O que poderia ser um oásis com abundância hídrica na Região Metropolitana de Belo Horizonte tem se tornado motivo de preocupação para ambientalistas, pesquisadores e moradores da cidade de Pedro Leopoldo. Um estudo inédito realizado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) apresentou, nessa terça-feira (7/11), um diagnóstico ambiental da Lagoa de Santo Antônio, localizada dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Carste de Lagoa Santa, em Pedro Leopoldo. O diagnóstico é uma das etapas da pesquisa que tem como objetivo apresentar um projeto técnico de revitalização da bacia da Lagoa de Santo Antônio.

 




Os primeiros resultados da pesquisa apontam que as águas, superficial e subterrânea, podem estar sob ameaça devido ao crescimento urbano desordenado da região, bem como a possibilidade de doenças de veiculação hídrica vindas do esgoto e das águas pluviais.

O diagnóstico ambiental da Lagoa de Santo Antônio, coordenado pelo Instituto de Geociências (IGC) e realizado por uma equipe multissetorial da UFMG, aponta que, após a retirada de amostras da água, em quatro períodos diferentes no decorrer de um ano, foi detectada a presença da bactéria Escherichia coli vinda do esgoto, de fossas e das águas pluviais. A bactéria vem por meio de fezes humana e animal.

O resultado também aponta a presença de fósforo que, em grandes quantidades nas águas, pode causar a proliferação desenfreada de algas, que são responsáveis por limitar e esgotar o oxigênio para os peixes e outros organismos.

Pesquisa

Rua que ligava duas margens foi engolida pela água da Lagoa de Santo Antônio

Divulgação/Nivia Machado



A coordenadora da pesquisa e professora do Departamento de Geologia da UFMG, Maria Giovana Parisi, conta que foram feitas comparações dos resultados de amostra dos coliformes fecais em diversos pontos da Lagoa de Santo Antônio e na região. Onde fica a Estação Elevatória de Esgoto Lagoa de Santo Antônio II houve a presença do parasita em todas as fases de coleta.

Além da estação elevatória da Copasa, que objetiva a transferência dos esgotos de uma cota mais baixa do bairro para outra mais alta, a pesquisa também apontou a construção de um sistema de esgoto que passa por dentro da Lagoa de Santo Antônio.

“Colocamos um ponto de monitoramento perto da elevatória da Copasa e a tubulação subterrânea drena o esgoto da bacia toda para ela. Essa tubulação deve ser retirada, mas para que isso aconteça, os níveis de água da lagoa têm que baixar para a realização das obras.”

De acordo com o gerente-regional da Copasa, José Cláudio, a rede de esgoto foi instalada quando a Lagoa de Santo Antônio estava seca e, atualmente, a companhia de saneamento terá que reavaliar o seu sistema quando a água baixar.

“O que temos visto é que a água não vai baixar tão cedo, estamos aguardando a finalização dos estudos que vão indicar a linha geográfica de cota da lagoa para que, a partir daí, façamos a remoção da tubulação”.

Presença humana e mineradora


Quando chove, o lixo que fica na parte alta do bairro desce para a lagoa

Divulgação/Nivia Machado



Próximo a essa estação elevatória, ao menos 10 famílias vivem em constante medo de inundação.  Moradora da Rua Luís Pires Guimarães, Maria Madalena da Silva, de 82 anos, conta que mora perto da lagoa há mais de 50 anos e que, ao longo do tempo, presenciou parte da rua ficar submersa.

A aposentada lembra que o quintal de sua casa estava distante da margem da Lagoa de Santo Antônio e que a rua onde mora chegava até a outra margem. “Minha rua está virando um ribeirão a cada chuva. Quando chove, toda a água e lixo do bairro descem para cá. Asfaltaram o bairro, mas não se preocuparam com a drenagem da água da chuva. Vêm lixo, água de esgoto e sujeira para a minha casa.”

