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24 horas sem dormir: o que acontece com o cérebro quando o sono desaparece

Depois de 24 horas seguidas acordado, o cérebro já não funciona como em um dia comum. Entenda o que acontece quando o sono desaparece.

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Depois de 24 horas seguidas acordado, o cérebro já não funciona como em um dia comum. Afinal, pesquisas realizadas nas últimas décadas mostram que esse período de privação de sono altera de forma mensurável a atividade elétrica cerebral. Além disso, modifica o uso de energia pelas células nervosas e afeta diretamente processos essenciais, como a tomada de decisões, o controle das emoções e a capacidade de manter a atenção em tarefas simples. Em muitos casos, o desempenho cognitivo passa a se aproximar daquele observado em pessoas legalmente embriagadas por álcool.

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Esse quadro não é restrito a situações extremas de insônia crônica. Profissionais em plantão prolongado, estudantes em maratona de estudos, motoristas em viagens longas e trabalhadores em turnos noturnos vivem, com frequência, a experiência de ultrapassar um dia inteiro sem dormir. Assim, estudos de laboratório e análises em ambientes de trabalho indicam que, a partir desse ponto, o risco de erros graves aumenta. Ademais, a probabilidade de acidentes, conflitos interpessoais e decisões pouco racionais.

Depois de 24 horas seguidas acordado, o cérebro já não funciona como em um dia comum – depositphotos.com / dariakulkova.gmail.com

Como a privação de sono afeta o córtex pré-frontal em 24 horas?

O córtex pré-frontal é a região do cérebro associada ao planejamento, ao julgamento e ao controle de impulsos. Após 24 horas de vigília, exames de neuroimagem funcional registram queda na atividade dessa área. Em especial, nos circuitos ligados à análise de consequências e à flexibilidade cognitiva. Portanto, esa redução de atividade implica dificuldade maior em pesar prós e contras, organizar prioridades e inibir respostas automáticas inadequadas.

Em testes padronizados, pessoas privadas de sono por um dia completo cometem mais erros em tarefas que exigem raciocínio lógico e resolução de problemas. Afinal, as respostas ficam mais lentas, e a capacidade de atualizar informações na memória de trabalho aquela usada para manter dados em mente por poucos segundos é prejudicada. Ademais, em contextos profissionais que dependem de decisões rápidas, como unidades de saúde, transporte ou segurança, essa queda funcional do córtex pré-frontal pode resultar em escolhas de alto risco.

Outro ponto observado é a alteração no equilíbrio entre o córtex pré-frontal e estruturas mais antigas, como a amígdala. Com a vigília prolongada, a comunicação entre essas áreas tende a se tornar menos eficiente. Assim, abre espaço para reações mais impulsivas e menos moduladas pela análise racional. Portanto, a pessoa continua acordada, mas o cérebro passa a operar em um regime de menor supervisão executiva.

A falta de sono torna o cérebro comparável ao de alguém embriagado?

Pesquisas em desempenho cognitivo indicam que, após cerca de 17 a 19 horas sem dormir, a performance em tarefas de atenção sustentada já se assemelha à de indivíduos com níveis moderados de álcool no sangue. Agora, ao atingir 24 horas de privação, o comprometimento pode se equiparar ao estado de uma pessoa legalmente embriagada em vários países, considerando parâmetros de reflexo, vigilância e tempo de reação.

Esse paralelo não se limita à velocidade de resposta. Afinal, estudos comparativos mostram que, tanto na embriaguez quanto na privação de sono, há uma tendência a superestimar a própria capacidade e a subestimar riscos. Isso ocorre porque os sistemas de monitoramento interno de desempenho ficam prejudicados. Assim, mesmo com atenção e memória reduzidas, muitos indivíduos acreditam estar em plenas condições de dirigir, operar máquinas ou tomar decisões estratégicas.

Em testes de simulação de direção, por exemplo, participantes acordados há mais de 24 horas apresentam desvios de trajetória, frenagens tardias e lapsos de atenção semelhantes aos de condutores sob efeito de álcool. Ademais, essa condição passa a ser particularmente crítica em atividades repetitivas e monótonas, nas quais a mente tende a desligar de maneira involuntária.

O que são microssonos, falhas de memória e o papel do sistema glinfático?

