Assim como em todo o restante do país, a história de Minas Gerais na Segunda Guerra Mundial ganhou contornos dramáticos em agosto de 1942, quando submarinos alemães torpedearam navios brasileiros na costa do país, provocando a morte de centenas de civis. As manchetes do Estado de Minas ecoaram a indignação nacional.
O ataque às embarcações desencadeou protestos e levou milhares de pessoas às ruas das capitais. Belo Horizonte não ficou de fora e teve manifestações públicas na Praça da Liberdade, na Região Centro Sul, e na Praça Sete, no Centro. Sob as palmeiras-imperiais e diante do Palácio da Liberdade, homens e mulheres, civis e militares, carregavam bandeiras e faixas contra a ação de Adolf Hitler (1889-1945) e apoiavam o envio de tropas ao front, na Europa. O torpedeamento foi entendido como uma forma de sabotagem econômica, pois impediu que as mercadorias exportadas pelo Brasil chegassem aos seus destinos – os países aliados. Dias depois, o Brasil declararia guerra ao Eixo.
Em setembro daquele mesmo ano, o estado viveu uma das mais expressivas mobilizações cívicas de sua história. Os sobreviventes dos navios torpedeados, em visita a Minas, cruzaram cidades do interior até chegar à capital, sob aplausos, discursos inflamados e homenagens públicas. A tragédia marítima converteu-se em símbolo de resistência nacional diante da chamada pirataria eixista e das tensões internas associadas à Quinta Coluna.
As estações ferroviárias transformaram-se em palcos de manifestações. Em Pedro Leopoldo, o comércio fechou as portas, indústrias suspenderam atividades e duas bandas executaram o Hino Nacional na chegada do trem. O prefeito Cristiano Otoni discursou exaltando a coragem dos marujos e a soberania brasileira. Em Nova Granja, operários da Companhia de Cimento Portland Itaú interromperam o trabalho para saudar os náufragos. Em Vespasiano, alunos do grupo escolar local compareceram incorporados à gare, levando flores. Em Santa Luzia e General Carneiro, autoridades, estudantes e moradores organizaram recepções semelhantes.
A chegada a Belo Horizonte foi marcada por grande concentração popular. Uma multidão recebeu os sobreviventes como heróis, em manifestações que transformaram o luto em afirmação patriótica. Na capital, eles também foram acolhidos na redação do EM, onde prestaram depoimentos e foram fotografados, dando rosto e voz à tragédia que mobilizara o país.
A violência contra os navios e os relatos dramáticos dos sobreviventes alimentaram um clima de forte beligerância no estado. Imigrantes classificados como “súditos do Eixo” tornaram-se alvo de hostilidade. Estabelecimentos foram depredados, a Casa d’Italia sofreu ataques e acabou confiscada, e famílias enfrentaram perseguições. Dois turistas japoneses chegaram a ser detidos sob suspeita de espionagem após fotografarem o “Pirulito” da Praça Sete. Empresas demitiram trabalhadores estrangeiros e processos trabalhistas registraram denúncias de discriminação, inclusive contra brasileiros convocados para a Força Expedicionária Brasileira (FEB).
lLuzienses lotadam estação para receberem sobreviventes dos navios bombardeados e Carta do front publicada no estado de minas
Guerra dentro de casa
Entre 1942 e 1945, o governo brasileiro estruturou 10 campos de confinamento destinados a estrangeiros considerados ligados ao Eixo. Em Minas Gerais, um deles funcionou em Pouso Alegre, no Sul do estado. Pesquisas indicam que 62 tripulantes de um navio alemão afundado pela esquadra norte-americana foram levados ao quartel da cidade. Ao fim da guerra, os detidos foram entregues às autoridades dos Estados Unidos.
Em 18 de junho de 1943, Belo Horizonte viveu a única simulação de bombardeio de sua história. Às 21h, sirenes tocaram e a cidade mergulhou em um blecaute de duas horas. Aviões sobrevoaram a Avenida Afonso Pena lançando fogos que imitavam bombas. O exercício, organizado pelo Serviço de Defesa Passiva Antiaérea e anunciado pelo EM, mobilizou a população: vitrines foram vedadas, faróis apagados e moradores buscaram abrigo enquanto a Rádio Inconfidência transmitia boletins.
Em 1944, começaram os embarques da FEB para a Itália. O Brasil enviou 25.334 combatentes, dos quais 2.947 eram mineiros. Dias após a chegada dos expedicionários ao front, o Estado de Minas passou a publicar regularmente as “Cartas do front”, aproximando o campo de batalha das casas mineiras. Em cidades como Belo Horizonte, Santa Luzia, Pouso Alegre, São João del-Rei e Juiz de Fora, cada edição era aguardada com expectativa.
A campanha terminou em 1945. Dos mineiros enviados, 82 não retornaram. A morte do primeiro belo-horizontino na Itália foi noticiada com destaque, transformando o luto individual em símbolo coletivo do sacrifício regional.
Anunciado o fim da guerra na Europa, em maio de 1945, Belo Horizonte voltou a ocupar suas praças centrais. Mais uma vez, uma multidão de belo-horizontinos tomou a Praça da Liberdade e a Praça Sete para celebrar o encerramento do conflito. Se em 1942 as concentrações expressavam indignação e clamor por reação, em 1945 as ruas foram tomadas por alívio, bandeiras, abraços e discursos de vitória – fechando simbolicamente o ciclo iniciado três anos antes.
Em 1945, Terezinha Costa Moreira tinha 18 anos e morava em São Sebastião do Campinho, distrito de Jaboticatubas. Hoje, aos 98 anos, em Santa Luzia, Tia Zizinha relembra o período: “Era um tempo triste, um clima ruim. A gente vivia no escuro, não só pela lamparina e pela falta de querosene, mas pelo peso da guerra no ar. O fim da guerra foi um alívio aos nossos corações”.
As notícias chegavam pelo EM, lido religiosamente pelo pai. “Meu pai assinava o Estado de Minas e a gente lia tudo, do começo ao fim. Quando vinham três ou quatro edições de uma vez, eu sentava e lia uma por uma. Era pelo jornal que a gente sabia da guerra, que a gente entendia tudo o que estava acontecendo.”
Ela colecionava as correspondências publicadas. “Eu colecionava as cartas dos pracinhas. Eles não podiam contar da fome, do frio, da morte. Falavam só dos atos de bravura”. Para Tia Zizinha, foi pelas páginas do jornal que o conflito atravessou a porta de casa – e permaneceu na memória.
Entre protestos nas praças, homenagens nas estações, confinamentos, exercícios militares, despedidas, celebrações e cartas censuradas, Minas construiu sua própria narrativa do conflito. A guerra esteve nas ruas, nas plataformas ferroviárias, nas redações, nos quartéis e nas salas de estar. E foi pelas páginas do Estado de Minas que essa experiência coletiva ganhou registro – transformando acontecimentos globais em memória mineira.
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Nas páginas seguintes, entre as centenas de mineiros que escreveram do front italiano, o leitor conhecerá 10 mineiros que tiveram suas cartas publicadas no Estado de Minas – vozes que atravessaram o Atlântico e ajudaram a eternizar, em papel e memória, a participação de Minas no maior conflito do século XX.