A idosa teme que, com o período de chuva, ela e a filha fiquem ilhadas. A aposentada suspeita que um sumidouro, ponto em que um curso d'água superficial penetra no solo, foi tampado impedindo o escoamento da água pluvial para o subterrâneo da lagoa. “Têm uns 30 anos que ela está enchendo e mesmo com os períodos de estiagem a água não baixa, parte da rua está debaixo d’agua e temo que daqui uns anos será a minha casa.”

Morador próximo a outro trecho da margem da Lagoa de Santo Antônio, na Rua Nadécio Felipe Teixeira, o pedreiro Eldon da Silva acredita que o adensamento populacional por meio da construção de novos loteamentos próximos ao bairro tem causado muitos transtornos aos moradores que moram próximos à lagoa. Ele deseja que seja feita uma revitalização no local, e, caso haja a necessidade de desapropriação do imóvel, o pedreiro defende uma indenização justa.

"Fizeram uma manilha de água de loteamento que sai na minha rua, teve uma chuva na semana passada e a água que desceu estourou tudo, estou cansado de ver esgoto jorrando no solo."

Sumidouro

De acordo com o diagnóstico apontado pela pesquisa, existe um possível barramento do sumidouro da Lagoa de Santo Antônio por uma antiga empresa que fazia mineração na região. Parisi diz que atualmente existem três mineradoras próximas à Lagoa de Santo Antônio que fazem detonações diariamente.

A coordenadora da pesquisa diagnóstica explica que a lagoa não é alimentada apenas com a água pluviométrica, a existência do aquífero subterrâneo que contribui com o volume da lagoa. Parisi ressalta que o relevo geológico não pode ser tratado como uma região comum. Os rios e lagos desaparecem para dentro das rochas, conhecidos como vales cegos, e têm cavidades no subsolo ainda desconhecidas.

“Precisamos ainda entender qual o caminho feito pela água em seu subterrâneo, quando há seca a lagoa é alimentada pelo aquífero que é extremamente frágil.”

Presente na apresentação do diagnóstico, a coordenadora de sustentabilidade da CSN Cimentos, empresa situada próxima à Lagoa de Santo Antônio, Michaely Reis afirma que aguarda os resultados finais do diagnóstico para que, assim, a mineradora de cimento possa colaborar na solução do problema.

Para o secretário municipal de Meio Ambiente, Mauro Lobato, além da preocupante qualidade da água, o aumento do nível da água envolve o crescimento habitacional desordenado na bacia de Santo Antônio, com a falta de drenagem das águas pluviais.

O secretário aponta a importância do envolvimento do Legislativo municipal com um trabalho de reavaliação da legislação de uso e ocupação do solo, além disso, o material do diagnóstico pode servir para a elaboração do Plano Diretor que está prestes a acontecer.

“Temos que ter um olhar diferente sobre o crescimento do vetor norte, para que possamos salvaguardar o patrimônio da Lagoa de Santo Antônio, com o diagnóstico elaborado pela UFMG vai servir de instrumento de orientação para ações na administração pública.”


Possíveis soluções

O estudo de diagnóstico que culminará na revitalização da Lagoa de Santo Antônio é fruto da demanda da população que contou com o apoio da ONG Lagoa Viva. De acordo com a coordenadora do projeto, a pesquisa tem levantamentos diagnósticos feitos por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores e alunos da UFMG dos departamentos de geografia, engenharia hidráulica, botânica, cartografia, setor de hidrogeologia e setor de paleontologia e espeleologia.

 Além das mudanças na legislação municipal por meio do novo Plano Diretor de Pedro Leopoldo, a coordenadora da pesquisa e professora do Departamento de Geologia da UFMG, Maria Giovana Parisi, também aponta a criação de uma Área de Proteção Permanente (APP) onde apresenta o limite da cota da área da Lagoa de Santo Antônio. “Com isso muitas casas poderão ser desapropriadas”.

Outras possíveis soluções: elaboração do projeto de urbanização previstos nos sistemas de vasão de água, jardins drenantes nas ruas e coletores de águas nos telhados das casas.

A apresentação do diagnóstico contou com a presença de Bruno Nonimato, procurador da República, e membros do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) responsáveis pela APA Carste de Lagoa Santa que puderam observar em campo os pontos mais críticos da Lagoa de Santo Antônio.

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