aceita pelos colegas. Foi muito julgada, recebeu ofensas verbais on-line de colegas que mal a conheciam”, relata.

 

Segundo a mãe, embora não tenha sido fácil, a menina acabou conseguindo se adaptar. “Mas, no último ano, comecei a ter outros problemas envolvendo preconceito e discriminação. Não em relação a ela, mas que ela presenciou, foi contra e a escola foi conivente. A única pessoa que saiu prejudicada foi ela: teve que mudar de sala para não brigar com ninguém”, conta.


A nutricionista se sentiu frustrada com a posição da escola diante do problema. Ela conta que entrou em contato com a instituição e relatou os episódios anteriores, acabando por decidir tirar a menina do colégio. “Acho que falta mais interesse (da escola) nos problemas que envolvem as famílias. É muito fácil a gente julgar uma criança que comete qualquer tipo de preconceito ou discrimina alguém, sem saber o ambiente familiar em que ela está inserida”, considera.


Para ela, nesses casos, a escola tem obrigação de entrar em contato com os responsáveis e tentar resolver o problema. “Mas, para amenizar a situação, era mais fácil separar a criança que defendeu um amigo da pessoa que ofendeu essa criança”, afirma Ela ressalta que a troca de colégio só não foi feita naquele momento porque estava no meio do ano letivo.


Intolerância e isolamento

A jornalista Brenda Marques, de 43, classifica a intolerância à diversidade como o principal problema no ambiente escolar, atualmente. Ela conta que sua filha, Dakota, de 11, foi vítima de isolamento feito por alunos. A menina se envolveu em um acidente na escola e foi considerada a culpada pela situação, o que fez com que colegas se afastassem dela. “Muitas vezes, ocorre preconceito dos pais também. Eles, às vezes, preferem afastar a criança e falar que ela não pode ser amiga da outra, do que resolver o problema”, desabafa a mãe.


Ela considera a atitude das colegas em relação à filha como bullying. “Uma vez que uma menina não pode conversar com a outra, isso é um tipo de bullying também. É uma preocupação para mim, apesar de achar que hoje ela está sabendo lidar melhor com isso. Mas é um desafio muito presente”, considera.


Pressão dos pais e de colegas pesa

Com a experiência de quem enfrentou o problema, a jornalista Brenda Marques acredita que, hoje em dia, as crianças entendem melhor o que é o bullying, mas têm comportamentos desse tipo por influência, ou de outros colegas, por pressão do grupo, ou dos pais. Como consequência do isolamento que a filha sofreu na escola, a mãe conta que a menina passou a apresentar problemas de comportamento, como não querer ir às aulas e se sentir desmotivada.


Na época, Brenda procurou a coordenadora da escola. “Toda vez que chegamos para conversar com a escola, ela acolheu. Eles dizem que estão trabalhando essas temáticas, e eu já percebi uma melhora em relação ao ano passado. A escola também tem buscado caminhos para lidar com isso”, considera.


Porém, ela pontua que, às vezes, o problema não envolve apenas a escola, mas a própria sociedade. “Às vezes, mães e pais não sabem lidar bem com determinadas situações e privam os filhos de aprender a conviver com diversidade que existe em uma sala de aula. Cada criança é de um jeito, vai brincar, tem hora que vai se machucar.”


A jornalista comenta que até a polarização política foi motivo de problema entre crianças no ano passado. “Teve situação em que coleguinhas não aceitavam que os pais de outros votassem em um presidente ou em outro. Esse tipo de situação aconteceu muito, e é algo que eu vejo muito mais como um reflexo da sociedade na escola.”


Danos colaterais podem ser graves

A psicóloga clínica Cynthia Coelho explica que, ao mandar o filho para a escola, os pais esperam que ele esteja seguro, protegido e bem cuidado. Por isso, é provável que o bullying apareça em primeiro lugar, como a maior preocupação deles, porque os danos causados por esse tipo de situação são terríveis. Além disso, segundo ela, “estão associados ao desencadeamento de diversos tipos de transtornos mentais, tais como transtorno de ansiedade, depressão, crises de pânico, automutilação, fobia social, queda no rendimento escolar, evasão escolar e até, em casos mais graves, o risco de morte por suicídio”.


Um outro motivo destacado pela especialista é o fato de, muitas vezes, os pais demorarem a descobrir o drama vivido pelos filhos no ambiente escolar. “Frequentemente, crianças e adolescentes são ameaçados ou intimidados por seus agressores para não contarem nada sobre o que acontece na escola, o que gera o medo de serem mais excluídos ou agredidos física ou psicologicamente”, detalha a especialista. “Existe também a vergonha de contar para a família e a coordenação da escola sobre o que está acontecendo, como se eles fossem vistos como fracos, incapazes de se defender ou, ainda, culpados por tais agressões”, afirma.


Ainda de acordo com a psicóloga, assim, os agressores conseguem manipular as vítimas e ficar impunes até que a dor e o sofrimento das crianças e os adolescentes sejam tão grandes que eles precisem pedir ajuda. “São muitos os casos em que meus pacientes relatam na sessão de terapia o bullying que vêm sofrendo na escola e eu os ajudo a contar para a família e a comunicar à escola sobre o acontecido. É somente nesse momento que alguma medida de proteção passa a ser tomada, promovendo a mudança necessária para que eles fiquem bem e seguros novamente.”


Ela destaca que é preciso que a escola seja vigilante e diligente para tomar as medidas necessárias, com objetivo de garantir segurança à vítima e a mudança de comportamento do estudante agressor. “Infelizmente, não são todas as escolas que estão preparadas para lidar com isso, e muitas acabam por desvalorizar o acontecido, o que prejudica ainda mais o estado emocional da vítima de bullying, além de favorecer e reforçar o comportamento abusivo e dominador dos agressores.”


A especialista afirma ainda que, de certa forma, todos os comportamentos citados na pesquisa e temidos pelos pais têm em comum algum tipo de violência física ou psicológica envolvendo o aluno. “A preocupação dos pais é bastante pertinente, pois crianças e adolescentes expostos ao preconceito de qualquer ordem, à discriminação, às ofensas verbais e às agressões físicas ou emocionais podem desenvolver psicopatologias diversas. E os desdobramentos dessas psicopatologias e sentimentos vividos podem reverberar por toda a vida.”


Cynthia Coelho aponta que, dependendo do que foi vivido nesse ambiente, pode ser necessário buscar acompanhamento psicológico e psiquiátrico, além de trocar o aluno de escola para que ele consiga se ressocializar de forma saudável.

 

 

 

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