O dia que nunca acaba

 

Uma das imagens que se tornaram símbolo do 11 de Setembro mostra pedestres correndo pelas ruas de Nova York enquanto uma das torres do World Trade Center desaba ao fundo. Registrada pelo fotógrafo Doug Kanter, a cena capturou o medo, a perplexidade e o caos que tomaram Manhattan naquela manhã e passou a integrar o conjunto de fotografias que preservam a dimensão humana da tragédia. Vinte e cinco anos depois, registros como este permanecem presentes na memória coletiva e ajudam a transmitir às novas gerações a dimensão de um acontecimento que transformou os Estados Unidos, alterou políticas de segurança e deixou consequências que ultrapassaram as fronteiras do país. A fotografia também preserva a experiência de quem estava nas ruas e viu, em poucos minutos, um dos principais símbolos de Nova York desaparecer em meio à fumaça e aos escombros.

Frank Razzano dormia quando ouviu uma pancada. Levantou, olhou pela janela do Marriott World Trade Center e viu papéis flutuando. Imaginou que uma rajada de vento tivesse quebrado alguma janela.

Voltou para a cama.

O segundo estrondo mudou tudo. O hotel sacudiu violentamente. Pela janela, Razzano viu concreto e aço despencando. A Torre Sul havia começado a desabar sobre parte do edifício.

Podia sentir o prédio se quebrando ao seu redor, recordaria.

Correu para o lado oposto do quarto. Naquele instante, teve certeza de que morreria.

"Estes são os últimos momentos da minha vida."

Quando o movimento cessou, Razzano percebeu que ainda estava vivo. Gritou no corredor perguntando se havia alguém. Uma voz respondeu.

Era um bombeiro.

Começou então uma fuga por um hotel parcialmente destruído. No quarto andar, encontrou outras pessoas. A escada havia sido interrompida pelos escombros. Parecia não haver caminho até o térreo.

O bombeiro foi direto: ninguém viria buscá-los. Teriam de sair sozinhos.

Encontraram uma abertura na parede. Uma viga de aço inclinada permitia alcançar o nível inferior. Um funcionário do hotel foi primeiro. Razzano abraçou a viga com braços e pernas e deslizou por ela.

Chegou ao segundo andar.

Mal teve tempo de respirar.

Ouviu um barulho que compararia a um trem de carga vindo do céu.

Era a Torre Norte.

Os pavimentos começaram a desabar uns sobre os outros. Razzano já havia sobrevivido à queda da Torre Sul. Agora a segunda torre vinha abaixo.

Pensou que não poderia ter sorte suficiente para sobreviver duas vezes.

Começou a rezar.

Mais concreto e aço caíram. Outra vez veio a escuridão. Outra vez esperou que o movimento terminasse.

E, outra vez, percebeu que estava vivo.

Seu relato é perturbador justamente porque a sobrevivência não tem um único clímax. Quando acredita ter escapado de uma morte, outra começa.

Naquela manhã, ele sobreviveu duas vezes ao desabamento das torres
.
E, nas duas, teve tempo suficiente para acreditar que seriam os últimos segundos de sua vida.

afp

“HOUVE MAIS AMOR DO QUE MALDADE NAQUELE DIA”

o instante da queda — Vista do alto de Manhattan, uma das torres do World Trade Center começa a se desfazer em uma massa de aço, concreto, fumaça e poeira. A fotografia captura uma fração de segundos do colapso, antes que o edifício desaparecesse e uma enorme nuvem avançasse pelas ruas ao redor. Do céu, a escala da destruição ganha outra dimensão: quarteirões inteiros parecem pequenos diante da estrutura que desaba no coração financeiro de Nova York. O registro foi feito pelo detetive Greg Semendinger, da Polícia de Nova York, a bordo de um helicóptero do NYPD. Suas fotografias formariam uma das raras sequências aéreas daquele 11 de setembro, mostrando de uma perspectiva incomum o instante em que a paisagem de Manhattan mudou para sempre.

Will Jimeno tinha acabado de iniciar o turno quando viu pela televisão as torres em chamas. Nove meses antes, o jovem policial havia recebido seu diploma da academia justamente no complexo do World Trade Center.

O World Trade Center, diria depois, simbolizava para ele a força dos americanos.

Naquela manhã, ligou para Allison, sua mulher, grávida da segunda filha, e seguiu com outros policiais para Manhattan.

Jimeno fazia parte de um grupo da Port Authority que entrou no complexo para ajudar na retirada das pessoas.

Então a Torre Sul desabou.

A estrutura ao redor deles cedeu. Jimeno ficou soterrado. Próximo dele estava o sargento John McLoughlin. Outros integrantes do grupo morreram.

O espaço era pequeno, quente e instável. Havia concreto e aço por todos os lados. Jimeno estava ferido e praticamente imobilizado. As horas passaram. Ele pensou na mulher, na filha e na criança que ainda iria nascer.

Acima deles, equipes procuravam sobreviventes numa paisagem em que quase nada lembrava os edifícios que existiam horas antes.

Jimeno permaneceu preso por mais de 13 horas.

Quando finalmente foi localizado, começou outra operação: chegar até ele sem provocar novos desabamentos. Foram necessárias horas para libertá-lo. Depois vieram hospital, cirurgias, reabilitação e as consequências psicológicas do soterramento.

Ao gravar sua história, Jimeno recusou-se a permitir que o pior dia de sua vida fosse lembrado apenas pelo terrorismo.

"Houve mais amor do que maldade naquele dia."

Em 2021, quando voltou a contar a experiência no programa educacional do 9/11 Memorial & Museum, condensou sua interpretação em outra frase: "A história do 11 de Setembro é uma história de pessoas ajudando pessoas."

Para Jimeno, sobreviver significou carregar também os nomes dos que não saíram. Christopher Amoroso, Dominick Pezzulo e Antonio Rodriguez estavam entre os policiais de sua equipe mortos naquele dia.

A memória que ele escolheu preservar não apaga o horror.

Faz o contrário.

Coloca ao lado dele aquilo que Jimeno viu enquanto o mundo parecia desabar: desconhecidos ajudando desconhecidos, policiais procurando colegas e homens entrando nos escombros sem saber se conseguiriam voltar.

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Foi assim que ele saiu.

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