Em 2 de novembro de 1944, o Estado de Minas publicou a visita à família de Sansão Alves dos Santos, de 26 anos, o primeiro morador da capital morto na Itália.

A confirmação chegou pelo rádio. No boletim oficial da “Hora do Brasil”, foi anunciada a morte de quinze soldados brasileiros na Campanha da Itália. Entre eles estava o nome de Sansão Alves dos Santos, jovem morador de Belo Horizonte. Ele passava a ser o primeiro habitante da capital mineira morto na Segunda Guerra Mundial.

A notícia ganharia dimensão local quando, em 2 de novembro de 1944, o jornal Estado de Minas publicou a reportagem sobre a visita à residência da família, na rua Plombagina, no Bairro da Floresta. A casa simples dos operários Joaquim Alves dos Santos e Maria Alves dos Santos tornava-se símbolo do impacto direto do conflito na cidade.


Natural de Cláudio, Sansão havia se estabelecido em Belo Horizonte, onde trabalhava como condutor de bonde na Companhia Força e Luz. Incorporado às tropas expedicionárias em 1942, integrou os contingentes enviados à Itália pela Força Expedicionária Brasileira (FEB), que combatia ao lado das forças aliadas contra o nazifascismo.

 

Reprodução

Dona Maria relatou que ainda não havia recebido qualquer comunicação oficial quando ouviu a notícia pelo rádio. Emocionada, afirmou que o filho sempre demonstrara “grande vocação para o serviço da pátria” e que estava “muito contente em poder juntar-se às forças brasileiras que iam bater-se na Europa em defesa da liberdade dos homens”. Ao recordar aquele momento, resumiu a dor e o orgulho em uma frase que atravessaria o tempo: “Soube pelo rádio. Meu filho partiu contente para defender a liberdade”, disse dona Maria Alves dos Santos ao saber que Sansão se tornara o primeiro morador de BH morto na guerra. Entre lágrimas, lamentava profundamente a perda, mas reconhecia que ele se sacrificara “por uma nobre causa”.

O pai, Joaquim Alves dos Santos, manteve postura serena. Trabalhador humilde, afirmou sofrer a dor da perda, mas compreender o dever cumprido pelo filho. Segundo o relato publicado à época, a família sentia profunda tristeza, porém entendia que o sacrifício de Sansão contribuía para algo “acima da própria vida”, a preservação dos valores defendidos pelo país.

O irmão mais velho, Salomão Alves dos Santos, reconstruiu a trajetória do combatente. “Morávamos em Cláudio, onde fizemos o curso primário”, contou. Sansão, segundo ele, tinha “temperamento enérgico”. Trabalhou em São Paulo, seguiu para Goiás, onde se ofereceu como voluntário no 6º Batalhão de Caçadores e obteve certificado de reservista de primeira categoria. Depois retornou à capital mineira.

Quando foi convocado pela 2ª Região Militar, relatou o irmão, recebeu o chamado “com o entusiasmo de quem é convocado para o cumprimento de um nobre dever”. Antes de embarcar, escreveu carta à família afirmando que seguia “com grande alegria” para o teatro da luta. Já da Itália, enviou correspondência relatando, com orgulho, a atuação dos brasileiros no front.

A publicação de 2 de novembro de 1944 consolidou o nome de Sansão Alves dos Santos na história de Belo Horizonte. A partir daquele registro, a capital compreendeu que a guerra deixava de ser distante para integrar sua própria memória. O primeiro morador da cidade morto na Segunda Guerra Mundial tornava-se símbolo da presença mineira nos campos de batalha da Itália.

“Soube da morte pelo rádio. Meu filho partiu contente para defender a liberdade”

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Maria Alves dos Santos, mãe de Sansão em entrevista ao Estado de Minas

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