O HOMEM NA POEIRA — Edward Fine tinha 58 anos e saía de uma reunião no 87º andar da Torre Norte. Estava no 78º, esperando o elevador, quando o voo 11 atingiu o prédio. Conseguiu alcançar uma escada e começou a descer. Pelo caminho, cruzou com bombeiros e socorristas que subiam em direção aos andares atingidos. Fine já estava na rua quando o colapso da Torre Sul levantou uma imensa nuvem de poeira sobre Manhattan. De terno, pasta na mão e o rosto coberto de pó, protegeu a boca e continuou andando. Foi assim que Stan Honda, fotógrafo da AFP, o encontrou e apertou o disparador. Fine não sabia que aquele instante se tornaria uma das imagens mais conhecidas do 11 de Setembro. A fotografia seria publicada pela revista “Fortune”, que inicialmente desconhecia a identidade do homem retratado. Foi o próprio Fine quem se reconheceu e procurou a publicação para contar quem era e como havia conseguido sair vivo da torre.
Dianne DeFontes chegou cedo ao trabalho naquela terça-feira. Era recepcionista do escritório de advocacia Drinker Biddle & Reath, no 89º andar da Torre Norte.
Olhou pela janela antes de sentar-se à mesa e guardou uma imagem que atravessaria os anos. O céu, recordaria, estava de um azul lindo.
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Às 8h46, o impacto a arremessou da cadeira. O teto da sala de reuniões caiu e quebrou a mesa.
Sem saber o que ocorrera, sua primeira hipótese foi uma bomba. Como alguém conseguiria colocar uma bomba tão alto?
Então apareceram funcionários de um escritório vizinho, alguns com o rosto coberto de fuligem. Disseram que tinham visto um avião atingir o prédio.
Dianne telefonou para uma amiga e pediu que ligasse a televisão. Do outro lado da linha, a amiga tentava contar os andares para descobrir onde estava o impacto.
Antes de desligar, Dianne deixou uma mensagem que era ao mesmo tempo despedida e tentativa de convencer a si própria:
"Eu sei que vou conseguir. Mas caso não consiga, dê um beijo na sua filha por mim."
Pouco depois, Pablo Ortiz apareceu. Usava capacete amarelo e carregava uma lanterna. Dianne recordaria sobretudo a ordem: era preciso ir agora.
Ortiz e Frank De Martini haviam conseguido abrir uma passagem para uma escada de emergência. Começou então uma descida que parecia interminável.
No caminho havia feridos, água, fumaça e bombeiros subindo na direção oposta.
Quando a Torre Sul desabou, às 9h59, Dianne ainda estava dentro da Torre Norte. As luzes piscaram. A escada tremeu. Veio um rugido.
Ninguém disse uma palavra.
Por alguns instantes, todos permaneceram agarrados aos corrimãos, esperando que o movimento terminasse. Nunca sentira nada parecido.
Dianne conseguiu chegar à rua e sobreviver. Ortiz e De Martini não. Depois de abrir a passagem que permitiu a fuga daquele grupo, os dois continuaram procurando pessoas presas nos andares superiores. Morreram quando a Torre Norte desabou.
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É por isso que, ao contar sua sobrevivência, Dianne acaba inevitavelmente contando a história dos homens que permaneceram no prédio.
Ela desceu.
Eles voltaram para cima.
“EU DESCIA PARA VIVER. E ELES SUBIAM PARA A MORTE”
A mulher da poeira — Marcy Borders tinha 28 anos e trabalhava havia pouco tempo no Bank of America, no 81º andar da Torre Norte. Quando o voo 11 atingiu o prédio, conseguiu alcançar as escadas e iniciou a descida. Já na rua, foi engolida pela nuvem de poeira levantada pelo desabamento da Torre Sul. Desorientada e coberta por uma camada cinzenta, refugiou-se em um prédio próximo. Foi ali que Stan Honda, fotógrafo da AFP, registrou a imagem que correria o mundo. Marcy ficou conhecida como “Dust Lady”, a “mulher da poeira”. Para ela, porém, o 11 de Setembro não terminou naquele dia. Nos anos seguintes, enfrentou traumas e dependência química antes de reconstruir a vida. Em 2015, morreu aos 42 anos, vítima de câncer de estômago. Borders acreditava que a doença pudesse estar relacionada à poeira tóxica a que foi exposta, embora essa relação específica não tenha sido comprovada.
O primeiro som que Bruno Dellinger guarda do 11 de Setembro não é o da explosão. É o dos motores do avião.
É um som que às vezes volta para assombrá-lo, diria muitos anos depois, ao gravar seu depoimento.
Francês radicado em Nova York, ele administrava uma pequena empresa no 47º andar da Torre Norte. Quando o voo 11 atingiu o prédio, sentiu a estrutura oscilar durante minutos. Não sabia o que havia acontecido. Não ouviu alarme nem ordem de evacuação.
De repente, sentiu que precisava ir.
Largou tudo.
Bruno calcula que começou a descer cerca de 15 minutos depois do impacto. Levaria aproximadamente 50 minutos para percorrer os 47 andares. O que encontrou dentro da escada permanece como uma das imagens mais duras de seu relato.
Havia três fluxos humanos. Pessoas como ele desciam. Feridos dos andares superiores também tentavam escapar, alguns carregados ou apoiados por desconhecidos. E, no sentido contrário, bombeiros e agentes de segurança subiam carregando equipamentos.
Apesar de tudo, Bruno recordaria: não havia pânico.
As pessoas abriam passagem para os feridos. Ajudavam quem não conseguia continuar sozinho. E davam espaço aos bombeiros.
Bruno observava seus rostos. Alguns estavam exaustos antes mesmo de chegar aos andares mais altos. Outros pareciam compreender melhor que os civis a dimensão do perigo.
A lembrança produziu a frase que atravessou seu depoimento:
"Eu estava descendo para viver. Eles estavam subindo para a morte."
Bruno finalmente alcançou a rua pela Church Street. Só então conseguiu olhar para trás e compreender parte do que estava acontecendo. Viu fogo, fumaça negra e o céu azul por trás das torres.
Pouco depois, a Torre Sul começou a cair. A luz desapareceu.
Bruno lembra da violência do deslocamento de ar e de um estrondo tão intenso que sua memória parece ter se recusado a conservá-lo. O som foi tão poderoso que ele o bloqueou.
Sobreviveu à nuvem de poeira e ao caos que tomou as ruas. Mas, quando reconstruiu aquela manhã, anos mais tarde, sua narrativa voltou repetidamente à escada.
Aos homens que desciam.
Aos feridos.
E àqueles que, enquanto todos procuravam a saída, escolheram continuar subindo.