Os últimos dias têm sido bem movimentados para Serafim Jardim, de 91 anos, que divide seu tempo entre Belo Horizonte e Diamantina, onde dirige a Casa de Juscelino há quatro décadas. Com as homenagens a JK pelos 50 anos de falecimento e sete décadas do início do mandato presidencial, Serafim tem comparecido a eventos também em São Paulo (SP). No início da tarde dessa quinta-feira (20/8), ele conversou com a equipe do Estado de Minas e posou para fotos na Praça JK, no Bairro Sion, na Região Centro-Sul de BH, onde há uma estátua do ex-presidente.
Diante do monumento, voltam lembranças do grande amigo. E se emociona: “Sinto muita saudade. Era uma pessoa sempre risonha, alegre, participante, um homem diferente. Para ele, a democracia estava em primeiro plano. Se estive vivo, hoje, tenho certeza de que este momento que vivemos seria diferente”.
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Serafim se recorda ainda, com carinho, de dona Julia Kubitschek de Oliveira (1873-1971), mãe de JK, e dona Sarah (1908-1996), com quem o ex-presidente foi casado durante 45 anos.
Sobre a data de 22 de agosto de 1976, Serafim Jardim explica que nunca teve dúvida de que JK foi assassinado.
Conforme o relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), aprovado em 29 de maio deste ano, JK teve “morte não natural e violenta” causada pela ditadura militar, regime em vigor no Brasil de 1964 a 1985. Com mais de 6 mil páginas, o relatório contestou a versão de que foi um acidente na Via Dutra. Instituída para ação de reconhecimento de mortos e desaparecidos políticos e esforços para a localização de corpos, a CEMDP é composta por sete membros, designados pelo presidente da República, dos seguintes órgãos e entidades: Ministério da Defesa, Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Ministério Público Federal, pessoas com vínculo a familiares de mortos e desaparecidos políticos e representantes da sociedade civil.
Serafim acredita que Juscelino foi morto a mando dos ‘homens de 64’, como se refere “aos que governaram o Brasil de 1964 a 1985, no período da ditadura militar”. Com lucidez impressionante e certeiro em datas e detalhes, ele diz que sua luta para esclarecimentos dos fatos sobre o acidente na Via Dutra (BR-116), em Resende (RJ), que vitimou JK e seu motorista e amigo, Geraldo Ribeiro, ganharam força há 30 anos. “Era tanta mentira, tantos erros e falhas nos laudos da perícia, com depoimentos suspeitos, que estive em Resende e pedi a reabertura do processo. Em seis dias, o caso, que estava arquivado, foi reaberto. Já estávamos no governo democrático (presidente José Sarney), mas mesmo assim o processo na Justiça ficou lento. Em 1996, no governo Fernando Henrique Cardoso, o caso chegou ao Ministério da Justiça, mas foi deixado de lado sob a alegação de ‘não ter nada de novo’.”
'OS HOMENS DE 64'
Autor do livro “Onde está a verdade?”, publicado em 1999, Serafim responde, sem pestanejar, à pergunta sobre os motivos do assassinato de JK. “Os responsáveis foram os ‘homens de 64’, dispostos a se perpetuarem no poder. Por isso, eliminaram os três líderes da Frente Ampla”, afirma sobre o movimento político de oposição à ditadura militar, lançado em 1966 pelo então ex-governador da Guanabara (atual Rio de Janeiro), Carlos Lacerda (1914-1977), e posterior adesão do também ex-presidente João Goulart, o Jango (1919-1976), cassado havia dois anos e exilado no Uruguai.
“Em 272 dias, os três morreram em condições suspeitas. Juscelino em agosto, Jango, quatro meses depois, e Lacerda, em maio de 1977”. O relato da Comissão Municipal da Verdade de São Paulo (Comissão Vladimir Herzog), em 2012, sugeriu que os óbitos podem estar relacionados à Operação Condor, uma articulação entre as ditaduras militares do Chile, da Argentina, do Uruguai, do Paraguai, da Bolívia e do Brasil criada para trocar informações e eliminar desafetos. “Todos esses fatos mostram que não foi um simples acidente de veículo”, observa Serafim. “O processo foi baseado no depoimento do motorista Ladislau Borges, condutor da carreta Scania-Vabis, que colidiu com o Chevrolet Opala, no qual estava JK, após ser atingido por um ônibus da Viação Cometa e invadido a pista contrária”. Sob o título de “Brasil de luto por Juscelino”, o EM fez uma extensa cobertura sobre o acidente ocorrido num domingo, o mesmo ocorrendo com o extinto “Diário da Tarde”.