Um fenômeno frequentemente observado após longos períodos sem dormir é o dos microssonos. Trata-se de episódios breves, geralmente de poucos segundos, em que partes do cérebro entram em um estado semelhante ao sono, mesmo que a pessoa mantenha os olhos abertos. Nesses intervalos, a percepção do ambiente cai de forma drástica. Assim, o indivíduo pode não registrar estímulos importantes, como um sinal de trânsito ou uma instrução no trabalho.

Os microssonos estão diretamente ligados ao desgaste dos sistemas que mantêm a vigília contínua. A privação prolongada faz com que o cérebro tente recuperar, em fragmentos, o descanso que não recebeu de forma consolidada. Esses episódios são imprevisíveis e podem ocorrer mesmo em pessoas motivadas a permanecer acordadas. Assim, aumenta o risco em atividades de alta responsabilidade.

No campo da memória, a falta de sono impede que o cérebro execute, de forma adequada, a consolidação de lembranças recentes. Durante o sono, especialmente na fase de sono profundo e no sono REM, há uma reorganização de conexões sinápticas que transfere informações do hipocampo para áreas corticais mais estáveis. Sem esse processo, conteúdos estudados ou experiências vividas ao longo do dia permanecem instáveis. Ou seja, isso resulta em esquecimento, confusão de detalhes e dificuldade para aprender novos conteúdos no dia seguinte.

Outra frente de estudo relevante envolve o sistema glinfático, mecanismo responsável pela limpeza de toxinas metabólicas acumuladas entre as células cerebrais. Durante o sono, esse sistema aumenta sua atividade, permitindo a remoção de subprodutos que surgem da atividade neuronal intensa, como a proteína beta-amiloide. Quando a pessoa permanece acordada por 24 horas seguidas, essa faxina é adiada, favorecendo o acúmulo dessas substâncias no espaço entre neurônios.

Embora a pesquisa ainda esteja em desenvolvimento, evidências sugerem que a repetição frequente de noites em claro possa contribuir, ao longo dos anos, para processos degenerativos. Em curto prazo, esse acúmulo de metabólitos está associado à sensação de mente pesada, dificuldade de concentração e maior irritabilidade, elementos que impactam diretamente o desempenho diário.

A privação de sono prejudica o processamento de recompensas, influenciando escolhas relacionadas a alimentação, uso de telas, consumo de substâncias e priorização de tarefas – depositphotos.com / mamin_den

Como a privação de sono altera a regulação emocional no dia a dia?

A regulação emocional depende de uma interação equilibrada entre o córtex pré-frontal e regiões subcorticais envolvidas em respostas de ameaça, recompensa e motivação. Após 24 horas sem dormir, estudos de ressonância magnética funcional apontam uma hiper-reatividade da amígdala a estímulos negativos, ao mesmo tempo em que há menor capacidade de modulação pelas áreas frontais. Isso se traduz em reações emocionais mais intensas e menos proporcionais ao contexto.

Na prática, essa alteração pode se manifestar em maior impaciência, interpretações mais defensivas de comentários neutros, tendência ao conflito e dificuldade em manter o controle diante de frustrações comuns. Em ambientes de trabalho e de estudo, essa instabilidade emocional favorece mal-entendidos, decisões precipitadas e queda na qualidade da comunicação.

Além disso, a privação de sono prejudica o processamento de recompensas, influenciando escolhas relacionadas a alimentação, uso de telas, consumo de substâncias e priorização de tarefas. O cérebro cansado tende a favorecer recompensas imediatas em detrimento de objetivos de longo prazo. Assim, mesmo assentado em dados científicos, o cenário observado nas pesquisas se conecta diretamente a situações cotidianas, em que a falta de sono altera não apenas o raciocínio, mas também a forma como cada pessoa lida com o próprio humor e com quem está ao redor.

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Diante desse conjunto de evidências, o sono aparece, nas investigações em neurologia e psiquiatria, como um componente central da saúde mental e física. A privação de 24 horas já é suficiente para afetar, de maneira concreta, o córtex pré-frontal, a regulação das emoções, a memória e os mecanismos de limpeza cerebral. Em um contexto social marcado por jornadas extensas, pressão por desempenho e exposição constante a estímulos digitais, a compreensão desses efeitos se torna fundamental para orientar políticas públicas, práticas profissionais e escolhas individuais que preservem a integridade do cérebro ao longo da vida.

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