Com apartamentos cada vez menores, rotinas aceleradas e uma busca crescente por ambientes mais acolhedores, os kokedamas ganharam espaço nas decorações. As pequenas esferas de musgo que substituem vasos tradicionais passaram a ocupar salas, escritórios, varandas e até consultórios, unindo estética, natureza e praticidade.
A palavra kokedama significa literalmente “bola de musgo”, em japonês. A técnica possui ligação com a tradição do bonsai e surgiu como uma alternativa mais simples e acessível para o cultivo de plantas. Em Belo Horizonte, a bióloga e professora Daniela Camargos Costa de Souza se dedica à criação desses vasos e construiu o próprio negócio, a loja Kokedani.
A proposta consiste em substituir os vasos por uma esfera composta por terra, substrato e nutrientes, envolvida por musgo. “A planta tem ali dentro tudo aquilo que precisa para crescer: substrato, nutrientes, casca de arroz carbonizada, casca de pinus e adubo de liberação lenta”, explica.
O resultado chama a atenção pela estética minimalista, mas também pela funcionalidade. Os kokedamas podem ser apoiados em bases ou suspensos, criando a sensação de que as plantas estão flutuando. A técnica conquistou espaço principalmente em ambientes urbanos, onde muitas pessoas têm pouca área para jardins tradicionais.
Outro atrativo é a manutenção relativamente simples. “A rega geralmente acontece por imersão. Basta mergulhar a bolinha na água por cerca de cinco a 10 minutos. Dependendo da planta, uma ou duas vezes por semana costumam ser suficientes”, aponta.
Reconstrução
Para Daniela, os kokedamas não são só trabalho. A história começa em 2021, quando ela viu uma planta em uma bola no escritório do diretor da escola em que trabalhava e resolveu ir atrás. Ela encontrou ali um passatempo para ajudá-la em um momento extremamente difícil.
“Busquei os kokedamas inicialmente para saúde mental. Na pandemia, perdi seis familiares, inclusive minha mãe, e encontrei uma forma de ressignificar o luto”, conta.
No Dia das Mães daquele ano, uma data especialmente difícil após a morte da mãe, Daniela, que já era apaixonada por plantas, decidiu fazer um curso sobre a técnica em Belo Horizonte. “Pensei: ‘Vou fazer uma coisa que eu gosto’. E desde então me apaixonei por essas bolinhas. Em cada uma delas encontro um bem-estar maravilhoso”, destaca.
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Além de distração, os kokedamas também ajudaram Daniela a encontrar novas formas de compreender a própria existência. Ela diz que trabalhar diariamente com plantas trouxe uma percepção diferente sobre perdas e recomeços. “Uma coisa que me ajudou no luto foi entender o ciclo natural das plantas. Elas crescem, se desenvolvem, florescem e morrem. A vida também é assim”, reflete.
Com o tempo, amigos e conhecidos começaram a perguntar sobre as peças, encomendar arranjos e pedir presentes personalizados. O hobby cresceu e virou negócio. Hoje, além de vender as peças, Daniela também ensina a técnica em cursos e oficinas.
As principais plantas
Os kokedamas podem utilizar tanto folhagens quanto flores. A escolha depende muito do perfil do cliente e da rotina de quem vai cuidar da planta. Entre os campeões de vendas, estão espada-de-São-Jorge, lírio-da-paz, antúrios e orquídeas. “O antúrio é muito procurado porque tem uma coloração bonita e floresce praticamente o ano inteiro”, indica.
Para quem é iniciante, a indicação costuma ser outra. “Brinco que a espada-de-São-Jorge é quase uma planta de plástico. Você pode deixá-la vinte dias sem água que ela praticamente não reclama”, recomenda.
Daniela também criou versões personalizadas que misturam espécies diferentes dentro da mesma composição, chamadas por ela de “tamandama”. “Junto duas espécies que tenham as mesmas necessidades de água e iluminação. Posso colocar, por exemplo, orquídea com maranta. Quando a orquídea termina a floração, a outra planta continua ali trazendo beleza”, conta.
As plantas pendentes também estão entre as mais procuradas. “Jiboias, chifre-de-veado e palmeirinhas têm muita saída porque criam essa sensação de movimento e de planta suspensa”, cita.
Além dos kokedamas naturais, outra alternativa são as versões feitas com flores desidratadas. Daniela explica que elas passam por um processo de secagem e coloração, mas permanecem naturais.
“Muita gente pergunta se é de verdade porque fica tão bonito que parece artificial”, relata. As peças surgiram para atender a uma necessidade prática: ambientes internos que não oferecem condições adequadas para plantas vivas.
“Às vezes, a pessoa quer decorar um consultório, um escritório ou um lavabo sem iluminação natural. Não adianta colocar uma planta viva em um lugar onde ela não vai sobreviver. Nesses casos, as flores secas acabam sendo uma solução. É uma forma de levar a presença do verde e da natureza para o ambiente, mas sem necessidade de rega”, pontua.
Como cuidar?
Cada kokedama vai para o cliente com um cartão explicando os cuidados específicos para a espécie. A melhor forma de regar um kokedama é por submersão, garantindo que a bola de musgo e as raízes fiquem hidratadas por igual. A frequência varia de acordo com a espécie da planta e o clima, mas geralmente é de uma a duas vezes por semana, por alguns minutos.
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A maior parte dos kokedamas não precisam de iluminação direta, sendo indicada para ambientes internos. Mas algumas espécies exigem sol pleno. É o caso de jabuticabeiras, buganvílias, calandivas e abacateiros. Ela explica que a escolha errada do local costuma ser um dos principais motivos para problemas no cultivo. “Não posso colocar uma planta de sol dentro de casa e esperar que ela fique bonita”, alerta.
