Henri Ballot percorreu o bairro em busca de uma história semelhante à de Flávio da silva e encontrou a família Gonzalez, imigrantes porto-riquenhos com dez filhos, vivendo em um apartamento superlotado, cercado por lixo e infestação. Em seu diário, registrou:
Publicada em 7 de outubro de 1961, a reportagem de O Cruzeiro foi concebida como resposta direta à repercussão provocada pela Life. Mais do que apresentar uma nova denúncia, o material buscava reposicionar o debate, mostrando que a pobreza não era exclusividade brasileira e também se manifestava em uma das cidades mais ricas do mundo.
A estrutura narrativa adotada seguiu o mesmo princípio utilizado pela revista americana. A reportagem foi construída a partir do cotidiano de uma família, escolhida como eixo central para traduzir uma realidade mais ampla. Desta vez, o cenário era o Lower East Side de Manhattan, em Nova York – região próxima ao centro financeiro, mas marcada por degradação urbana.
O repórter e fotógrafo Henri Ballot percorreu as ruas do bairro em busca de um equivalente à história de Flávio da Silva. Encontrou a família Gonzalez, imigrantes porto-riquenhos com dez filhos, que viviam em um pequeno apartamento superlotado, cercado por lixo, ratos, percevejos e baratas.
“Nas calçadas recobertas de lixo, um homem remexia um monte de detritos. Encontrou um pedaço de pão, cheirou e, em seguida, comeu”, registrou Ballot em seu diário.
A narrativa acompanha o cotidiano da família, destacando a precariedade do espaço, a ausência de infraestrutura e o impacto direto dessas condições sobre as crianças. Em uma das passagens mais marcantes, o fotógrafo observa: “Reparei que as crianças não tinham nenhum brinquedo. As meninas abraçavam suas novas bonecas, chorando.” As bonecas e um carrinho de plástico foram comprados pelo próprio Ballot durante a produção da reportagem, como forma de registrar a reação das crianças diante de objetos até então inexistentes em seu cotidiano.
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O próprio diário de Ballot aprofunda esse retrato. Antes de chegar à casa dos Gonzalez, ele relata ter percorrido diversas famílias em situação de miséria até encontrar uma realidade que sintetizasse o que buscava mostrar. Sobre o núcleo familiar, escreve: “A mãe, cansada da luta diária contra a miséria, a invasão de ratos e insetos e a queixa contínua dos filhos com fome, já foi vencida pelo desespero. O pai, esmagado por uma civilização impiedosa, só tem a última esperança de receber um dia a ajuda que a cidade dá aos necessitados”.
O foco recai, sobretudo, sobre o menino Ely Samuel, cuja condição física e social se torna símbolo daquele ambiente. “Tem nove anos, mas a aparência de quatro. Seu corpo magro de subnutrido é recoberto de feridas, roído de baratas que invadem sua cama a cada noite. Na testa, um esparadrapo esconde a mordida de um rato”, descreve. E conclui com uma leitura que ultrapassa o quadro individual: “Se vencer a doença, não vencerá a sociedade”.
As imagens reforçam essa construção. Ambientes fechados, iluminação precária e sinais evidentes de abandono compõem o cenário. A pobreza, ali, aparece como parte da paisagem urbana, contrastando com a ideia de prosperidade associada aos Estados Unidos.
Logo na abertura da reportagem, a direção de O Cruzeiro deixa clara sua intenção: “Não podemos negar aqui a existência das favelas cariocas. Conhecemos o seu drama e o seu problema. Mas a miséria não é exclusividade nossa”.
O material vai além do conteúdo textual. O Cruzeiro reproduz páginas da própria reportagem da Life, adotando estrutura semelhante, enquadramentos próximos e até uma diagramação que reforça o paralelismo entre as duas narrativas. A comparação é direta e deliberada: de um lado, os barracos da favela carioca; do outro, os prédios deteriorados de Nova York.
A proposta era clara: estabelecer um confronto visual e narrativo entre duas realidades distintas, mas atravessadas pelo mesmo problema.
Se a reportagem da Life havia provocado comoção internacional, a de O Cruzeiro teve um efeito diferente. No Brasil, foi recebida como uma reação necessária. No exterior, porém, gerou desconfiança e críticas.
A publicação passou a ser acusada de manipulação. Uma das imagens mais polêmicas mostrava um menino deitado enquanto baratas circulavam sobre seu corpo – cena que levantou questionamentos sobre a veracidade do registro.
A imprensa americana reagiu, e o episódio ampliou o conflito entre as duas revistas.