SEDE DE JUSTIÇA
As lembranças fortalecem o desejo de justiça que acompanhou o diamantinense à frente da Casa de Juscelino. Ao mencionar o amigo querido, Serafim ressalta também as investigações feitas pelo jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, biógrafo do ex-presidente e autor de “JK e a ditadura”. Em depoimento à Comissão Municipal da Verdade de São Paulo, Cony, último profissional de imprensa que esteve com o ex-presidente antes da sua morte, disse não ter dúvidas de que JK foi assassinado num atentado político. Assim falou Cony à Comissão: “A máquina para matar JK na estrada estava pronta”.
Cony ainda lembrou que o ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes (1916-2005), na época exilado na Argélia, integrava uma rede internacional de informações, cujo objetivo era garantir a integridade e a vida de políticos exilados e perseguidos por ditaduras militares. “Arraes alertou que Jango e JK corriam riscos”, relatou o jornalista.
Ao lembrar o depoimento de Cony, Serafim conta que, por inúmeras vezes, Juscelino lhe disse: “Estão querendo me matar”. Em 7 de agosto de 1976, 15 dias antes da morte em Resende (RJ), circulou o boato de que ele teria morrido “num acidente de carro”. Ao receber a notícia, Serafim pediu a seu filho, residente em Brasília (DF), que fosse imediatamente à fazenda de JK, em Luziânia (GO). “Quando chegou lá, encontrou o presidente bem, e só um comentário: ‘Não me mataram, não’.”
Os comentários de JK aumentaram mais ainda após a morte da estilista Zuzu Angel (1921-1976), mineira de Curvelo, ocorrido em 14 de abril, portanto quatro meses antes do acidente na Via Dutra. “Mataram a Zuzu”, ele disse, sobre o atentado contra ela no Túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro (RJ), quando trafegava no seu veículo, um Karmann-Ghia. Zuzu denunciava a ditadura militar pela morte de seu filho, Stuart Angel Jones, militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Em agosto do ano passado, o governo federal retificou a certidão de óbito da estilista, reconhecendo oficialmente a responsabilidade da ditadura militar na sua morte.
A perda das duas vidas, Zuzu e JK, lembra Serafim, ocorreu quando era presidente do Brasil o general Ernesto Geisel (1907-1996) e chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), João Batista Figueiredo (1918-1999), mandatário entre 1979 e 1985. “Olho para o passado e tenho tranquilidade para falar no presente. Há muitos episódios que ficaram sem o devido esclarecimento – um deles sobre o que de fato ocorreu na Via Dutra. O presidente e Geraldo pararam durante 40 minutos num restaurante na rodovia. Tudo indica que ‘mexeram’ no freio do Opala, mais exatamente no conduíte que leva o óleo ao freio. O veículo poderia ter caído numa ribanceira logo depois, mas acabou colidindo com o ônibus da Cometa.”
AMOR PELO PAÍS
“Dos amigos mais antigos do presidente Juscelino, apenas eu estou vivo. Da família, mantenho contato com a filha Maria Estela Kubitschek e a neta Anna Cristina Kubitschek Barbará, filha de Márcia Kubitschek (1943-2000), e atual presidente do Memorial JK, em Brasília”, diz Serafim, para quem, independentemente de relatórios, a memória do ex-presidente deve ser sempre enaltecida como a de um grande brasileiro, um homem que amou seu país e plantou as sementes de uma nação moderna.
Para o livro agora lançado “O Código 12 - As surpreendentes revelações sobre o assassinato de JK pela ditadura militar”, do jornalista Alex Solnik (Matrix Editora), Serafim Jardim deu um depoimento. Conforme divulgado pela editora, a obra reúne três décadas de pesquisas, documentos, depoimentos e evidências técnicas para sustentar a hipótese de que a morte de Juscelino não foi um simples acidente, mas resultado de uma operação de sabotagem promovida pelo aparato repressivo da ditadura. Entre os pontos investigados por Solnik, está o laudo do engenheiro-perito Sérgio Ejzenberg, elaborado em 2019 a pedido do Ministério Público Federal, que concluiu que o ônibus da Viação Cometa, responsabilizado pelo acidente, não teria tocado o carro de JK. O autor também reconstitui as últimas horas do ex-presidente, incluindo uma reunião sigilosa às margens da Dutra, o estranho funcionamento do automóvel antes da viagem e a posterior destruição de provas relacionadas ao veículo.
TELA PREMONITÓRIA
Serafim Jardim mantém na biblioteca da Casa Juscelino um retrato do ex-presidente, a óleo, pintado por Di Cavalcanti (1897-1976), que apresenta uma curiosidade. A obra foi feita em 1952, quando ele ainda era governador de Minas. Mas já traz, no peito, a faixa de presidente da República, o que soa como premonição, crê o diretor do museu e memorial. O quadro foi doado à instituição em 2001 pelos irmãos Walduck Wanderley e Saulo Wanderley e por Sinval de Moraes.
Ainda na Praça JK, em BH, Serafim se recorda, com admiração, de dona Julia Kubitschek de Oliveira (1873-1971), mãe de JK, e dona Sarah (1908-1996), com quem o ex-presidente foi casado durante 45 anos.